Crítica: Agnaldo Rayol, a Alma do Brasil


 

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10-AGUINALDO RAYOL-By Janderson Pires-1927Por Renato Mello.

Projeto que vinha sendo gestado há alguns anos pelo ator Marcelo Nogueira, “Agnaldo Rayol, A Alma do Brasil” entrou finalmente em cartaz nessa semana no Centro Cultural dos Correios, em temporada que se estenderá até o dia 21 de dezembro.

Com texto escrito por Fátima Valença e direção de Roberto Bomtempo, o espetáculo é um mergulho na obra do cantor, que conheceu o auge do sucesso nos anos 50 e 60, numa trajetória artística que já dura mais de 60 anos. Fátima Valença criou uma estrutura dramática que não se preocupa necessariamente com a cronologia dos fatos. Diz-se que a vida são momentos, e é assim que o espetáculo é projetado, belas sequências da trajetória de Agnaldo Rayol, sem ser linear ou didático. Tudo feito com um imenso respeito e carinho.

Rayol esteve no auge justamente no momento em que ocorreram 2 importantes transições na vida cultural do país. É o instante em que o rádio começa a perder espaço para a televisão e o período em que a Bossa Nova possibilitou que compositores de voz pequena virassem cantores. Uma época difícil para as grandes vozes, que conheceram um declínio acentuado em suas carreiras, como Vicente Celestino, Anísio Silva e até mesmo grandes incentivadores do movimento da Bossa Nova, como Lúcio Alves e Dick Farney.  Rayol soube entender bem o que acontecia em torno e se adaptar às mudanças. Tanto que foi uma das figuras de proa dos primórdios da televisão brasileira, em que apresentou inclusive programas na TV Record, “Agnaldo Rayol Show” e o “Corte Rayol Show”. Sem abrir mão do seu repertório romântico, interpretou também com muita beleza algumas lindas canções da Bossa Nova, sem precisar aderir ao movimento.

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Nesse musical que se apresenta em cartaz, imagens de arquivo são projetadas em painéis, dando uma dimensão da força e importância de Agnaldo Rayol na história da música e televisão brasileira. No palco câmeras gigantescas, microfones enormes e no canto a banda formada por Cristina Bhering(piano e regência), Affonso Neto(bateria) e Luciano Correa(Violoncelo). Junto com esses momentos de Rayol, o espetáculo acaba como pano de fundo contando igualmente um pouco da evolução da própria televisão. O delicioso roteiro e a direção competente de Roberto Bomtempo conseguem envolver o público na sua aventura e transformam meros espectadores em uma verdadeira claque de programas de auditório, dando-lhes participação ativa, com direito até a plaquinhas indicativas pedindo “aplausos”.

Agnaldo Rayol e Marcelo Nogueira

Agnaldo Rayol e Marcelo Nogueira

Mas o ponto alto do espetáculo é justamente a atuação de Marcelo Nogueira. É aquele tipo de ator que basta uma cena para percebermos que estamos diante de um grande artista. Foi exatamente esse o meu sentimento quando ao assistir o musical “O Grande Circo Místico” ter me encantado com seu dueto com Ana Baird na canção “A Bela e a Fera”. A partir desse momento procurei não perde-lo de vista e acompanhei, mesmo que à distância, o desenvolvimento do seu projeto pessoal. Já posso contabilizar como um grande acerto de minha parte. Em “Agnaldo Rayol, a Alma do Brasil” percebe-se em cada cena a paixão que Marcelo devotou ao seu personagem. Sua composição é perfeita. Mas para isso teve que vencer alguns desafios. Para começo de conversa, Marcelo é tenor e Agnaldo é barítono, o que obrigou-o a estudar os graves. O modo de cantar também está nítido no trabalho, afinal Agnaldo é um dos últimos cânones de uma escola que está praticamente extinta. A empostação da voz, a sua projeção, tudo muito diferente dos nossos dias, até mesmo pela evolução dos microfones e da acústica nessas últimas décadas. Outros elementos também foram necessários para achar a verdade impressa no palco, a questão física, incluindo sua marca registrada que é o topete, além de todo o gestual. Não resta dúvida, Marcelo Nogueira em cena é de fato Agnaldo Rayol.

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Mas Marcelo Nogueira não está sozinho em cena. O restante do elenco é formado por Mona Vilardo, Stela Maria Rodriygues e Fabrício Negri. Mona Vilardo é sem dúvida a grande revelação, além de boa atriz, é dona de uma voz lindíssima. Escolha acertada. Stela Maria Rodriygues, atriz de enorme carisma e responsável por um dos melhores(e hilariantes) momentos com sua recriação de Hebe Camargo, com direito a todas suas típicas caras e bocas. Fabrício Negri tem talvez a missão mais ingrata, tendo que interpretar diferentes e díspares tipos, como o pai de Agnaldo, passando por Renato Murse e Renato Corte Real. Mas consegue se sair bem ao desafio.

A direção de Roberto Bomtempo é bastante exitosa nessa sua primeira experiência com um musical, tendo que lidar com elementos diferentes de um espetáculo convencional. Roberto procura não inventar, é direto, objetivo e consegue ser muito bem sucedido na empreitada. Soube levar Marcelo Nogueira a achar o tom perfeito do seu personagem, assim como soube tirar do restante do elenco momentos de grande humor, interagindo permanentemente com os espectadores, tudo com uma mão leve e delicada.

Um aspecto que merece ser ressaltado é o belíssimo trabalho de pesquisa musical. A escolha do repertório foi um acerto permanente. “Se fossem iguais a você“, “A praia“, “Estrada do Sol”, “Fascinação“, “Serenata do Adeus“, “Mia Gioconda“, “Ave Maria”. É preciso destacar igualmente os belos figurinos de Flavio Graff, igualmente realizando um competente trabalho de pesquisa e elementos fundamentais para a composição tanto do personagem central, como nos inúmeros personagens periféricos que circulam em torno da vida de Agnaldo.

Agnaldo Rayol, a Alma do Brasil” é um importante trabalho de resgate e um tributo a um artista que infelizmente não é conhecido das novas gerações, ou se conhecem, possuem uma visão distorcida e estereotipada sobre sua trajetória. Uma carreira repleta de êxitos e que bem merecia uma homenagem desse porte.

Foto de cena: Janderson Pires.

Serviço
Centro Cultural dos Correios – Av Visc de Itaboraí, 20, Centro
Temporada: 6 de novembro a 21 de dezembro
Ingressos: R$ 20,00(inteira) e R$ 10,00(Meia)

Agnaldo Rayol, a Alma do Brasil
Texto: Fátima Valença
Direção: Roberto Bomtempo
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Elenco: Marcelo Nogueira, Stela Maria Rodriygues, Mona Vilardo, Fabrício Negri
Músicos: Cristina Bhering(piano e regência), Affonso Neto(bateria) e Luciano Correa(violoncelo)
Cenografia: Flavio Graff
Iluminação: Felipe Lourenço
Preparação Vocal: Gloria Calvente
Coreografias: Toni Rodrigues
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti


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