Crítica: Agosto


 
Foto: Silvana Marques

Foto: Silvana Marques

Por Renato Mello

O teatro do Oi Futuro Flamengo recebe até o dia 17 de setembro a encenação de texto de um dos mais representativos autores norte-americanos, Tracy Letts. “Agosto”, no original “August: Osage County”, tem direção assinada por André Paes Leme a partir da tradução de Guilherme Siman, produzido por  Andrea Alves e Maria Siman.

Tracy Letts já havia demarcado seu território particular em peças curtas como “Bug” e Killer Joe”, desenhando uma construção dramática em permanente movimento, utilizando-se de senso de humor aguçado envolvo por um sadismo que carrega seus personagens rumo ao breu. Já em “Agosto”, texto original de 2007, Letts expande um sentimento opressor que progressivamente cria ramificações a ponto de abarcar por completo toda a atmosfera. Um dos aspectos que lhe permite atingir tal grau de densidade se deve pela maneira com que consegue delinear com absoluto equilíbrio onze personagens, dando-lhes individualmente uma espessura biográfica, entrelaçando três gerações de uma família que imerge ao abismo por tensões, silêncios, segredos e rivalidades não declaradas em um espaço geográfico deslocado no meio do mapa de uma América contemporânea, mas que ao mesmo tempo sepulta todo um ideal do Sonho Americano, que independente das oportunidades oferecidas pelo desenvolvimento daquela sociedade, não conseguem se desvencilhar do lodo que os sugam.

Ambientada em Oklahoma, durante o calor do mês de agosto, toda a pulsão dramática de Letts ocorre dentro da grande casa familiar, um mausoléu que aprisiona seus personagens, aonde a luz externa não mais interage com os seus habitantes e visitantes. A peça se inicia com a contratação de Johnna(Julia Schaeffer), uma descendente indígena que passará a cuidar das tarefas da casa. Nesse momento, Beverly(Isaac Bernat), o patriarca, entende que finalmente pode libertar-se das amarras que lhe afligem a alma. Seu desaparecimento é o argumento para o ponto de encontro, um lugar em que a dispersa família expande suas misérias, nesse ponto dialoga com a dramaturgia de “Festa de Família”(de Thomas Vitenberg), mas com o principal eixo de desequilíbrio expresso em Violet(Guida Vianna), que como aponta a sinopse oficial, “uma mulher que vive numa situação limite, literal e metaforicamente falando… faz quimioterapia para um câncer de boca, e talvez sua morte esteja anunciada. Metaforicamente, porque sua família está se desmantelando: o marido sumiu, as filhas só esperam o funeral para partir, e a ela só restará permanecer sozinha aos cuidados de uma empregada que ela não conhece”.

Foto: Silvana Marques

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A direção de André Paes Leme tem o grande mérito de construir cenas em meio a uma profusão de sentimentos e intenções que decorrem paralelamente, de maneira que cada uma delas fique bem enfatizada, sem a diluição da carga dramática contida no texto de Letts, mesmo quando opta por colocar duas cenas paralelas sob um mesmo plano. Equilibra harmonicamente o nível do tensionamento de cada um dos personagens, não permitindo que nenhum deles permaneça displicentemente em cena, dando uma real significação para cada alma “perdida” na grande sala de refeições.

O enorme elenco é formado por Guida Vianna (Violet Weston), Letícia Isnard (Barbara Fordhan), Alexandre Dantas (Steve Heidebrecht), Claudia Ventura (Karen Weston), Claudio Mendes (Charlie Aiken), Eliane Costa (Mattie Fae Aiken), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly Weston/Bill Fordham), Julia Schaeffer (Johnna Monevata), Lorena Comparato (Jean Fordham) e Marianna Mac Niven (Ivy Weston), que compõem um intricado jogo coletivo muito bem disposto, com personagens se sobrepondo aos outros até o erguimento de um forte grito dramático, com cada peça disposta cirurgicamente em cena. Os personagens femininos dominam as ações, deixando os homens à deriva e inertes, circundando o ambiente familiar como um enorme redemoinho. Cabe destacar a presença de Guida Vianna celebrando 40 anos de carreira num papel de tal grau de complexidade, absorvendo por inteiro e com absoluta precisão o peso dos picos emocionais, atingindo o grande Drama(não confundir com dramalhão) ou mesmo um humor nervoso. Notável atuação de Guida Vianna! Suas três filhas sofrem tortuosamente com o preenchimento verbal daquilo que não foi dito em mais de 40 anos de relação familiar. Letícia Isnard vivendo Barbara tem uma atuação no mesmo nível de brilhantismo de Guida Vianna, expondo força sobre uma oculta fragilidade, com necessidade de tomar o pulso de uma situação que não tem a capacidade de controlar, seja na relação familiar, no naufrágio conjugal ou no choque com a filha Jean(Lorena Comparato). Claudia Ventura(Karen) representa um personagem que necessita viver sob a permanente ilusão de uma felicidade à espreita que ao fim sempre desmorona. Pensa finalmente ter encontrado o grande amor, enquanto sonha som uma lua de mel em Belize, vendando os próprios olhos para não comprometer suas ilusões. Já Ivy, vivida por Mariana Mac Niven, demonstra dificuldade para desatar os nós familiares e entende que finalmente chegou o momento de levantar voo próprio. Julia Schaeffer representa de certo modo o nosso olhar para aquele mundo particular, uma visão exterior, aparentemente contemplativa, mas suas ações e o próprio sofrimento que carrega, de algum modo interferem com maturidade em meio a uma insanidade reinante. Isaac Bernat tem atuação destacável igualmente, tentando equilibrar ações entre as quais ele próprio é um elo para desestabilização, que o ator exterioriza com economia de gestos, mas com extrema significação.

A cenografia de Carlos Alberto Nunes consegue impor-se com o essencial, preenchendo o peso da decrepitude familiar, mas ao mesmo tempo libertando os espaços cênicos e permitindo uma melhor fluidez das ações. Patrícia Muniz cria figurinos, que além dos elegantes desenhos e cortes de visível qualidade, ajudam à compreensão interna de cada personagem.

A iluminação de Renato Machado revela-se importante elemento de composição da atmosfera, que vai revelando camadas e aspectos distintos, como o painel virado ao público, que expõe novas possibilidades ao andor cênico.

Agosto” tem uma dramaturgia do mais alto nível, mas que contém um grau elevado de dificuldade e diversos desafios em seu percurso, que a direção de André Paes Leme conseguiu equacionar admiravelmente.

Foto: Silvana Marques

Foto: Silvana Marques

Ficha técnica
Texto: Tracy Letts
Tradução: Guilherme Siman
Direção e Adaptação: André Paes Leme
Direção de Produção: Andrea Alves e Maria Siman
Idealização e Coordenação Geral: Maria Siman

Elenco: Guida Vianna (Violet Weston), Letícia Isnard (Barbara Fordhan), Alexandre Dantas (Steve Heidebrecht), Claudia Ventura (Karen Weston), Claudio Mendes (Charlie Aiken), Eliane Costa (Mattie Fae Aiken), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly Weston/Bill Fordham), Julia Schaeffer (Johnna Monevata), Lorena Comparato (Jean Fordham) e Marianna Mac Niven (Ivy Weston).

Diretor Assistente: Anderson Aragón
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Figurino: Patrícia Muniz
Iluminação: Renato Machado
Música: Ricco Viana
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotografia: Silvana Marques
Patrocínio: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Oi
Copatrocínio: Multiterminais
Co-realização: Oi Futuro
Realização: Primeira Página Produções, Sarau Agência de Cultura Brasileira, Ministério da Cultura, Governo Federal – Brasil Ordem e Progresso.

Serviço
Oi Futuro – Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro (tel. 21 3131-3060)
Lotação do teatro: 63 pessoas
Temporada: 3 de agosto a 17 de setembro, quinta a domingo, às 20h
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)
Venda na bilheteria de 3ª feira a domingo, das 14h às 20h ou pelo site ticketplanet.com.br
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 120 minutos
Gênero: Drama

Atendimento à Imprensa
Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa


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