Crítica: Ainda Aqui


 

Ainda aqui 3

Por Renato Mello.

Em dezembro de 2014 tive a oportunidade de assistir ao espetáculo “Ainda Aqui”, dirigido por Vinicius Baião e que já ganhou mais de 40 prêmios em diversos festivais pelo país. O espetáculo está fazendo sua reestreia, agora para uma temporada no Teatro Municipal de Niterói. Aproveito a ocasião para republicar a crítica feita ao espetáculo e deixar minha recomendação pessoal para essa bela e sensível criação da Cia Cerne.

Ainda Aqui” apresenta a proposta de uma representação teatral pura na sua essência, colocando toda a força de sua dramatização na estrutura narrativa, na potência dos diálogos e na qualidade dos atores(Higor Nery e Leandro Fazolla). Vinicius Baião não teve medo de correr riscos e abriu mão de qualquer elemento de distracionismo, focando sua peça na pureza de um teatro nu e visceral.

Um cenário completamente negro ao fundo. No centro apenas um par de correntes de ferro com alguns cadeados que sustentam um pneu. Ao redor do palco um enorme círculo também formado por correntes de ferro. Isso é tudo que Vinicius Baião com Higor Nery e Leandro Fazolla necessitam para tecer um complexo cenário do ciclo de uma vida que começa e termina na violência e bestialidade que só o homem é capaz de produzir. A partir das correntes e do pneu tudo acontece e se transforma. O par de correntes pode se tornar um elemento de tortura ou um par de traves futebolísticas, o pneu pode ser uma privada ou um banco. O que importa mais é o que está sendo dito diante desses objetos indefinidos no tempo e espaço do espetáculo.

O ciclo de vida de Maurício vai sendo revelado no meio desse enorme círculo, com o tempo indo e vindo, girando para frente ou para trás através dos ponteiros humanos que giram ao seu redor.

Temas como luto, violência, repressão e Alzheimer fazem parte da temática da peça, que teve como ponto de partida a epístola de Tiago(“Da mesma boca procedem bênção e maldição”). A partir do desaparecimento de Maurício, preso e torturado pelo Estado repressor, desencadeia-se a construção dramática de uma estrutura familiar delineada pelo amor e afeto entre mãe, pai e filho. Através dos lapsos de memória da mãe Maria, portadora do mal de Alzheimer, o passado recente torna-se frágil diante de um histórico de familiar sólido, confrontado com uma realidade de dor e perda.

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Para dar a vida a essa história, Higor Nery e Leandro Fazolla não contam com qualquer figurino rebuscado ou uma cenografia grandiosa. Um agente repressor, 2 vizinhas fofoqueiras, estudantes, o pai Jorginho, a mãe Maria, e Maurício(bebê, criança ou jovem) em todas as fases de sua breve vida, são alguns dos personagens interpretados pela dupla. Os únicos instrumentos de Higor e Leandro são suas expressões corporais ou faciais e suas modulações vocais. O que fazem com enorme qualidade e veracidade. Ambos encontram-se da primeira à última cena equilibrando-se numa corda bamba e sem rede de proteção. Não é uma farsa que está sendo representada, trata-se de um texto denso e difícil, que ambos se desdobram com competência e conseguem fugir da armadilha de cair na caricatura. Importante ressaltar o trabalho de preparação corporal de Marcio Paulo Vasconcellos para o convincente e ótimo desempenho de ambos atores, que em cena trocam e sem completam com grande competência.

É preciso destacar a ousadia de Vinicius Baião. Escreveu um bom texto, que não nos entrega suas respostas facilmente. É preciso irmos aos poucos montando um quebra-cabeças para alcançarmos o desdobramento da história e sua complexidade. Permite as mais diferentes encenações e mesmo que optasse por uma dramatização mais convencional, seria possível resultar um bom espetáculo. Mas Viniciusoptou por esse risco. O resultado poderia ser desastroso se não tivesse sido conduzido pelas mãos de alguém com sensibilidade e com a convicção dos seus atos. Vinicius Baião ganhou a aposta e levou ao palco do Teatro Ziembinski um espetáculo de grande qualidade dramatúrgica e enorme vigor.

Ainda Aqui” é uma interessantíssima experiência teatral e que aguardamos para breve novas encenações com uma maior visibilidade para um espetáculo feito por artistas inquietos que não se contentam com o lugar comum e que estão abertos para todas as possibilidades que uma peça teatral pode proporcionar.

SERVIÇO
ainda aqui 1Teatro Municipal de Niterói
Período: De 17 a 26 de julho (sextas e sábados, às 20h; e domingos às 19h.)
Gênero: Drama
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 55 minutos
Ingresso: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia)

FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Vinicius Baião
Elenco: Higor Nery e Leandro Fazolla
Consultoria em Teologia: Benedito Zanobia
Consultoria em Psicologia: Stephany Lopez
Preparação Corporal: Marcio Paulo Vasconcellos
Direção Musical: Vinicius Bailão
Produção Musical: Marlos de Paulo Rosa
Vozes: Leandro Simma e Marlos de Paulo Rosa
Cenografia: Leandro Fazolla
Figurino: Cia Cerne
Maquiagem: Higor Nery
Iluminação: Arthur Souza
Fotos: Stephany Souza
Apoio: Camila Fagundes e Vinicius Andrade
Produção: Cia Cerne


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