Crítica: Anti-Nelson Rodrigues


 

anti-nelson rodrigues 2

Por Renato Mello.

Uma das peças menos encenadas e conhecidas de Nelson Rodrigues se apresenta atualmente no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro para uma temporada relativamente curta, que terminará no dia 31 de maio, “Anti-Nelson Rodrigues”, com direção de Bruce Gomlevsky.

Auto referenciada não somente no título, mas igualmente em vários diálogos do texto, já é uma obra da fase final e madura da carreira do dramaturgo, quando tinha alcançado a consolidação de sua carreira, atingido a condição de mito, tanto venerado quanto atacado. A peça foi escrita após um intervalo de 8 anos desde seu trabalho anterior e foi seu penúltimo texto teatral. Em “Anti-Nelson Rodrigues” podemos encontrar vários dos arquétipos que fazem parte da extensa galeria dos personagens rodrigueanos: a virgem impossível, o mulherengo sem caráter, a mãe que idolatra o filho em contrapartida com o pai que o rejeita, assim como vários elementos característicos de sua obra: o poder financeiro comprando escrúpulos ou a insignificância social de um contínuo. Assim como podemos utilizar a citação de uma outra peça sua(“Bonitinha mas Ordinária”) que também pode ser encaixada no contexto desse espetáculo: “A família é o inferno de todos nós”. Enfim, a essência da obra de Nelson Rodrigues está permanentemente presente.

Segundo as principais fontes bibliográficas, Nelson Rodrigues escreveu “Anti-Nelson Rodrigues” para se livrar do cerco de 6 meses exercido pela atriz Neila Tavares. Sua primeira montagem foi realizada em 1974, com direção de Paulo César Pereio e como protagonistas José Wilker, Neila Tavares e Carlos Gregório. Recentemente houve uma montagem em São Paulo com direção de Eduardo Tolentino. Uma das frases mais contundentes, “Já reparou que o rabo de grã-fina não tem perfil?” só não foi censurada porque o próprio Nelson Rodrigues teria implorado pela sua manutenção à censora: “Minha senhora, eu lhe peço de joelhos. Deixe o rabo. Pelo amor de Deus. A senhora corta tudo, menos o rabo. O rabo é essencial”.

Anti-Nelson Rodrigues” conta a história do rico herdeiro Oswaldinho, inescrupuloso, mulherengo, filho único de Tereza e Gastão. Mimado pela mãe, desprezado pelo pai, se torna o presidente de uma das fábricas da família e se encanta por uma funcionária recém contratada: A suburbana Joice, firme e decidida, é o centro da vida do pai viúvo – Salim Simão, ele próprio um “personagem de Nelson Rodrigues”.  Acostumado a conseguir tudo o que quer, Oswaldinho tenta comprar e corromper os valores de Joice em seu desejo de conquista-la, mas Joice não é como as outras e não se deixa levar pelo dinheiro.

4_Yasmin Gomlevsky e Joaquim Lopes_CreditoPapricaFotografia

A inserção de Bruce Gomlevsky nesse espetáculo é sem sombra de dúvidas um enorme benefício para esta montagem, levando-se em conta que poucos encenadores do teatro nacional tem sua capacidade de atingir a essência de personagens atormentados do fundo de suas almas, como normalmente acontece com os tipos criados da mente de Nelson Rodrigues, sabendo o diretor conduzir seu elenco para a o tom de eloquência que se necessita a composição de tais personagens. Na criação da atmosfera do espetáculo, Bruce optou por um cenário escuro(assinado por Pati Faedo), com uma abertura na parte central do tablado, de onde entram os objetos que comporão das sequências criadas pelo diretor. Tal composição acabou por eliminar elementos distracionistas, focando totalmente a encenação na força dos diálogos e na intepretação do elenco.

O elenco é composto por Tonico Pereira(Salim Simão), Joaquim Lopes(Oswaldinho), Juliana Teixeira(Tereza), Yasmin Gomlevsky(Joice), Rogério Freitas(Gastão), Carla Cristina(Helenice) e Gustavo Damasceno(Leleco). São papeis bastante heterogêneos, que a direção de atores de Bruce Gomlevsky consegue levar o seu elenco ao tom correto, com a exacerbação necessária ao que pede um texto de Nelson, mas sem resvalar nos exageros que por vezes alguns diretores acabam por cair. Tonico Pereira, sem dúvida um dos grandes atores nacionais, vive um daqueles típicos personagens que Nelson Rodrigues tirou da vida real para ganhar vida própria num palco de teatro, criando um tipo que é retratado como algo patético por sua obsessão pela manutenção de alguns valores que para o anos 70 já soavam ultrapassados, o que só contribui para a construção dessa aura do personagem. Joaquim Lopes interpreta Oswaldinho, caráter nenhum, com obsessão pela virgindade da empregada da fábrica que dirige. Devo confessar que de antemão considerei sua escalação equivocada, mas após assistir à apresentação tenho apenas a lamentar meu preconceito com o ator, do qual só conhecia de algumas parcas cenas assistidas na televisão. Sua atuação como o típico canalha de Nelson Rodrigues é muito boa, atingindo um alto nível de interpretação, com a modulação, expressões e os gestos em perfeição ao que pede o personagem É um grande prazer para mim entrar com uma visão pré-concebida sobre um ator e após sua interpretação me sentir obrigado a rever meus valores. Juliana Teixeira e Rogério Freitas formam o núcleo familiar de Oswaldinho, que juntos criam o antagonismo necessário, exercendo forças e sentimentos distintos. Em cena a troca entre Juliana e Rogério é muito bem realizada. Rogério tem uma atuação eloquente e quando está em cena, sua presença se impõe por uma intepretação marcante. Yasmin Gomlevsky como Joice, que confrontada pelo dilema moral, mantém toda sua firmeza de caráter. A atriz atua com correção, dentro de um personagem que aparenta ter uma indivisibilidade e aparentemente não deixa portas abertas para a dualidade, características que a atriz seguiu de maneira exemplar, fazendo o espectador sempre ficar aguardando o que estaria realmente predestinado ao personagem e o que se passaria de íntimo dentro de seu ser. O elenco se completa com Carla Cristina como a empregada de Salim Simão e Gustavo Damasceno como Leleco, o cúmplice e capacho de Oswaldinho, um dos atores que considero dos mais interessantes do teatro carioca.

6_Yasmin Gomlevsky e Tonica Pereira_CreditoPapricaFotografia

A boa iluminação de Luiz Paulo Nenem está de acordo com a atmosfera criada por Bruce Gomlevsky, sendo bem utilizada para efeitos dramatúrgicos e trabalhando eventualmente nos focos de determinadas sequências, realçando a dramaticidade da cena. Interessante ressaltar o trabalho do pianista Francisco Pons pontuando o espetáculo por alguns acordes de tangos.

Anti-Nelson Rodrigues” é uma peça com todos os ingredientes que encantam aqueles que admiram a obra do Anjo Pornográfico, numa montagem realizada com a habitual competência de Bruce Gomlevsky e por um primoroso elenco que tem a perfeita noção de como se interpreta um autêntico Nelson Rodrigues.

1_Juliana Teixeira e Joaquim Lopes_CreditoPapricaFotografia

Fotos de Cena: Paprica Fotografia.

Ficha Técnica:
Direção: Bruce Gomlevsky
Com Tonico Pereira, Joaquim Lopes, Juliana Teixeira, Yasmin Gomlevsky, Rogério Freitas, Carla Cristina e Gustavo Damasceno

Iluminação: Luiz Paulo Nenem / Direção Musical: Mauro Berman
Cenário: Patti Faedo / Figurinos: Nívea Faso / Visagismo: Márcio Mello
Assistente de Direção: Luiza Maldonado
Direção de Produção: Juliana Teixeira

Produção Executiva: Quintal Produções Artísticas | Verônica Prates
com Maitê Medeiros (Gestora de Projetos) e Fellipe Marques (Assistente de Produção)

Realização: Nova Bossa Produções Culturais
De 29 de abril a 31 de maio, sempre de quarta a domingo às 19h30
Duração: 70 minutos
Ingressos: R$ 10 (inteira) – meia ( R$ 5) para estudantes e idosos
Classificação etária: 14 anos
Gênero: tragicomédia

CCBB – Teatro III – Capacidade: 86
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – 21 3808-2020
bb.com.br/cultura – twitter.com/ccbb rj – facebook.com/ccbb.rj
SAC 08007290722 – ouvidoria BB 08007295678
Deficientes Auditivos ou da Fala 08007290088

Assessoria de imprensa VERBO VIRTUAL
Luciana Medeiros e Paula Catunda
lucianamedeiros@verbovirtual.com.br
paula.catunda@gmail.com


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

abril 2017
D S T Q Q S S
« mar    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30