Crítica: Antologia do Remorso


 

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Por Renato Mello.

Após uma recém finalizada temporada no Sesc Tijuca, o espetáculo “Antologia do Remorso”, dirigido por Daniel Belmonte, inicia a partir do próximo dia 3 de julho uma nova temporada, dessa vez no Teatro Gonzaguinha, Cidade Nova, que se estenderá até o dia 26 de julho.

Com uma dramaturgia elaborada a partir dos contos escritos por Flavia Prosdocimi, “Antologia do Remorso” reúne uma coletânea de histórias curtas, mas com uma unidade temática muito bem definida que acaba por formar uma importante estrutura de um estudo dos relacionamentos conjugais em suas diversas formas e facetas, apresentando “casos de violência e a degradação das relações cotidianas”.

Quando falamos de temas como “relacionamentos conjugais”, “casos de violência” e “relações cotidianas” o nome de Nelson Rodrigues é imediatamente lembrado e essa influência é assumida pela própria produção. Afinal, ninguém desnudou a podridão do relacionamento familiar com tanta veemência e genialidade quanto Nelson. Essa influência é notada na estruturação das ações sob elementos tão latentes e ao mesmo tempo equidistantes entre si em sua obra, como o humor e a tragédia dentro de um mesmo quadro. Mas enquanto assistia ao espetáculo, um outro nome também me vinha a mente: Jô Bilac. Um autor que tal como ocorre agora com “Antologia do Remorso” teve interessantes montagens recentes a partir de contos curtos com uma temática similar, como “Delírio & Vertigem”, de Rita Clemente e “Paraíso Zona Sul”, de Nirley Lacerda. Jô Bilac é um autor que  consegue enredar e transformar o cotidiano em algo muito mais complexo e interessante quando o patético ganha uma maior dimensão e mesmo a patologia passa a sufocar a alma humana, mas sem jamais perder o humor. Na minha visão esse universo de Bilac dialoga com muita força com os ótimos textos produzidos por  Flavia Prosdocimi.

O texto de Flavia traz uma dinâmica instigante, muito bem construída, diálogos fortes e com uma diversidade de enfoques sobre os relacionamentos humanos.  O modo como Daniel Belmonte costurou as histórias acaba por revelar um painel extremamente interessante e ágil, que resultam num espetáculo pulsante.

Daniel Belmonte não utiliza elementos de distração para construir seu universo. Tem a consciência que a força de sua peça reside em 2 elementos: a dramaturgia e os atores. Todas suas atenções são voltadas para as palavras e ações, tendo um resultado final de grande qualidade. Constrói cenas sólidas, com uma boa ocupação de todo o espaço do palco do Sesc. Para a elaboração e desenvolvimento do espetáculo utiliza-se apenas de 3 cadeiras, com diversas utilidades cênicas e bastante funcionais (criação de Julia Marina). Um interessantíssimo elemento é a trilha sonora, elaborada pelo próprio diretor, que vai do dramalhão de Vicente Celestino, “O Ébrio”, passando por Roberto Carlos, que realizam um belo casamento com as cenas e a atmosfera desenhada.

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O elenco formado por Elisabeth Monteiro, Tiago D’Avila e Gustavo Barros realiza uma bela atuação conjunta, numa troca que não é somente bem-sucedida como necessária de acordo com o modo como o espetáculo foi estruturado. Tiago D’Avila e Gustavo Barros realizam um interessante jogo cênico, em especial quando invertem os personagens. Conduzidos com competência por Daniel, os atores trocam os papeis, mas o personagem mantém-se inalterado, mesmo se há diferentes nuances em cada ator, a essência permanece. Elisabeth Monteiro sempre como uma espécie de pião entre os homens ao seu redor tem uma excelente atuação. Sem dúvida uma atriz de grandes recursos técnicos, expressiva, forte personalidade em cena e que entra no campo do humor com enorme competência. Fundamental destacar a ótima preparação colocada à disposição para que os atores tivessem o suporte necessário para as atuações destacadas através do trabalho de expressão corporal realizado por Milene Pimentel e a preparação vocal de Verônica Machado.

Os figurinos Julia Marina de acordo com o perfil dos distintos personagens, tem a neutralidade necessária para a diversidade cênica das histórias. A iluminação de Tiago Mantovani dialoga com competência com a estética proposta por  Belmonte, sendo elemento de destacada contribuição para a atmosfera imaginada pela autora e pelo diretor.

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A partir de “Antologia do Remorso” vai ganhando forma a trajetória desenhada por Daniel Belmonte na atual cena do teatro carioca. Conheci seu trabalho a partir da montagem de “Uma Carta Perdida”, uma peça de época a partir de um texto clássico, mas com uma montagem bastante dinâmica. Posteriormente assisti “Peça Ruim”, um espetáculo com um tom “falsamente” anárquico e extremamente original, em que é possível notar um Daniel Belmonte livre de qualquer amarra e sem medo de levantar voos ousados. Agora Daniel vem à baila com um espetáculo que tem uma estética e proposta muito bem definidas, além de bem estruturada dramaturgicamente, falando de relações humanas de modo mais profundo. São 3 espetáculos completamente diferentes, demonstrando um diretor que se sente à vontade nos mais diversos enfoques, universos e dinâmicas.

Com a nova temporada de “Antologia do Remorso”, agora no Teatro Gonzaguinha, cria-se uma nova oportunidade do público ter contato com uma dramaturgia de qualidade, numa bela montagem com grandes interpretações.

FICHA TÉCNICA
antologia_do_remorso_divulgacao02_creditos_rodrigo_daboitContos: Flávia Prosdocimi
Direção: Daniel Belmonte
Elenco: Elisabeth Monteiro, Gustavo Barros e Tiago d’Avila
Iluminação: Tiago e Fernanda Mantovani
Cenário e Figurino: Julia Marina
Trilha sonora: Daniel Belmonte
Preparação corporal: Milene Pimentel
Preparação vocal: Verônica Machado
Design Gráfico: Samuel Sajo
Redes sociais: Bruna Jardim
Fotógrafo: Rodrigo Daboit
Visagismo: Rafa Monteiro
Operador de som: Julianna Firme
Operador de luz: Tiago Mantovani
Costureira: Selma Mantovani
Produção: Flávia Prosdocimi e Tiago Mantovani
Assessoria de imprensa: Duetto Comunicação
Realização: Sesc., Amoreira Cultural e Nota Jazz Produções Artísticas

SERVIÇOS
Teatro Gonzaguinha – Centro Cultural Calouste Gulbenkian
Rua Benedito Hipólito 125 – Cidade Nova
De 03 a 26 de julho (sex. sáb. 20h e dom 19h)
Gênero: Tragicomédia


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