Crítica: As Bodas de Fígaro


 

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Por Renato Mello.

Acaba de estrear na Casa de Cultura Laura Alvim o espetáculo teatral “As Bodas de Fígaro”, texto de autoria de Pierre-Augustin de Beaumarchais e que deu origem à clássica ópera de Mozart. A adaptação que se apresenta agora tem a direção de Daniel Herz e tradução de Barbara Heliodora, numa temporada que irá até o dia 8 de fevereiro.

As Bodas de Fígaro” foi escrita em 1784 e faz parte de uma trilogia criada por Beaumarchais que inclui ainda “O Barbeiro de Sevilha” e a “Mãe Culpada”. A obra acabou censurada na França o que obrigou a Beaumarchais reescrevê-la situando sua trama para Sevilha, devido ao modo como crítica os hábitos e abusos da nobreza, com quem inclusive mantinha relações próximas, já que era professor de música dos filhos de Luiz XV. Mesmo que utilizando-se de um tom bufo causou desconforto nas camadas mais poderosas de seu tempo. Mesmo Mozart não passou incólume por “As Bodas de Fígaro”, apesar de ser considerada sua obra-prima.

Mas não há ninguém melhor e mais habilitada que Barbara Heliodora para contextualizar a obra:

As Bodas de Fígaro” é uma comédia ágil, brilhante, escrita por um homem que tinha uma intenção muito clara, mas sabia que a comédia é feita para divertir, e que a crítica fica muito mais penetrante quando o público a vê apresentada em um bom espetáculo…

Quando o criador é um Beaumarchais, tanto o humor quanto a crítica continuam válido ao longo dos séculos, e são capazes de nos divertir e deixar clara sua intenção crítica hoje tanto quando foram criadas, há mais de dois séculos

A ação da peça começa com Fígaro(Leandro Castilho) e Suzana(Carol Garcia), empregados do Conde de Almaviva(Ernani Moraes), cuidando dos preparativos do seu casamento e medindo o espaço para colocação dos móveis no quarto onde irão habitar. Suzana alerta sobre a inadequação do lugar, enquanto Fígaro enumera as vantagens, quando ela então lhe conta que o Conde pretende exercer o direito da “pernada”, uma prática ancestral que consiste no Senhor tomar o lugar do noivo na noite de núpcias. Gravitando em torno do casal estão o Dr Bartolo(Ricardo Souzedo), que odeia Fígaro, e a governanta Marcelina(Claudia Ventura), que ambiciona impedir as núpcias de Fígaro, pois pretende tê-lo para si. Cherubino(Tiago Herz), o namorador pajem que se encontra em problemas sérios ao ser flagrado com Barbarina(Carolina Vilar), a filha do jardineiro(Adriano Saboya), recorre a Suzana para tentar sair de suas confusões. Em meio a esse pandemônio, Fígaro tenta se equilibrar, tentando ultrapassar os obstáculos que vão surgindo para que possa finalmente se casar com sua amada Suzana.

Embora seja uma obra notadamente situada dentro da sociedade francesa pré-revolucionária, não há nessa encenação uma localização exata de onde se passa. Começando com os figurinos, criados por Antonio Guedes, que mistura referências de época mescladas com elementos contemporâneos. O mesmo é possível notar no cenário de Nello Marrese, utilizando um fundo que se dá um certo ar solene, aparentando veludo, há paralelamente um certo despojamento proposital, com ambientes criados a partir do posicionamento de cadeiras de acrílico que vão tendo sua ordem alterada permanentemente ao longo da encenação. Essa proposta, que procura encontrar uma atemporalidade por parte de Daniel Herz acabou sendo extremamente bem sucedida e é possível adequá-la perfeitamente ao tom de farsa empregado na concepção do espetáculo.

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Daniel Herz com parte do elenco

Mas um dos aspectos fundamentais para que ocorresse o êxito da proposta está na parte musical. Não é nenhum exagero colocarmos Leandro Castilho na qualidade de coautor do trabalho. Sua direção musical é um trabalho de altíssimo nível, belo e acima de tudo, de enorme criatividade. Temos Mozart em cena, mas os 13 números musicais foram recriados, dando-lhes uma versão mais abrasileirada através de elementos de samba ou maracatu. Todos os instrumentos e números musicais são tocados em cena e ao vivo por todos os atores.

Como se seu trabalho na direção musical já não fosse por si só um trabalho de excelência, a atuação de Leandro Castilho como o protagonista Fígaro não fica atrás. Primeiramente funciona como um importante apoio e elemento de segurança para todo o elenco. Em muitos momentos a ação se desencadeava a partir de um discreto gesto seu, uma sutil batida de perna ou um simples olhar. Leandro é um maestro em cena, não só na parte musical, mas inclusive na parte cênica. Além de ser um ator extremamente engraçado, atrai enormes gargalhadas com o Fígaro que criou, no tom correto da farsa. Uma atuação completa.

Ernani Moraes, como o Conde de Almaviva, tem igualmente brilhante atuação. É aquele tipo de ator que é delicioso ficar parado, olhando-o representar. Sabe usar com maestria todo o seu corpo e principalmente, a potência de sua voz. Um timing perfeito de comédia e que arranca gargalhadas com a prepotência e a falha de caráter do seu personagem. Que grande ator é Ernani Moraes! Carol Garcia cria uma Suzana que encanta a plateia com suas artimanhas e soluções supostamente engenhosas. Carol, além de ótima atriz é acima de tudo uma cantora maravilhosa. Outro grande destaque é Tiago Herz, com seu jovem personagem dono de uma volúpia insaciável, típica daquela fase da vida em que os hormônios estão em ebulição, fazendo do jovem quase um tarado patológico que não pode ver um rabo de saia. Confesso que pinçar alguns destaques em “As Bodas de Fígaro” é um trabalho ingrato, pois TODO o elenco tem grande atuação. Não podemos deixar de elogiar igualmente Adriano Saboya, Alexandre Dantas, Carolina Vilar, Claudia Ventura, Ricardo Souzedo e Solange Badim, que juntos formam um elenco harmônico e de grande competência. Não existe entre eles ninguém que esteja em um patamar de inferioridade ou que destoe da proposta de Daniel Herz e Leandro Castilho.

A tradução de Barbara Heliodora é um trabalho primoroso. É encantador acompanhar a construção artesanal com que Barbara trabalha as situações e os diálogos em cada contexto. Realça todo o humor que se encontra na obra de Beaumarchais com o tom correto para cada ação, sem deixar de sublinhar toda a crítica ali contida.

Daniel Herz mais uma vez  realiza um impecável trabalho de direção. Imprime em cena um ritmo alucinante, repleto de intrigas e situações hilárias que se sucedem o tempo todo. A dinâmica movimentação dos atores em cena é perfeitamente sincronizada . “Ao longo dos cinco atos da peça, os atores trabalham muito. E o público vê, de fato, os atores construindo o teatro”, comentou Daniel Herz ao Rio Show. Todos o elenco, sem nenhuma exceção e mesmo para os que tem papeis “menores” sabem perfeitamente o porquê de cada intenção e o tom correto em cada gesto utilizado. A inquietude criativa de Daniel traz para os seus espetáculos uma ambientação original, sempre consegue nos surpreender com sua escolha pelos caminhos da inovação e pelo combate do que existe de convencional numa obra clássica.

As Bodas de Fígaro” é mais um excelente espetáculo teatral desse grande encenador do teatro nacional, que teve em Leandro Castilho um parceiro fundamental no grau de qualidade atingido.

As Bodas de Fígaro
Casa de Cultura Laura Alvim – Ipanema
Texto: Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais
Direção: Daniel Herz
Tradução: Barbara Heliodora
Adaptação, direção e atuação: Leandro Castilho
Elenco: Adriano Saboya, Alexandre Dantas, Carolina Vilar, Carol Garcia, Claudia Ventura, Ernani Moraes, Leandro Castilho,Ricardo Souzedo, Solange Badim, Tiago Herz


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