Crítica: As Duas Guerras de Vlado Herzog


 

Sem dúvida “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, editado pela Civilização Brasileira, é um dos livros mais relevantes do ano não só pela sua qualidade literária, mas principalmente pela seriedade e honestidade como aborda um tema tão importante e até hoje muito comentado. Não foi a toa que foi um dos grandes vencedores do Jabuti este ano, aonde levou o prêmio de Melhor Livro de Não Ficção.

Seu autor, o jornalista Audálio Dantas desenvolveu sua obra no formato de uma grande reportagem, aonde através de depoimentos, pesquisas em arquivos e principalmente se valendo de suas próprias memórias, Audálio reconstituiu os últimos momentos de vida de Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI, tentando levantar os bastidores de  sua prisão e o que aconteceu no interior daquele sombrio prédio aonde lhe era tirado a vida, assim como narra não só como testemunha ocular, mas como agente protagonista dos desdobramentos resultantes do seu assassinato, tudo do ponto de vista de dentro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, do qual era presidente naqueles dias tenebrosos.

Audálio testemunha aquele momento fundamental, o início da virada aonde se deu o primeiro passo concreto para o lento fim da ditadura, um episódio que teve como uma de suas principais conseqüências o rompimento do grande silêncio da imprensa e quando se conseguiu colocar contra a parede a linha dura do regime, narrando todas suas angústias e incertezas pessoais, tentando encontrar o difícil equilíbrio entre a firmeza que o momento exigia e a prudência para evitar que a mão forte do poder viesse a soterrar a trincheira que se tornou o sindicato.

O título “As Duas Guerras de Vlado” faz referência, além do episódio óbvio da Ditadura, à perseguição Nazista e fuga para o Brasil do pequeno Vlado e como isso influenciou sua personalidade até a vida adulta, refletindo na 2ª guerra que travou. Tem uma narrativa agradável, mas por vezes fica-se com uma sensação que ele fica rodando em círculos, faltando um pouco de objetividade em determinados momentos. Não é uma biografia de Herzog, mas traça os momentos determinantes de sua vida, a parte inicial, aonde narra a família Herzog debaixo do jugo nazista talvez seja desnecessária seu aprofundamento, pouco acrescentando ao resultado final, talvez de maneira mais resumida ficaria melhor.

Mas o livro tem fundamental importância, ainda mais nesse momento em que se tenta aprofundar o período através das diversas comissões da Verdade espalhadas pelo país, assim como entender e apurar a morte e desaparecimentos brutais de inúmeros perseguidos do período. Audálio faz da reconstituição em detalhes da prisão e suplício de Herzog o ápice do livro, assim como consegue envolver o leitor no seu relato dos turbulentos dias posteriores a sua morte.

Não resta dúvida que “As Duas Guerras de Vlado Herzog” é um livro necessário para quem quiser entender aquele triste país dos anos 70.


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Calendário de postagens

dezembro 2014
D S T Q Q S S
« nov    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031