Crítica: As Mil e uma Noites


 
Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

As Mil e uma Noites” se encontra em temporada no Oi Futuro até o dia 9 de setembro, sob direção de Leandro Romano, com dramaturgia assinada por Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro.

A premissa é bastante interessante: levar para o palco 33 sessões teatrais únicas tendo por base uma das mais famosas obras da literatura árabe, “As Mil e uma Noites”, que reúne contos escritos entre os séculos XIII e XVI e que em boa medida já se encontram inseridas em nosso imaginário. A cada noite, um conto diferente. Mas a proposta do Teatro Voador Não Identificado pretende ir além, costurar pela sua dramaturgia entrevistas com refugiados que vivem no Rio de Janeiro, que como aponta seu próprio release, busca uma aproximação entre Brasil e Síria por meio de cenas que discutem a Primavera Árabe e aludem à luta de poderes na política brasileira.

Isto posto, cabe entender como se dá essa execução:

A proposta tem boas intenções, se arrisca(uma virtude), apresenta bons momentos, mas num olhar sobre o todo ressaltam alguns apontamentos, em especial uma desconexão em suas próprias proposições, independente do interesse que possam despertar.

O formato de execução encontrada para a narração do conto apresentado na sessão em que assisti, a “História do Corcunda, do Alfaiate, do Corretor Cristão, do Intendente e do Médico Judeu”, tem pontos instigantes pela maneira organizativa, ou talvez por um “caos organizado”, que muito em função do bom elenco à disposição da proposição cênica de Leandro Romano, encontrou um bom tratamento narrativo sobre o palco, contando com a atriz Clarisse Zarvos atuando com inteira adequação como uma regente que dita ritmos, intenções e diálogos para um protagonismo de Adassa Martins, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão, que respondiam com espontaneidade e sem perder a coerência para os ditames, além dos demais membros do elenco, formado por Elsa Romero, Larissa Siqueira, Bernardo Marinho, Gabriel Vaz e João Rodrigo Ostrower, que interagiam corretamente diante das necessidades tanto dramatúrgicas, cênicas e muitas vezes desempenhando funções sonoplásticas e musicais. O resultado dessa proposta é uma representação desenvolta e fluída.

A questão é que essa dinâmica se entrecortava com depoimentos interpretados por membros do elenco, relatando a visão e experiência de refugiados sírios, que na verdade incluíam-se também palestinos e egípcios. Nesse ponto começa, no meu entendimento, os problemas do espetáculo. Por mais pungentes e verdadeiros que fossem esses depoimentos e entrevistas, a sua inserção quebrava o ritmo da apresentação, adquirindo maior ou menor interesse dependendo da forma como cada ator os exteriorizava, ou seja, havia uma certa instabilidade inclusive no alcance de suas representações. O ponto que quero me bater aqui é que não consegui encontrar uma conexão coerente entre as duas propostas, com o único item de encaixe na localização de um retrato ao universo árabe, porém se tentarmos pormenorizar o que seria um entendimento de “universo árabe”, tenderíamos a seguir por um percurso ao infinito de possibilidades para que encontremos uma comunicação comum, assim como não localizei uma outra intenção de princípios da proposição sobre a metáfora coincidente dos “mil e um dias do governo Temer”.

Dentro do projeto de concepção cênica do diretor Leandro Romano, há um despojamento refletido pela ambientação, que pode ser lido nas suas opções pelos figurinos e cenografia, sendo importante também destacar a maneira como o desenho de luz de Gaia Catta acompanha o andamento das ações.

Em seu resultado prático “As Mil e uma Noites” traz propostas originais e temáticas atuais, mas questão é que suas sobreposições caminham por linhas paralelas, sem encontrarem a confluência de choque entre ambas.

Por fim um adendo ainda em relação à pesquisa e entrevistas para o espetáculo. Retornei ao Oi Futuro dois dias depois para assistir um outra  peça e pude assistir com calma a vídeo-instalação montada a partir dessas gravações. Trata-se de um trabalho que muito tem a dizer sobre os tempos atuais e sobre nós enquanto uma pretensa nação de acolhimento, num momento que presenciamos um dos maiores êxodos da história da humanidade, em especial pela tragédia que se abate sobre várias regiões do oriente médio.

Serviço
Temporada: 29 de junho a 09 de setembro (Sexta a domingo, 20h)
Local: Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo
Telefone: (21) 3131-3060
Capacidade: 62 lugares
Ingressos: R$30,00 (inteira) | R$15,00 (meia)
Duração: 60 minutos
Gênero: Drama
Classificação indicativa: 16 anos

Ficha Técnica
Concepção e direção: Leandro Romano
Dramaturgia e adaptação: Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro

Elenco: Adassa Martins, Bernardo Marinho, Clarisse Zarvos, Elsa Romero, Gabriel Vaz, João Rodrigo Ostrower, Julia Bernat, Larissa Siqueira, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão

Cenografia: Elsa Romero
Iluminação: Gaia Catta
Figurino: Lia Maia
Trilha sonora original: Felipe Ventura e Gabriel Vaz
Assistência de direção: Luciana Novak
Assistência de cenografia: Lilia Wodraschka
Vídeos e mídias sociais: Júlia Sarraf
Consultoria teórica: Mamede Mustafá Jarouche
Tradução de entrevistas e consultoria de cultura árabe: Hadi Bakkour
Arte gráfica: Chris Lima/Evolutiva Estúdio
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues/Aquela que Divulga
Direção de produção: Ana Barros
Produção executiva: Bel Sangirardi
Realização: Teatro Voador Não Identificado


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