Crítica: Assunto de Três


 

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Por Renato Mello.

 4-estrelas12Uma belíssima proposta teatral está sendo levada nesse momento ao palco do Teatro Glaucio Gill pelos diretores Tatá Oliveira e Cleiton Rasga. Trata-se do 1º espetáculo do projeto desenvolvido pela dupla, “Fronteiras-Dramaturgias Latinoamericanas”, que tem como objetivo investigar e explorar os limites, as convergências e os procedimentos da dramaturgia que existe nesse grande espaço físico que vai do México até a Patagônia. Desta forma, a primeira peça em cartaz é “Assunto de Três”, do dramaturgo peruano Gonzalo Rodriguez Risco.

O projeto de Tatá Oliveira e Cleiton Rasga merece ser acompanhado com muita atenção, primeiramente pela qualidade de excelentes autores originários da América Latina e absolutamente inexplorados nessa grande ilha que é o Brasil dentro desse continente que habitamos. Em segundo lugar pela ótima montagem realizada pela dupla nesse trabalho que se apresenta no Glaucio Gill.

Assunto de Três” foi escrita originalmente em 2000, teve sua primeira encenação realizada durante o 5º Festival Peruano Norte-Americano de teatro e em 2004 finalmente estreou em Lima.  Encenado pela primeira vez no Brasil, o texto de Rodriguez Risco explora as relações humanas, trabalhando uma dramaturgia sem uma narrativa linear, mas com um bastante desenvoltura, humor, leveza e reflexão com situações aparentemente banais do dia-a-dia, mas com muita consistência e sabendo fazer do público um cúmplice das situações que apresenta.  Rodriguez Risco estrutura sua peça em 6 cenas distintas e segundo palavras do próprio autor, fala das “diferentes formas de relações que buscam uma unidade. Dois que querem ser um e finalmente rendem-se ante o impossível, já que sempre há outro fator no caminho, um amante, um amigo ou até mesmo a sociedade”.

A ambientação é localizada dentro dos anos 90, o início da revolução que a internet começou a fazer na sociedade, com os atores inseridos em alguns contextos típicos daquele período como as salas de bate papo e o inconfundível som do ICQ, dando-nos uma certa nostalgia de um tempo nem tão longínquo assim. Uma cama, que pode virar um sofá é o principal elemento cênico utilizado. Como curiosidade, no momento em que se fazia um café em cena, da plateia dava para sentir o seu cheiro(de um tempo em que nem cogitava se falar das capsulas da nespresso). De fundo uma tela, que variava sua cor de acordo com a iluminação utilizada ou o ambiente criado. A direção de Tatá e Cleiton  trabalhou com enorme competência a ocupação cênica do espaço, criando sempre boas situações e sem quebrar o ritmo do espetáculo nas mudanças desses ambientes.

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O vértice desse triângulo se fecha com o elenco formado por Álvaro Pilares, Bruno Oliveira e Mayara Maia. Podemos afirmar que a escolha desse elenco foi um achado e a direção de atores consegue impor um interessante equilíbrio e complementaridade entre os três, que interpretam com muito talento as angústias, dilemas e neuroses das relações humanas. Mayara Maia, uma atriz que passa uma sensação de grande espontaneidade, carisma e personalidade, prendendo permanentemente a atenção do espectador. Bruno Oliveira e Álvaro Pilares conseguem desenvolver nos saborosos diálogos de seus personagens um perfeito ritmo, que mesmo em falas aparentemente corriqueiras acabam arrancando risadas da plateia. Juntos, esses 3 atores fazem do texto e dos diálogos de Rodriguez Risco um espetáculo que agrada em cheio durante todos os seus 70 minutos de duração.

Tatá Oliveira e Cleiton Rasga, os diretores, formaram-se juntos na CAL e realizam traçaram caminhos paralelos. Tatá junto com a Artesanal Companhia de Teatro, responsável por um dos mais originais trabalhos de busca de uma linguagem dentro do teatro infantil. Enquanto Cleiton desenvolveu seu trabalho na Cia Dramática de Comédia. Agora, juntos na Díspare Companhia(sem deixar seus trabalhos como atores) desenvolveram com Bruno Oliveira o “Fronteiras-Dramaturgias Latinoamericanas”.

A grande qualidade do trabalho apresentado nesse 1º espetáculo do projeto “Fronteiras-Dramaturgias Latinoamericanas”, faz-nos já imaginar e aguardar os próximos passos de Tatá Oliveira e Cleiton Rasga, mas sem esquecer que “Assunto de Três” tem muitos méritos para continuar sendo encenado durante muito tempo e em novas temporadas.

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SERVIÇO:

Assunto de Três
Texto: Gonzalo Rodríguez Risco
Direção: Tatá Oliveira e Cleiton Rasga
Elenco: Alvaro Pilares, Bruno Oliveira e Mayara Maia.
De 11/09 a 24/10 quintas e sextas as 20h
Teatro Glaucio Gill
Projeto Teatro Glaucio Gill apresenta
Ingresso: 30 reais
Produção: Díspare companhia e Quinto Elemento Produções Art.


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