Crítica: Até que a Sogra nos Separe


 

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Por Renato Mello.

Entendo que um dos papéis da crítica é antes de tudo compreender qual a proposta de um espetáculo teatral para poder repartir seus elementos, observar seu andamento, atentar para sua eficácia e só a partir de então tecer uma reflexão se essa proposta mantém integridade com suas intenções. Considero um equívoco a crítica que desmerece um espetáculo já na sua mera proposição. Essa visão deve ser desprezada de início. Não é papel do crítico apontar os caminhos de um espetáculo teatral, mas sim se ele se completou como arte, independente de qual seja sua intenção. Enfim, toda manifestação teatral vale a pena.

Até que a Sogra nos Separe”, em cartaz no teatro dos Grandes Atores, possui características que citei acima. É uma comédia eficaz e íntegra com suas intenções. Não possui um aprofundamento intelectual, o que não a impede de ser inteligente e nem encontraremos uma acentuada crítica social em entrelinhas. Ela é “apenas” muito engraçada. Isso basta! Ela se propõe a ser uma comédia desencanada e atinge fartamente seu objetivo. Ri-se do início ao fim, o que sabemos ser algo que exige um extremo apuro técnico.

O texto escrito por Anderson Oliveira e Maria Clara Horta conta a história de Beto(Daniel Müller) e Bia(Luisa Shurig), recém casados, que em plena primeira crise recebem a visita inesperada da mãe dele, Dona Gioconda(Anderson Oliveira), uma sogra manipuladora e intrometida que aproveita a instabilidade do relacionamento para separá-los de vez. A dramaturgia se sustenta com um preenchimento que ocorre praticamente “in progress” devido aos improvisos(que trataremos mais adiante), mas apoiada na base estruturada pelos autores, com a composição de boas situações e diálogos ágeis. Outro aspecto positivo é uma saudável despreocupação com o politicamente incorreto, com piadas que hoje em dia costumam gerar um certo melindre em almas mais sensíveis. Porém há que ressalvar alguns aspectos, como alguma convencionalidade, principalmente no encontro inicial de Beto e Bia e um alongamento mais que o necessário da curva dramática, que uma podada cairia bem.

A direção de Anderson Oliveira tem a capacidade de aproveitar todas as possibilidades do texto para compor um desenho cênico dinâmico, gerando uma fluência narrativa que mantém o espetáculo num nível elevado, apenas com uma pequena oscilação ao rumar-se para o final pelo excesso dramatúrgico já apontado. Constrói situações bem engendradas que contribuem bastante para o sentido de humor expandir-se pela atmosfera e atingir seu objetivo primaz.

O casal é formado por Daniel Müller(Beto) e Luisa Shurig(Bia). Ele um biólogo, meio nerd, manipulável e com personalidade um tanto frouxa. Ela, atriz, sonhadora, temperamento forte e que tem sua vida transformada num inferno com a chegada da sogra. Os atores estabelecem desde o início um belo jogo cênico, demonstrando complementaridade e dando um suporte mútuo para suas respectivas composições. Daniel demonstra bom trabalho corporal e expressividade. Luisa é uma atriz de presença física, carisma e exterioriza com competência toda escala de sentimentos que sua personagem experimenta. Mas acima de tudo, Luisa e Daniel necessitam…e demonstram um enorme jogo de cintura para contracenar com  a imprevisibilidade, materializada na figura de Anderson Oliveira e sua invulgar capacidade de deixá-los permanentemente em saia justa com improvisos e cacos. Anderson Oliveira interpretando Dona Gioconda é um dínamo incessante. Em determinados momentos dá a impressão que deixa a peça de lado e praticamente a transforma num stand up. Anderson utiliza-se de todas as possibilidades corporais, usa e abusa de caras e bocas, no que normalmente seria visto como um excesso, dentro da proposta do espetáculo gera situações que inevitavelmente levam o público às gargalhadas e que estão bem contextualizadas dentro da linha estrutural traçada.

O cenário de Angela Figueiredo segmenta o espaço físico com a cama, a poltrona central e uma mesa redonda. O resultado pesa na ambientação deixando-a um pouco lúgubre  e não contribui para uma maior dinâmica na movimentação cênica. A iluminação atua com correção, mas conforma-se com limitações que a impedem de uma maior participação dramatúrgica. Os figurinos de Fernanda Zau e Simone de Lima preenchem bem os contextos e à composição dos personagens.

Até que a Sogra nos Separe” é acima de tudo uma proposta honesta porque cumpre exatamente o que promete. Despretensão, boas atuações e um texto eficiente são a garantia de uma noite leve e muito engraçada.

Até que a Sogra nos Separe
Texto: Anderson Oliveira e Maria Clara Horta
Direção: Anderson Oliveira
Elenco: Anderson Oliveira, Daniel Müller, Luisa Shurig
Cenário: Angela Figueiredo
Figurinos: Fernanda Zau e Simone de Lima
Iluminador: Rico Coutinho
Operador de Som: Mauricio Alves
Diretor de Produção: Anderson Oliveira
Fotografia: Roberto Chahim
Programação Visual: Christian Simon
Assistente de Produção: Ronize Carrilho
Produção e Realização: R&A PRODUÇÕES


Palpites para este texto:

  1. Uma das melhores comédias que eu assisti, e comparo explicitamente à “Trair e Coçar é Só Começar”, de meu amigo Marcos Caruso. Eu… Rrrecomendo!!!

    Theo G Fox – Jornalista e Escritor.

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