Crítica: Banho de Sol


 

 banho de sol1

 Por Renato Mello.

Desde que coloquei no ar o Botequim Cultural, em maio de 2012, nunca levei tanto tempo para escrever sobre um espetáculo teatral como em “Banho de Sol”, que nesta semana realiza as últimas apresentações da temporada no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, nos dias 11 e 12 de fevereiro.

Banho de Sol” é o primeiro projeto da Cia Doêrro, concebida e criada pelos atores e diretores Ruy Carvalho e Helena Almeida, com uma proposta dramatúrgica corajosa, instigante e experimental pronta para se jogar de peito aberto e de olhos vendados em direção à plenitude da essência do trabalho do Ator.

Saí da apresentação com um sentimento confuso, com uma série de reflexões sobre a forma, conteúdo e principalmente com uma enorme dificuldade de contextualiza-lo de modo mais profundo, tamanha a gama de emoções jorradas no palco. Não tinha a convicção de ter captado toda a proposta apresentada. Ao mesmo tempo durante dias ele não saía de minha cabeça, gerando um redemoinho de sentimentos em busca de um caminho para uma racionalização. Ainda não sei se achei esse caminho.

Para poder usufruir plenamente desse espetáculo é exigido que o espectador esteja com a mente e alma abertas para encontrar na proposta da dupla um profundo trabalho de desenvolvimento de uma linguagem muito particular, da fuga de uma dramaturgia convencional e juntamente com os atores, esteja disposto a abraçar um projeto em que não existe área de conforto para se apoiar e saber que nada lhe será dado de maneira simples.

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Vejamos a sinopse oficial:

Banho de Sol fala de amor.
Amor que cativa, destrói.
Como uma canção que se repete, dentro e fora da cabeça.
Memórias, ora reais, ora inventadas pela esperança. Por fim, a espera.
O desejo desesperado de que o viver, em si, resulte em algo palpável.
Banho de Sol fala de solidão.

 Logo ao entrarmos na sala já nos deparamos com Ruy, próximo a porta de entrada, imóvel numa cadeira(posição que ficará por longuíssimos minutos), banhado por um refletor como se estivesse tomando sol. A medida que nossa visão vai se acostumando ao ambiente criado por um interessante trabalho de iluminação(assinado pelos próprios atores em conjunto com Rafael Machado) é que nos deparamos com alguém mais ao fundo, igualmente inerte, mas inteiramente coberto impedindo-nos uma maior identificação. Ruy inicia seu solo, num personagem inspirado no prisioneiro americano Herman Wallace, que vive numa solitária de 9X6, tem direito a um banho de sol por dia e possui como comunicação com o mundo exterior apenas o rádio e cartas. No transcorrer do espetáculo somos surpreendidos permanentemente, começando pelo desvendar do personagem de Helena, que surge em forma de uma noiva num monólogo de aproximadamente 10 minutos, muito bem ritmado e com tal força nas palavras que deixa-nos atento a cada respiração da atriz.

Facebook-Helena

O que eles representam? Quem eles são? O que propõem? Em “Banho de Sol” não existem as verdades absolutas.

Como me disse Ruy Carvalho:

“Na verdade, o que tem se mostrado como mágico, pra nós, é justamente isso. A dramaturgia é construída junto com o espectador.Muitas vezes, a história que ouvimos ou lemos de quem assistiu se torna muito mais interessante do que o fio condutor do espetáculo… A ideia não é ser difícil, mas estimulante”.

Para Helena Almeida,

“o importante é como o nosso espetáculo chega ao outro. Quais as impressões, quais as sensações. Nós mesmos não entendemos tudo e nem temos essa pretensão. Entender no sentido de tentar explicar racionalmente uma coisa que tem muitas camadas. Camadas nossas, imagens que vieram nos ensaios, das nossas experiências pessoais e camadas da plateia, que vai enxergar com olhos diferentes de acordo com a trajetória de cada espectador. O espetáculo é todo pensado tecnicamente. Cada ação, cada palavra, foi pensada, escolhida com reflexão. Fomos movidos pela brincadeira das diferentes maneiras de se fazer teatro”.

Nada segue um caminho linear e óbvio. Assim como o próprio final do espetáculo.

“o importante é errar. Errar de novo. Errar melhor. Principalmente, errar durante o trabalho árduo, mas, também, apaixonante”.

Helena de Almeida

Embora no título dessa postagem conste a palavra “crítica”, não sei se ela pode ser definida com tal. Não sei se minha avaliação está correta. Mas prefiro me inspirar no exemplo de Ruy e Helena, acabar com meus pudores de escrever sobre “Banho de Sol” e me sujeitar aos meus possíveis equívocos.

Vá assistir nesta última semana e tire suas conclusões.

sob a luz do sol

Ficha Técnica:
BANHO DE SOL
Concepção e Execução: Cia Doêrro (Helena Almeida & Ruy Carvalho)
Desenho de Luz em parceria com: Rafael Machado
Assessoria de Imprensa: Amanda Barros
Fotos: Celso Pereira e Vladmir Avellar


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