Crítica: Beije Minha Lápide


 

Beije Minha lápide 4

Por Renato Mello.

Depois de uma carreira já consolidada através do sucesso de público, crítica, além das indicações e premiações recebidas, o espetáculo “Beije Minha Lápide” volta a fazer uma (curtíssima) temporada no Rio de Janeiro, agora no Oi Casa Grande, com um total de apenas 6 apresentações até o dia 02 de agosto.

Dirigido por Bel Garcia, a partir de um texto escrito por Jô Bilac, “Beije Minha Lápide” conta a história de Bala(Marco Nanini), escritor, intelectual e inveterado fã de Oscar Wilde, que se encontra preso por tentar violar a proteção erguida em volta do túmulo  do célebre escritor no cemitério de Père Lachaise, em Paris.

Mais uma vez Jô Bilac demonstra porque, na minha opinião, é o mais interessante autor do atual teatro brasileiro, construindo um texto, que mesmo que fuja de determinadas características que costumam marcar sua construção dramatúrgica, mantém  ingredientes da complexidade do relacionamento humano e da tortura interior que habita em seus tipos, sem perder jamais o humor e o contexto do absurdo. Fica claro de se tratar de um texto feito sob medida e encomenda para Marco Nanini, o que não é nenhum demérito, ao contrário, dá-se assim uma ótima oportunidade para se assistir um casamento harmônico de um grande texto com uma brilhante interpretação.

Em cena, a construção de uma ambientação que transmite o sentimento de medo da sociedade contemporânea diante de indivíduos inconformistas e que não se dobram às regras estupidamente estabelecidas para gerir o “bem-estar coletivo”, como ocorreu no tempo de Wilde e hoje com Bala. Seres sonhadores, revolucionários, rebeldes são uma ameaça e cabe ao sistema executar o isolamento e o confinamento, no caso de “Beije Minha Lápide”, uma redoma de vidro. Mas nem mesmo esse formato de “redoma”, palavra que no dicionário pode ser definida como “campânula de vidro para proteger objetos delicados” e no sentido figurado “situação superprotetora”, é o suficiente para dobrar o personagem criado por Bilac, mas ao mesmo tempo cria-se uma sensação de alívio de podermos enxergar seu interior, embora nesse caso, enxergar apenas superficialmente, incapaz que é o Estado de entender sua complexidade, preferindo montar uma lápide para enterrar vivo um personagem não quisto pelas ordenações.

Beije Minha lápide 3

Bel Garcia, com a habilidade de quem já conhece bem as intenções de Bilac, cria uma atmosfera e estética asséptica, contribuindo decisivamente para o grande êxito artístico de “Beije Minha Lápide” e constrói em conjunto com os demais componentes de uma encenação, como cenografia e a iluminação, uma ambientação adequada para a história que está contando. O desenvolvimento das cenas é extremamente competente, assim como a ocupação do espaço cênico, que não se deixa imobilizar pelo enorme objeto no centro do palco, criando um rico entorno girando pela cela de vidro e com um importante impacto visual. Mas acima de tudo realiza um excepcional trabalho de direção de atores.

Marco Nanini interpreta um inquieto, apaixonado e inconformado personagem da qual é possível extrair diversas camadas da construção que o ator faz de Bala. Um personagem rico em possibilidades, nenhuma delas desperdiçada pelo ator, que se apropria do tom e eloquência milimétricos, sem exageros, mas com muita força.

Assim como Nanini, todos os atores coadjuvantes que circundam a cela de vidro, embora em menor participação, mantém o nível de atuação do protagonista.

Carolina Pismel interpreta a advogada de bala, atriz que esse ano tive a oportunidade de assistir em outro texto de Bilac, “Infância, Tiros e Plumas”, numa ótima atuação. Volta a impressionar em “Beije Minha Lápide”. Atriz de personalidade marcante em cena, faz um interessantíssimo jogo cênico com Nanini, resultando numa conturbada, mas eficiente e verdadeira cumplicidade com um personagem tão imprevisível.

Paulo Verlings, tal como Carolina, também havia visto este ano num outro espetáculo de Bilac, “Conselho de Classe”. Atuação correta através de um personagem com nuances em que o ator trabalha com eficiência sua dicotomia interior. Renata Guida, vive a filha do personagem, personagem que caminha pela trilha do humor, do absurdo e de um introspectivo afeto, também numa contundente atuação.

Beije minha lápide 2

Não há como deixar de exaltar o excepcional trabalho de Daniela Thomas na cenografia, com uma cela de vidro que mais do que o puro impacto visual, acaba por abrir inúmeras possibilidades cênicas e com um jogo de luzes e reflexos realçado pela não menos brilhante iluminação de Beto Bruel, colocam em cena toda a ambientação desconcertante necessária para a comédia de absurdos despejadas no palco.

O figurino de Antônio Guedes realizados com acerto e dentro do que era necessário para o espetáculo.

Beije Minha Lápide” é uma prova da qualidade da atual dramaturgia nacional, demonstrando que não necessitamos a todo momento buscar textos estrangeiros ou clássicos para montarmos uma sólida cena teatral. Os textos de Jô Bilac e outros vários autores nacionais são inspiradores mananciais para continuarmos realizando trabalhos no mais alto nível.

BEIJE MINHA LÁPIDE
Teatro Oi Casa Grande
Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon- Rio de Janeiro/RJ
Tel. 2511-0800
Temporada do Espetáculo
De 24 de julho a 02 agosto de 2015.
Sextas e sábados 21:30h e domingo 19h.
Preço dos Ingressos:
R$ 100,00 (Platéia e Camarote) e R$ 80,00 ( Balcão )
Classificação etária: 16 anos / 90 minutos

FICHA TÉCNICA:
Texto: Jô Bilac
Direção: Bel Garcia

Com: Marco Nanini, Carolina Pismel, Paulo Verlings e Renata Guida

Produção: Fernando Libonati
Cenografia: Daniela Thomas
Figurino: Antônio Guedes
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Sonora Original: Rafael Rocha
Concepção e Direção de Vídeo: Julio Parente e Raquel André
Videografismo: Julio Parente
Coordenação e gestão de projeto: Carolina Tavares
Direção de Produção: Leila Moreno

Assessoria de Imprensa/ Oi Casa Grande
João Luiz Azevedo


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