Crítica: Bibi, uma Vida em Musical


 
Foto: Guga Melgar

Foto: Guga Melgar

Por Renato Mello

Se o que vimos em “Bibi, uma Vida em Musical” for o padrão da nova temporada que ora se inicia, então teremos um dos melhores anos para o teatro musical em muito tempo.

Em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, com direção de Tadeu Aguiar a partir de texto escrito por Artur Xexéo e Luanna Guimarães, “Bibi, uma Vida em Musical” se propõe a narrar durante aproximadamente 3 horas a trajetória pessoal e profissional de Bibi Ferreira, com ambos aspectos inexoravelmente atrelados, aclarando um entendimento da construção de um ícone da cultura nacional desde seus anos de formação impostos por um metódico processo de aprendizado permanentemente estimulado pelos pais, o ator Procópio Ferreira e a bailarina Aida Izquierdo, nos estudos de música, dança e idiomas, estreando profissionalmente aos 19 anos, percorrendo alguns dos seus mais marcantes eventos de vida e arte. Um dos aspectos mais destacáveis da proposta é a maneira como a narração da história de Bibi Ferreira de algum modo não somente se confunde, como nos permite um entendimento sobre toda uma linha evolutiva do teatro brasileiro no século XX, começando por um período em que o gênero era visto de maneira depreciativa numa estruturação em companhias fixas geridas por atores-empresários, passando inclusive por experiência no teatro de revista, protagonizando as primeiras grandes produções da Broadway encenadas em palcos nacionais e participando de um teatro que se armava como instrumento de resistência à ditadura militar.

Foto: Guga Melgar

Foto: Guga Melgar

A dramaturgia recorre a uma estrutura linear e cronológica, porém, ao contrário do que ocorreu com outro espetáculo recente escrito por Artur Xexéo, “Cartola, o Mundo é um Moinho”, desenvolve-se de maneira bem mais eficiente, à despeito da ausência de um andamento mais arrojado. A utilização de um artifício muito usado quando a narrativa tem dificuldade de se resolver por conta própria e que de modo geral considero empobrecedor, a narração, no caso de “Bibi” alcança numa interação que até resulta satisfatoriamente com o trio formado por uma cigana um tanto atrapalhada em suas previsões(Flávia Santana), um mestre de cerimônia de circo(Leo Bahia), e a personagem Vó Irma(Rosana Penna). Independente dessas ressalvas,  “Bibi, uma Vida em Musical” consegue envolver, prender a atenção e encontrar momentos de encantamento para nos reavivar momentos seminais do nosso teatro. Um aspecto a se destacar é o aprofundamento da pesquisa mais além da vida da biografada, mas a busca pela compreensão de Bibi e seu tempo, que pode ser medido principalmente na construção dos diálogos, na busca da prosódia, a utilização do vocabulário e expressões que vem se diluindo na poeira do tempo, inseridos de maneira que não soem forçados, mas inteiramente contextualizados e que alcançam a veracidade na imposição textuais, assim como algumas opções musicais adensam a temporalidade, ainda que se utilize por vezes daquilo que podemos definir como uma “liberdade poética”, caso mais explicitado na execução de “Fim de Caso”, de Dolores Duran, que só viria a ser composta em 1959, mas foi utilizada dramaturgicamente numa cena ocorrida na década de 40. Há alguma frugalidade na composição de alguns personagens coadjuvantes, mas relevantes, como o delineamento de Procópio Ferreira(interpretado por Chris Penna), que por vezes soa um tanto folgazão, bem diferente de um registro mais conhecido de sua circunspecção(independente de suas conhecidas aventuras extraconjugais), assim como o personagem de Paulo Pontes(Guilherme Logullo) que carece de um aprofundamento, permanecendo numa área próxima de linhas caricaturais.

Diante de uma estrutura dramatúrgica sólida pelo texto de Artur Xexéo e Luanna Guimarães, a direção de Tadeu Aguiar formata uma direção bem ajustada, impondo ritmo e impacto na altura correta, desde aspectos ligeiros e brejeiros, até na tonalidade emocional, que em nenhum momento resvala nos limites do mau gosto, com um destaque para a linda composição cênica do momento derradeiro de Paulo Pontes e Bibi  Ferreira entoando uma canção emblemática como “Gota D’Água”, que se retira de sua contextualização político-social rumo à emotividade, mas longe de qualquer pieguice. Sua proposta cenográfica é interessante, com assinatura de Natalia Lana, no sentido de uma funcionalidade para a exposição de momentos de “My Fair Lady”, “Alô Dolly” ou “Brasileiro Profissão Esperança”, com uma armação ao fundo em plano elevado de onde consegue reverberar essas reminiscências do teatro, mas utilizando-se igualmente do proscênio com habilidade e encontrando boas soluções como “O Homem de la Mancha” e em momentos de intimidade da protagonista.

Amanda Acosta - Foto: Guga Melgar

Amanda Acosta – Foto: Guga Melgar

A atuação de Amanda Acosta, na minha opinião, é a melhor que recordo no teatro musical dos últimos anos, desde a forma como se apropria de uma prosódia muito particular, a imposição rítmica, o entoar cântico, timing e a impostação corporal, tudo isso remete diretamente à imagem que construímos no nosso imaginário de Bibi Ferreira. Amanda Acosta encontra-se em cena num plano interpretativo superior, emanando uma enorme capacidade emotiva e alcançando ações que é necessário graduar em superlativos. Designar algo inferior a “brilhante” é reduzir sumariamente a realidade de sua performance.  Leo Bahia se destaca com uma boa presença cênica e personalismo, sem dúvida um dos atores mais empáticos do nosso teatro musical. Chris Penna realiza bom trabalho de composição, com importante contribuição no visagismo(Ulysses Rabello), no corte do cabelo em a construção do nariz. Chris Penna, à despeito dos apontamentos que fiz mais acima do delineamento do seu personagem pelos autores, consegue uma boa impostura. Guilherme Logullo tem uma maior dificuldade em encontrar a essência de Paulo Pontes, muito em função de alguma superficialidade do texto em relação ao seu personagem,mas consegue compensar em parte essa deficiência com sua boa técnica vocal. De uma maneira mais ampla o elenco complementa-se de maneira harmônica, complementando os espaços cênicos e dramatúrgicos com eficiência, composto por Analu Pimenta, Flávia Santana, Rosana Penna, Simone Centurione, André Luiz Odin, Bel Lima, Caio Giovani, Carlos Darzé, Fernanda Gabriela, João Telles, Julie Duarte, Leandro Melo, Leonam Moraes, Luísa Vianna e Moira Osório, todos, sem exceção, atores com uma sólida bagagem teatral.

Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal realizam um bom trabalho de pesquisa sobre diferentes décadas, sabendo utilizar-se com perspicácia das suas nuances, assim como de diferentes necessidades dramatúrgicas que complementam eficazmente os espaços dramatúrgicos e aspectos temporais. O desenho de luz de Rogério Wiltgen expõe com propriedade as intenções cênicas de Tadeu Aguiar e interage adequadamente com os cenários Natalia Lana, que por sua vez consegue de maneira eficiente, dinâmica e funcional alterar rapidamente os diferentes planos dramatúrgicos e atuam em composição com a movimentação proposta pelo diretor.

Excelente a execução musical Tony Lucchesi, que com uma quantidade enxuta de músicos consegue amplificar capacidade musical, dando inclusive um sensação de se compor de um número maior de elementos que de fato possuía, além do extremo vigor para as mais diferentes gradações e necessidades. É preciso registrar a  inserção de músicas inéditas compostas por compostas por Thereza Tinoco.

O ano se inicia com um ótimo musical, possuidor de todos os elementos necessários para emocionar um público que tem em Bibi Ferreira a referência máxima do rigor e qualidade teatral. Em nenhum momento aponta para jogos rasteiros(como tem ocorrido comumente), alcançando a emotividade do seu público  pela sinceridade de suas intenções, por uma atuação protagônica de Amanda Acosta digna de todos os elogios e uma equipe técnica com capacidade de ajustar em cena uma experiência de vida tão complexa.

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Foto: Guga Melgar

 

Ficha Técnica:
Texto: Artur Xexéo e Luanna Guimarães
Música original:  Thereza Tinoco
Direçãomusical e arranjos:   Tony Lucchesi
Coreografia: Sueli Guerra
Direção: Tadeu Aguiar
Cenário: Natalia Lana
Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal
Desenho de luz: Rogerio Wiltgen
Desenho de som: Gabriel D’Ângelo
Visagista:  Ulysses Rabelo
Assistência de direção: Flavia Rinaldi
Assistência de coreografia: Olivia Vivone
Assistência de direção musical: Alexandre Queiroz
Assistência de iluminação: Wagner Azevedo
Coordenação de produção: Eduardo Bakr
Produção geral: Cláudia Negri
Realização Negri e Tinoco Produções Artísticas
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Elenco: Amanda Acosta, Analu Pimenta, André Luiz Odin, Bel Lima, Caio Giovani, Carlos Darzé, Chris Penna,Fernanda Gabriela, Flavia Santana , Guilherme Logullo, João Telles, Julie Duarte, Leandro Melo, Leo Bahia, Leonam Moraes, Luísa Vianna, Moira Osório,Rosana Penna,Simone Centurione.

Palpites para este texto:

  1. Bom dia. Acabei de ler a sua crítica e percebi que você nem mencionou a coreógrafa Sueli Guerra. Como você pôde ver, tem o toque dela em quase 70% do espetáculo… acho estranho que críticos de teatro musical muitas vezes não falem do coreógrafo(a) em suas críticas, tendo em vista que o teatro musical é a junção de atuação, canto e dança. No mais concordo com sua crítica em tudo. Bom domingo.
    Felipe Dutra

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