Crítica: Bilac Vê Estrelas


 

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Por Renato Mello.

O Teatro Sesc Ginástico apresenta nessas próximas semanas as últimas exibições de “Bilac Vê Estrelas”, cuja temporada se encerrará no dia 22 de fevereiro.

Baseada no romance do Ruy Castro, adaptado por Heloísa Seixas e Julia Romeu, “Bilac Vê Estrelas” é um dos mais belos musicais estreados no Rio de Janeiro nos últimos meses, resultado de uma enorme e bem sucedida pesquisa sobre o período da Belle Époque carioca do início do século XX, quando inspirado pelas reformas implementadas em Paris por Haussmann, o Prefeito Pereira Passos coordenou a mais profunda revolução urbana da história do Rio de Janeiro, abrindo avenidas, embelezando a cidade com novas  construções e efetuando um importante trabalho de saneamento, realizações que até os dias atuais podemos usufruir.

A trama utiliza amplamente esse cenário da vida carioca tendo como maiores referências a região entre a rua do Ouvidor e a Gonçalves Dias, aonde o Rio com sua efervescência pensante e cultural de fato acontecia. Para complementar esse universo mistura personagens históricos da cidade com fictícios, narrando as aventuras do poeta Olavo Bilac que juntamente com José do Patrocínio se vêm as voltas com a construção de um balão dirigível cobiçado por uma legião de espiões que planejam roubar esse projeto, idealizado por Santos-Dumont, para entrega-lo de bandeja aos irmãos Wright.

A inverossimilidade da trama se presta com total ajuste a atmosfera de “Bilac Vê Estrelas”, que propositalmente cria uma história rocambolesca, plena de humor, energia, deboche e inocência, com alguns elementos mesmo do pastelão, em que mais importante não é necessariamente a história que se conta, mas o universo transposto para o palco, resultando numa realização belíssima, que delicia inteiramente o espectador diante dos vários elementos e atributos que possui o espetáculo.

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João Fonseca é responsável por saber unir todos os elementos necessários para que o resultado final tenha um altíssimo grau de qualidade. Ao contrário de seus últimos trabalhos que, no meu ponto de vista foram bons, porém continham algumas irregularidades, dessa vez consegue realizar um trabalho com um ritmo linear durante toda a apresentação e irretocável do ponto de vista artístico, fazendo de “Bilac Vê Estrelas” um grande e original espetáculo dentro do atual panorama do teatro musical brasileiro.

A trilha sonora assinada por Nei Lopes, esse extraordinário compositor, tem papel preponderante para o sucesso e empatia do público com a peça, com uma comunicação direta, que capta ao mesmo tempo todo o espírito da cidade naqueles anos, criando um trabalho que nos faz viajar no tempo e absorvermos o clima musical da cidade através dos seus cafés e teatros, com direito a lundus e maxixes.

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O Olavo Bilac criado por André Dias é divertidamente caricatural, o que se adequa perfeitamente ao tom farsesco proposto por “Bilac Vê Estrelas“. André faz um excelente trabalho de composição e de expressão corporal para achar seu Bilac, essa figura menos lembrada nos dias atuais do que deveria. André Dias consegue ser simultaneamente divertido e (adoravelmente) patético. É divertido(e aflitivo) o modo como André faz o olhar de vesgo, característica que o príncipe dos poetas de fato possuía, logicamente que exagerados em cena. Nos números musicais demonstra igualmente o grande cantor que é. André Dias tem atuação perfeita como um todo.

O restante do elenco tem igualmente ótima atuação. Izabella Bicalho ótima como a espiã portuguesa, adorável no número do fado. Tadeu Aguiar me surpreendendo com uma composição de bastante carisma, presença, graça, trejeito e responsável por alguns dos momentos mais engraçados. Reiner Tenente, ator que não me canso de elogiar, demonstra em cena enorme segurança, mesmo que dessa vez seu personagem tenha menos destaque. Alice Borges que interpreta Madame Labiche foi substituída em minha sessão por Andreia Dantas, que teve boa atuação. Sérgio Menezes, Gustavo Klein, Saulo Segreto e Jefferson Almeida completam o elenco, que na minha opinião é o melhor(olhando o conjunto como um todo) montado nos últimos espetáculos de João Fonseca.

Os cenários de Nello Marrese são acima de tudo uma prova que não se necessita de grandiosidade e adereços monumentais para conseguir localizar o espaço cenográfico à época retratada. Trabalho muito bem realizado. Assim como os figurinos de Carol Lobato não merece nenhum adjetivo que não seja excelente ou ótimo. Pesquisa muito bem realizada, figurinos bem desenhados, sendo possível notar nos detalhes ou mesmo nas camadas dos tecidos tanto a qualidade quanto à adequação. A coreografia de Sueli Guerra trabalha com exatidão o ambiente e o universo proposto por João Fonseca.

Bilac Vê Estrelas” consegue levar seu público a viajar para aquele Rio de Janeiro que faz suspirar até mesmo os saudosistas de uma época que nem mesmo conheceram, nos faz íntimos das grandes personalidades daqueles tempos e quem sabe nos leva a ter a oportunidade de flagrarmos algum erro de mesóclise por parte de Ruy Barbosa.

SERVIÇO
8/1 a 22/2 – Sexta a domingo, 19h.
Sessões extras: dias 24 e 31/1 às 16h.
Valores: R$ 5 (associado Sesc), R$ 10 (meia-entrada), R$ 20.
Classificação 12 anos.

Ficha Técnica
Baseado no livro ‘Bilac Vê Estrelas’, de Ruy Castro
Autoras: Heloisa Seixas e Julia Romeu
Música e letras de Nei Lopes
Diretor: João Fonseca
Diretor musical: Luís Filipe de Lima
Elenco: André Dias, Izabella Bicalho, Tadeu Aguiar, Alice Borges, Sergio Menezes, Reiner Tenente, Jefferson Almeida, Saulo Segreto e Gustavo Klein
Músicos: Daniel Sanches, Oscar Bolão
Cenógrafo: Nello Marrese
Figurinista: Carol Lobato
Coreógrafa: Sueli Guerra
Iluminadora: Daniela Sanchez
Sound Designer: Carlos Esteves
Projeto Gráfico: Radiográfico
Assistentes de produção: Luiza Toré e Isabela Reis
Produtora Executiva: Juliana Cabral
Diretora de produção: Amanda Menezes
Coordenação geral: Maria Angela Menezes
Produção: Tema Eventos Culturais – See more at: http://www.sescrio.org.br/noticia/07/01/15/bilac-ve-estrelas-estreia-no-sesc-ginastico#sthash.UCv8nK94.dpuf


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