Crítica: Blackbird


 

2 - arte2 blackbird corte

Por Renato Mello.

5-estrelas1Um espetáculo com a capacidade de deixar o espectador em estado de perplexidade diante do alto grau densidade dramática despejadas em cena. Esse foi o meu sentimento após a bela experiência de assistir “Blackbird”, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim.

Dirigida por Bruce Gomlevsky, num texto traduzido por Alexandre J. Negreiros, “Blackbird” é uma peça teatral escrita pelo dramaturgo escocês David Harrower em 2005, inspirada num caso real de um crime sexual. Una(Viviani Rayes), 27 anos e Ray(Yashar Zambuzzi), 56 anos, se reencontram quinze anos depois de terem tido um relacionamento amoroso, quando ela tinha 12 anos e ele 41. Ray pagou pelo seu crime de pedofilia, foi julgado, cumpriu pena e teve que viver uma nova identidade para recomeçar sua vida. Mas para Una isso não foi o suficiente, faltava o seu acerto de contas pessoal com aquele homem, algo que se tornou uma obsessão. “Blackbird” recebeu em 2007 o prêmio Laurence Olivier como Melhor Peça Revelação.

Thaissa Traballi1

Ao entrarem em contato com nesse texto, os atores Viviani Rayes e Yashar Zambuzzi se apaixonaram de imediato pela força contida na peça de Harrower, conforme contou-me Viviani:

A primeira coisa que fiz foi comprar os direitos e desde novembro de 2013, estamos nesse barco. Este ano vivemos para realizar esse projeto. Quando vimos que o patrocínio não vinha e que cada dia mais estávamos envolvidos com esse trabalho, tomamos a decisão que iríamos realizar custe o que custar. Tínhamos certeza que precisávamos de ‘Blackbird’ e ‘Blackbird’ precisava voar a partir da gente.

Com a cara e com a coragem, Viviani e Yashar conseguiram colocar de pé essa produção. O espetáculo que montaram é o reflexo exato de tanta paixão e persistência, resultando num trabalho de alto grau de qualidade. Não sei se “Blackbird” foi a melhor peça teatral que vi esse ano, talvez até seja, mas com certeza foi a que me causou o maior impacto.

Victor Damasceno

Tal sentimento já começa ao entrarmos na pequena sala aonde é encenado, criando um obrigatório sentimento de proximidade com o palco. Enquanto aguardamos seu início já é possível observar a perfeita ambientação cenográfica(assinada por Pati Faedo) que deixa de maneira proposital uma sensação espacial ainda menor. O espetáculo se passa todo numa sala da empresa que trabalha Ray, um cenário todo embalado num container, pelo chão uma enorme quantidade de lixo e sujeira, ao fundo uma janela repleta de vidros estilhaçados. Tudo ajuda a criar um sentimento de claustrofobia, de insalubridade e podridão. Através desse cenário criado justamente para gerar tanto desconforto, sentimo-nos que inevitavelmente estamos indissoluvelmente atados aquela história. Ao romper da porta lateral com os atores entrando de maneira abruta em cena percebemos que não somos mais passivos espectadores, tornamo-nos testemunhas que podem até interferir no que estamos vivenciando diante dos nossos sentidos. Passamos a ouvir a respiração dos atores, sentir suas pulsações, perceber a vibração da sala em cada soco desferido numa mesa ou parede, nos esgueiramos da cadeira voando a pouquíssimos metros de distância. Tudo está muito vivo, real e forte.

Sobre a criação do cenário, Viviani comentou:

Essa é a intenção da peça, tirar o espectador da sua zona de conforto, questionar, fazê-lo se sentir parte integrante e pensante daquilo tudo que está sendo dito. O Container surgiu após definirmos a nossa arte principal. Eu e Yashar sempre pensamos na arte gráfica do espetáculo, como se os 2 personagens estivessem, agora, 15 anos depois, refletindo sobre o que poderia ter sido a vida deles juntos, se não tivesse tido o desencontro. E o Container encaixou perfeitamente no conceito total da peça, pois quantos containers atravessam o mar……. e eles (Os personagens) não atravessaram, e hoje estão acertando as contas, 15 anos depois, dentro de um container, que pode ou não levá-los para um outro lugar

Thiago Ristow 2

 A atuações de Viviani Rayes e Yashar Zambuzzi são de uma verdade absoluta. Aumentam e diminuem o tom e a intensidade com perfeição. Viviani despeja toda a complexidade de sua personagem de maneira irretocável, uma mulher em estado de ebulição e que guarda dentro de si uma ambiguidade de sentimentos que não sabe lidar. Sua densidade arrefece de repente e no momento seguinte voltar a despejar seu enorme pote de mágoas. Yashar mantém seu personagem permanentemente na defensiva, buscando incansavelmente alguma explicação, quem sabe piedade, para um ato tão hediondo como é a pedofilia. Tenta manter uma contenção, mas acuado, explode. Esses 2 atores em cena são puro vigor artístico, medindo de maneira exata toda a força e brutalidade contidas em cada palavra, ditas de maneira milimétrica para o tom e a modulação de cada momento que vem, se vai e depois volta, como em ondas ininterruptas. “Blackbird” é um texto que inevitavelmente leva seus atores a exaustão física e emocional e se não houver entrega total, não se consegue achar sua verdade. Ambos se jogam de cabeça em busca dessa verdade e são muito bem sucedidos em tão difícil tarefa. Viviani Rayes e Yashar Zambuzzi são responsáveis por uma das mais brilhantes atuações do teatro carioca em 2014. Absolutamente soberbos!

 O texto de Harrower tem a capacidade de jogar com uma raríssima habilidade toda a ambiguidade que pode ocorrer numa situação como a apresentada. É possível encontrar algum vestígio de amor num ato tão criminoso e imoral como a pedofilia? Harrower parece querer brincar com essa confusão que vai montando, mostrando que nada é absoluto e procurando criar uma dicotomia de sentimentos, trabalhando as várias camadas e possibilidades de um mesmo ato.

 A encenação de Bruce Gomlevsky é de grande vigor. Corre todos os riscos, mas sabe exatamente o que quer tirar do seu elenco e os leva ao acerto de conduzi-los no tom correto. Mesmo que o texto em determinados momentos peça uma interpretação com um registro lá no alto, soube coloca-la na altura correta, com a sensibilidade de não cair na armadilha do exagero. Um trabalho de extrema habilidade e que qualquer erro poderia gerar um dano irreparável.

 Mesmo com poucos recursos disponíveis, a iluminação de Elisa Tandela funciona de maneira extremamente eficiente e merece ser mencionada. O espetáculo conta ainda com a participação de Bella Piero.

 “Blackbird” é um espetáculo que deixo minhas mais expressas e urgentes recomendações. É teatro puro, colocando em cena uma enorme quantidade de paixão, aliada muita competência por parte de todos os profissionais envolvidos. Faço minhas as palavras de Viviani Rayes: “É arrebatador falar de ‘Blackbird’.

Thaissa Traballi 2

* Fotos de cena: Thaissa Traballi, Victor Damasceno, Thiago Ristow

BLACKBIRD

Casa de Cultura Laura Alvim
Endereço: Avenida Vieira Souto – 176
Lugares: 50 lugares
Horário: Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Até 23 de novembro

Elenco: Viviani Rayes, Yashar Zambuzzi e Bella Piero
Texto: David Harrower
Tradução: Alexandre J. Negreiros
Direção: Bruce Gomlevsky
Direção de Produção: Viviani Rayes
Produção Executiva: Yashar Zambucci
Assistente de Produção: Glau Massoni
Cenário: Pati Faedo
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Elisa Tandeta
Trilha Sonora Original: Marcelo Alonso Neves
Fotos de Cena: Thaissa Traballi
Idealização: Te-Un Teatro
Produção e Realização: Rayes Produções Artísticas


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

setembro 2017
D S T Q Q S S
« ago    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930