Crítica: Boca de Ouro


 
© João Caldas Fº

© João Caldas Fº

Por Renato Mello

É muito representativo, pessoalmente, assistir um texto de Nelson Rodrigues com direção de Gabriel Villela. Remete-me ao exato momento que de alguma forma o teatro se entrelaçou com minha vida desde os primeiros movimentos de “A Falecida” numa noite de 1994 no teatro que leva ainda hoje o nome do dramaturgo, com a voz de Elis Regina ecoando pela sala cantando “Cartomante”.  A partir daquele instante comecei a compreender todas a vastidão de caminhos que essa expressão artística é capaz de desvendar. Então um neófito, não que atualmente eu tenha muito mais discernimento, mas reside ali o ponto de origem para que eu hoje me atreva a escrever críticas.

Boca de Ouro” é o terceiro texto de Nelson Rodrigues dirigido por Gabriel Villela e cumpre temporada até 25 de fevereiro no Sesc Ginástico. Apenas como registro, em 2009 montou “Vestido de Noiva”, protagonizado por Leandra Leal, Marcello Antony e Vera Zimmerman.

Concebido a partir da inesgotável capacidade de Nelson Rodrigues de extrair das prosaicas situações do cotidiano todos os ingredientes para suas histórias, tendo se inspirado para o personagem-título num motorista de ônibus da linha 115(Laranjeiras – Estrada de Ferro) que gostava de exibir seus 27 dentes, todos de ouro. Nelson misturou o mote com um personagem que habitava o submundo carioca, o bicheiro Arlindo Pimenta, contraventor da região da Leopoldina, morto em 1954 em luta corporal com a polícia. Desse híbrido surge um dos personagens mais singulares da dramaturgia nacional. Após alguns meses de interdição pela censura, foi montada originalmente em dezembro de 1960 no Teatro Federação de São Paulo, tendo Ziembinski no papel principal, resultando num retumbante fracasso. Muitos apontam a razão da total inadequação de Ziembinski para um personagem típico dos subúrbios cariocas, nascido numa gafieira, com uma aura controversa, carregando toda uma ginga e malemolência da dita malandragem carioca. As coisas correram melhor na estreia carioca, janeiro de 1961, com um elenco mais adequado, encabeçado por Milton Moraes no papel do contraventor, Vanda Lacerda como Dona Guigui, Ivan Cândido como Leleco, Beatriz Veiga como Celeste, e Teresa Rachel como Maria Luísa.

Não situo “Boca de Ouro” como os melhores textos de Nelson Rodrigues. Não credito isso necessariamente a uma suposta falta de unidade costumeiramente apontada, mas a uma curva dramática que em minha opinião se alonga sem que se perceba um acréscimo que sustente a narrativa. Dividido em 3 atos, Nelson põe em cena uma prática jornalística que trabalha com distorção de um fato pela mesma visão ocular, interligando-a pelas contradições psicológicas no decorrer da peça. Boca de Ouro(Malvino Salvador) ganha vida através das gradações emocionais de Dona Guigui(Lavínia Pannunzio), que inicialmente constrói o perfil de um celerado capaz de atos bárbaros por motivos fúteis através da mágoa de uma testemunha abandonada pelo amante. Ao saber da sua morte, o relato ganha diferentes contornos, omitindo a morte de Leleco(Claudio Fontana). Por último, no intuito de preservar o casamento, retrata-o como um feminicida que assassinou Celeste(Mel Lisboa). A autonomia do personagem só é auferida na primeira cena, ganhando vida posteriormente através do inconsciente dos demais personagens.

A direção de Gabriel Villela é bem-sucedida na forma se apropria de 2 ambientes com particularidades muito específicas(cenografia concebida pelo próprio Gabriel Villela), a gafieira e a redação de jornal, deixando os atores alheios à especificidade de cada cena, como testemunhas do relato que se sucede da tormenta emocional vivida por Dona Guigui. Ao mesmo tempo que essa concepção acolhe à representação aspectos do subúrbio carioca, contribui igualmente para uma transição congruente das cenas. Outra opção que resultou de maneira bastante satisfatória foi a inserção de canções que dialogam com o Rio de Janeiro dos anos 50 para os anos 60, como “Ave Maria do Morro”, “A Noite do Meu Bem” e “Na Cadência do Samba”, mas mesmo as canções deslocadas temporalmente ou geograficamente, como “De Frente pro Crime” e “Ne Me Quitte Pas”, quase que todas com brilhante interpretação de Mariana Elisabetsky, acabam por incrementar as intenções dramáticas. Mas aponto algumas ressalvas no processo de criação de Villela, em especial na forma como pesou a mão nos figurinos, que acabam por dar um tom próximo do fúnebre para a representação, que entendo não ser necessário no desenvolvimento dramático deste texto de Nelson,  mesmo sabedor do efeito que os figurinos de Villela costumeiramente provocam. Outro ponto a ressaltar é na dinâmica da representação que em determinado momento oscila, muito em função do desequilíbrio da própria dramaturgia de “Boca de Ouro”, mas que a fluência imposta pelo diretor não conseguiu atenuar.

A direção de atores se demonstra algo irregular. Explora corretamente os tons e subtons do melodrama rodrigueano, mas Malvino Salvador parece um pouco deslocado dentro da altura interpretativa do restante do elenco. Mesmo sendo ao redor dele que gira a trama, atua com algum maneirismo na forma como apresenta seu personagem e com uma expressividade que soa forçada. Diferente da excelente composição de Mel Lisboa, que casa harmonicamente seu trabalho corporal, a modulação vocal e contração facial, apropriando particularidades que permitem o emolduramento de toda a ambiguidade do seu personagem. Claudio Fontana tem acertada atuação, encontrando uma tonalidade que envolve Leleco de todo um sentimento de melancolia, mas que ao mesmo tempo consegue revelar aspectos ocultos que permitem suscitar questionamentos sobre a sinceridade de seu caráter. É através do olhar da personagem defendida por Lavínia Pannunzio que o protagonista vai sistematicamente sendo construído e descontruído pela eficiência na altura que impõe para os momentos emocionais que lhe pressionam o espírito. O elenco se complementa com as boas atuações de Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Guilherme Bueno, Mariana Elisabetsky e o piano executado por Jonatan Harold.

A iluminação de Walter Freire interfere positivamente no andamento narrativo, ampliando as percepções e intenções pretendidas pela direção de Gabriel Villela.

Apesar de alguns reveses, ainda assim podemos apontar “Boca de Ouro” como uma boa montagem para um texto instável de Nelson Rodrigues.

FICHA TÉCNICA

Texto: Nelson Rodrigues / Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela / Elenco: Malvino Salvador (Boca de Ouro), Mel Lisboa (Celeste), Claudio Fontana (Leleco), Lavínia Pannunzio (Guigui), Leonardo Ventura (Agenor), Chico Carvalho (Caveirinha Maria Luisa), Cacá Toledo, Guilherme Bueno, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold (ao piano) e Guilherme Bueno /Iluminação: Wagner Freire / Direção Musical e preparação Vocal: Babaya / Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica / Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo / Foto: João Caldas / Produção executiva: Luiz Alex Tasso / Direção de produção: Claudio Fontana / Realização: SESC Rio / Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


Palpites para este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

maio 2018
D S T Q Q S S
« abr    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031