Crítica: Bonitinha, Mas Ordinária


 

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Por Renato Mello.

Um dos mais importantes textos da dramaturgia nacional ganha nova montagem no Teatro III do CCBB. Trata-se do clássico “Bonitinha, Mas Ordinária”, peça escrita por Nelson Rodrigues, que já ganhou incontáveis montagens e duas adaptações(ruins) para o cinema. Na atual temporada a realização é da Cia Teatro Portátil e a direção é de Alexandre Boccanera.

A peça está inserida no que se notabilizou dentro da obra de Nelson Rodrigues como “Tragédias Cariocas”. Utilizando a própria sinopse da atual produção, “Bonitinha, mas Ordinária” “é uma reflexão obsessiva sobre a condição humana e as possibilidades do homem de mudar a realidade e transformar sua história.  A partir de um enredo folhetinesco, acompanhamos a trajetória de Edgard (Guilherme Miranda), um ex-contínuo que recebe uma proposta irrecusável de subir na vida, casando-se com Maria Cecília (Julia Schaeffer), filha do seu patrão, o Dr. Werneck (Marcello Escorel). Ele precisará revisar suas convicções, já que é apaixonado por Ritinha (Elisa Pinheiro), sua vizinha, uma menina pobre que faz de tudo para sustentar a mãe e as irmãs mais novas. Atormentado pela frase “o mineiro só é solidário no câncer”, atribuída na peça ao escritor Otto Lara Resende, Edgard confronta sua ambição com seus princípios éticos”.

Além de todas as inúmeras virtudes que o texto possui, principalmente os diálogos geniais de Nelson, ficamos inebriados como à luz dos nossos dias ele continua extremamente atual em inúmeros aspectos. Apesar de ser um retrato a partir do olhar rodrigueano sobre a fragilidade do caráter do ser humano diante da tentação do dinheiro e da opressão do poder e de que algumas questões comportamentais ficaram perdidas no meio século que separa a época de sua concepção com os nossos dias, no que é mais notório a obsessão pela questão da virgindade, porém ao ouvirmos a veemência do velho Werneck afirmando para Edgard, em meio a atormentada crise de valores éticos por que passa o ex-contínuo, que “No Brasil todo mundo é Peixoto!” vem imediatamente em nossa cabeça o mar de lama que nos assola diariamente ao abrirmos o jornal e nos sentimos obrigados a concordar que de fato, no Brasil todo mundo é Peixoto. A síntese da família, uma das obsessões do autor também está presente ao longo de toda a apresentação, um retrato atemporal que tem seu ponto culminante na afirmação: “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo”. E arremata: A família é o inferno de todos nós”.

1ª montagem, Tereza Rachel e Carlos Alberto

1ª montagem, Tereza Rachel e Carlos Alberto

Um dos aspectos mais singulares desse texto começa pelo seu título original: “Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária”. Escrita em 1962 com sua primeira encenação no Teatro Maison de France com os papeis principais interpretados por Carlos Alberto e Tereza Rachel. Nelson mobilizou todos os amigos para que Otto Lara Resende fosse assistir a “homenagem”. “Mas até o Tancredo já viu, Otto”, argumentou. Diz-se que Otto não passou nem na porta do teatro durante os 5 meses em que ficou em cartaz para não ver seu nome brilhando sob luzes de neon precedendo a expressão “Bonitinha, mas Ordinária”. Como se isso não fosse o suficiente o nome de Otto é citado permanentemente no texto: “O Otto é um gênio!”. A frase “O mineiro só é solidário no câncer”, que a peça atribui a Otto e que já foi objeto de inúmeras teses e textos psicanalíticos é citada inúmeras vezes(no original são 47 citações) quase como um mantra. Otto afirmou que jamais pronunciou tal frase.  O que se ouviu da boca de Otto foi somente: Com o Nelson, só a tiro!”.

A atual montagem transforma radicalmente a disposição do público na sala III, que tem originalmente um formato próximo de um anfiteatro. As cadeiras passam a ficar dispostas praticamente no mesmo plano do palco. De início me desagradou um pouco esse posicionamento, mas os transcorrer do espetáculo e com o desenvolvimento da encenação o formato se demonstrou adequado. São 3 fileiras ao redor do palco, mas é preciso ressaltar que na 3ª fila a visão fica um pouco desconfortável, como foi meu caso inicialmente, em virtude também do palco não ter uma maior altura, até que consegui uma cadeira vaga na 2ª fileira.

A encenação de Alexandre Boccanera possui uma proposta interessante, aproveitando de modo eficiente e criativo o espaço da sala, criando elementos e situações que levam a aproximação entre o público e o universo apresentado, com os atores se misturando e se revelando em meio à plateia. Não precisou apelar por caminhos ou explorações exageradas, seja de cunho dramatúrgico ou mesmo sexual, como tantas vezes já aconteceu em outras montagens de Nelson. Mesmo nas cenas de cunho sexual soube medir com sensibilidade a dimensão correta da apresentação. Consegue extrair uma homogeneidade nas atuações, o que é fundamental para o equilíbrio desse texto. É muito difícil para os diretores segurar o ímpeto dos atores diante de diálogos e frases tão tentadoras com as constantes em “Bonitinha, mas Ordinária”, mas Alexandre obteve o êxito de cortar os excessos e dar a ênfase necessária para as situações chaves.

O elenco é composto por Ana Moura, Anderson Cunha, Cláudio Gardin, Elisa Pinheiro, Guilherme Miranda, Julia Schaeffer, Laura de Castro, Marcello Escorel, Márcio Freitas e Morena Cattoni. Todos com competentes atuações, dando a impressão de ser mais que um trabalho de atores, mas acima de tudo um trabalho de grande espírito coletivo. Mas é possível citar alguns destaques individuais

Marcello Escorel é responsável por dar vida a um dos tipos mais fascinantes da galeria Rodrigueana, o Dr Werneck. Calhorda, amoral, devasso, todos os piores adjetivos que podemos atribuir a sua sordidez. Werneck é uma espécie de Gilberto Freyre às avessas, que de maneira quase filosófica nos faz entender a falta de caráter nacional. Um personagem que já teve intérpretes inesquecíveis, entre eles um desempenho magistral de Carlos Kroeber. Marcello faz com bastante vida e de maneira enfática, compondo em Werneck todos os atributos que são necessários para esse personagem. Uma bela atuação! Vale ressaltar que Marcello participou de uma montagem que considero antológica da obra de Nelson Rodrigues, “A Falecida”, encenada em 1994 com direção de Gabriel Villela e que tive o privilégio de assistir no Teatro Nelson Rodrigues.

Elisa Pinheiro vive Ritinha. Simples, pobre, não mede esforços ou sacrifícios pessoais em prol da mãe e da manutenção da virgindade das irmãs. Ritinha, tal como Edgard se vê permanentemente confrontada com um dilema moral. Elisa cria com competência uma personagem que carrega dentro de si uma forte carga de culpa. Uma atuação visceral e de grande verdade, mas sem excessos desnecessários. Além de ótima presença e carisma em cena.

Julia Schaeffer como Maria Cecília consegue compor um personagem dubio com uma boa representação. Julia é extremamente exitosa na maneira sutil e elegante como seu personagem vai abaixando o véu do mistério que traz na essência do seu caráter. Uma ótima atriz interpretando de maneira correta um grande personagem, embora não seja o único que Julia apresenta em cena

A Cia Teatro Portátil tem se notabilizado em sua pesquisa de linguagem pela utilização de animação apoiando a proposta narrativa. No caso de “Bonitinha, mas Ordinária” os filmes de animação foram criados especialmente para o espetáculo e são utilizados como elementos cenográficos em algumas cenas que interagem com a representação. Mas em minha opinião, não acrescentaram relevância à montagem. Exceção da última cena que tem um efeito bem interessante e expressivo.

Dentro da proposta de representação, os figurinos criados por Patrícia Muniz são adequados e bem produzidos. A iluminação de Aurélio de Simoni é, como sempre, muito bem realizada.

Bonitinha, Mas Ordinária” é uma encenação criativa e extremamente fiel ao espírito da obra criada por Nelson Rodrigues. Uma montagem de qualidade para um texto expressivo e importante para o teatro brasileiro.

FICHA TÉCNICA:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Alexandre Boccanera
Elenco: Ana Moura, Anderson Cunha, Cláudio Gardin, Elisa Pinheiro, Guilherme Miranda, Julia Schaeffer, Laura de Castro, Marcello Escorel, Márcio Freitas e Morena Cattoni.

Co-direção: Duda Maia
Direção Musical e Trilha Sonora: Guilherme Miranda
Cenografia: Mina Quental
Figurino: Patricia Muniz
Filmes de Animação: Beatriz Carvalho e Diogo Nii Cavalcanti
Iluminação: Aurélio de Simoni
Preparação Corporal e Direção de Movimento: Joana Ribeiro e Marito Olsson-Forsberg
Preparação Vocal: Ana Frota
Assistente de Direção: Márcio Freitas
Realização: Cia Teatro Portátil
Produção: Boccanera Produções Artísticas
Produção Executiva: Alessandra Azevedo

SERVIÇO:
Espetáculo: Bonitinha, mas Ordinária
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro) – Teatro III
Telefone para informações: (21) 3808-2020.
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).
Estreia: 21 de janeiro, às 19h30
Temporada: 21 de janeiro a 1º de março
Horários: de quarta a domingo, às 19h30.
Capacidade: 40 pessoas.
Classificação etária: 16 anos.
Duração: 75 min.
Gênero: Tragédia Carioca

Assessoria de imprensa do espetáculo:
Astrolábio Comunicação
Bianca Senna


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