Crítica: Cafona Sim, e Daí?


 

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Por Renato Mello

Durante a ocupação que realizou no extinto Teatro Delfim, Sérgio Britto montou em 1997 um show com músicas de gosto… digamos que duvidoso para almas mais sensíveis. Um espetáculo assumidamente brega que se chamou “Cafona Sim, e Daí?”. Pouco mais de 20 anos depois Alexandre Lino revolve essas lembranças para celebrar o despudor d’alma e ao mesmo tempo homenagear um dos maiores nomes do teatro nacional, utilizando-se de expediente similar e com o mesmo título, mas sem abrir mão de reinventar-lhe a forma. “Cafona Sim, e Daí?” se encontra em temporada no Teatro de Arena do SESC Copacabana.

Nesta nova montagem, a costura dramatúrgica promovida por Daniel Porto se demonstra ajustada, leve e divertida para promover uma exaltação a um estilo musical que teve e sempre terá seu lugar de predileção por uma capacidade única de expressar a autencidade como modo de vida. A proposta de Daniel Porto pressupõe  brincar com a própria linguagem teatral, se utilizando da metalinguagem para trazer o acolhimento interior do teatro frente à visão pública.  Partilha o espetáculo em 2 atos bem distintos, embora exista uma coerência entre eles, sendo na primeira parte um grande ensaio, em que propositalmente não clarifica aonde termina o ator e começa o personagem, ditando personalidades e opiniões para o show que se sucede no 2º ato.

Alexandre Lino encontra um terreno fértil tanto no universo trabalhado, quanto na base dramatúrgica de Porto para encontrar soluções inteiramente adequadas, permitindo que o espetáculo feche seu próprio ciclo interior dentro de sua proposição. A Arena do SESC é um teatro muito peculiar, com tantas possibilidades que se o diretor não tiver muito claro o que pretende, corre o risco de se perder. A direção de Lino se esparrama por todo o território físico que encontra ao seu redor para integrá-lo ao universo e modulando-o às exigências narrativas, inclusive nas sequências que exijam uma construção dramatúrgica estratificada, principalmente no primeiro ato, e na maneira como ambienta cada canção, trabalhando a grandiloqüência dos gestos com todos aclives e declives tanto das canções quanto das próprias particularidades do teatro, sem se preocupar com tolhimentos e encontrando desta forma uma contundente expansão da proposta.

É preciso nesse tipo de projeto dar crédito para a amplitude da escolha musical, algo determinante para evitar o desagradável sentimento da ausência de uma série de músicas. Nesse aspecto torna-se exitosa a pesquisa de Luciana Victor, dosando equilíbrio de épocas distintas desde “Negue”, passando pela Jovem Guarda, Jane & Herondy, Rosana, Falcão, sertanejo e chegando até Simone & Simaria, assim como  expõe exigências cênicas para diferentes os sentimentos explorados.

Os atores demonstram sintonia com a carga exposta, alcançando alturas necessárias na distensão da proposta. Composto por Antônio Carlos Feio, Luciana Victor, Claudia Ribeiro, Nívia Terra, Marcelo Capobiango, Francisco Salgado, dentre os quais Feio é remanescente do espetáculo original. Uma distinção adicional para Nívia Terra, responsável por alguns dos melhores momentos cômicos e musicais, em especial suas interpretações de Cátia “Cega” e “Negue”. As coreografias de Claudia Ribeiro são destacáveis na forma como aviva toda uma estética e um humor bem demarcado, contribuindo para a concepção cênica de Alexandre Lino e para o processo de composição do elenco.

A direção musical de Jorge Lima compõe a atmosfera do universo cafona, moldando as diferentes vertentes dentro do que poderia ser um gênero maior que engloba desde canções de rock, regionais e boleros. A preparação vocal de Ananda Torres alterna sentimentos da dor profunda com o humor para os vocais e explora um realce para o coro que enxertam elementos de comicidade na sustentação das cenas. Os figurinos de Karla de Lucca graceja fertilmente com os figurinos, utilizando-se dos brilhos, cores, plumas,  com direito inclusive a estampa de Romero Britto.

Apoiando-me nos ditames bregas, aconselho o espectador a entrar no teatro com o espírito desarmado e a alma aberta para se defrontar com um ambiente fecundo ao extravasamento de sentimentos rasgados de paixões e traições,  num espetáculo que cumpre fielmente seus objetivos: brincar, divertir e explorar o inconsciente cafona que nos habita, trazendo-nos sempre a lembrança inesquecível de Sérgio Britto.

 

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Texto: Daniel Porto / Direção: Alexandre Lino / Assistente de Direção e Preparação Corporal: Rodrigo Salavadoretti / Elenco: Antônio Carlos Feio, Luciana Victor, Claudia Ribeiro, Nívia Terra, Marcelo Capobiango, Francisco Salgado / Diretor Musical: Jorge Lima / Músicos: Ananda Torres, Jorge Lima e Rodrigo Salvadoretti / Pesquisa Musical: Luciana Victor / Preparação vocal vocal: Ananda Torres / Coreografia: Claudia Ribeiro / Cenografia e Figurino: Karla de Lucca  / Iluminação: Renato Machado / Técnico de luz e som: Kelson dos Santos Alvarenga / Fotografia: Janderson Pires / Programação Visual: Guilherme Lopes Moura / Produção Temporada RJ: Daniel Porto / Produtora: SBritto Assessoria Produções e Serviços Artísticos e LUZES DA RIBALTA / Produção Artística / Di reção de Produção: Alexandre Lino / Idealização e Produção: Antonio Carlos Feio e Luciana Victor / Realização: SESC Rio / Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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