Crítica: Camille Outra Vez


 


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Houve um tempo, lá se vão uns 20 anos, em que não havia internet, as infomações demoravam a chegar por aqui e o mundo era maior. Tempos em que um jovem cinéfilo e amante de cinema francês(como eu) só conseguia se informar sobre suas novidades através de revistas importadas. Eram caríssimas e chegavam com 2 meses de atraso, vinham de navio. Eu comprava todas e lia sobre certos êxitos do cinema francês, sucessos de público e que a crítica cobria de lantejoulas. Ficava louco de desejo de ver aqueles filmes, mas tinha que esperar 2 anos, isso quando chegavam, alguns nem entravam no circuito brasileiro, com alguma sorte ainda conseguia vê-los num Festival de cinema qualquer. Só que na grande maioria das vezes acabava me decepcionando quando os assistia. “– É só isso?” Eu me questionava. “– Falavam tanto desse filme e é essa coisa insossa”.

O tempo passou, o mundo diminuiu de tamanho, temos acesso em tempo real de qualquer coisa que estreie no mais remoto canto do planeta e me tornei menos cinéfilo e menos amante do cinema francês. Mas isso não me impediu de cair na mesma armadilha de 20 anos atrás.

Camille Outra Vez” foi um sucesso de público e crítica na França e foi o filme com o maior número de indicações no último César(num ano que tinha “Amor”), o que me gerou grandes expectativas. Agora os filmes levam menos de 1 anos para estrear e ao ver “Camille Outra Vez”, tive a sensação de uma viagem no tempo, num Deja vu: “-É só isso?”.

Escrito, dirigido e protagonizado por Noémie Lvovsky, que interpreta Camille, uma atriz fracassada, com a vida pessoal em cacos ao ser abandonada pelo marido(Samir Guesmi) depois de mais de 20 anos de casamento, trocada por uma mulher bem mais nova. Até que numa noite de ano novo, depois de extrapolar na celebração, bebidas e muitos excessos, acaba acordando num outro tempo, num hospital no ano de 1985, quando tinha 16 anos. Reencontrando seu passado, seus pais, sua casa, seu colégio, seus amigos de juventude e o namorado(que viria a se tornar seu marido). Tenta reverter fatos, reviver situações e consertar certos erros.

O filme tem lá sua graça com a personagem vivida por Lvovsky, uma mulher de mais de 40 anos,  vestida como uma adolescente e tendo um comportamento juvenil, dando um ar de non sense nessa fábula.

Mas tal situação não funciona em relação ao personagem de Samir Guesmi, interpretando o marido/namorado. Quando o filme começa e há a briga do casal, fiquei pensando que se tratava do “garotão” de Camille e não seu marido, pois aparentava ser bem mais moço que Lvovsky. Quando o filme volta ao passado ele acaba destoando em meio ao colégio, com sua aparência bem mais velha deslocada naquele universo adolescente. Acaba que o ator não fica bem situado nem no presente e nem no passado. Tal situação acaba mesmo sendo um desafio imposto pelo roteiro. Deveria Lvovsky escalar o mesmo ator para viver o papel com 40 anos e 16 anos? Ou deveria escalar 2 atores com faixa etárias condizentes? Essa 2ª opção poderia dificultar a identificação do público com o personagem. Bem, se fosse no Brasil seria facilmente contornável, bastava colocar o Fábio Jr e o Fiuk para fazerem o mesmo papel(sic).

O filme em nenhum momento decide se quer ser uma comédia ligeira ou um drama existencial metafísico, acaba sendo nem um, nem outro e não chegando a nenhum lugar. Seu interesse melhora na recriação da década de 80, principalmente no figurino e na trilha sonora. Possui um roteiro sem grandes originalidades, um tanto vazio e que peca na sua parte final, se utilizando de clichês típicos de filmes que viajam no tempo.

Apenas a título de curiosidade, Jean Pierre Leaud, o eterno Antoine Doinel, faz uma participação. Cabe dizer que um tanto constrangedora.

Voltando ao presente, só me resta perguntar: “-É só isso?”


Palpites para este texto:

  1. Concordo com sua critica até porque entendes mais sobre assunto… Meu olhar foi alem da sua critica, captei,tive a percepção de que mesmo voltando ao passado não podemos mudar nem o passado e nem o futuro, o que muda somos nós, nossa maneira de pensar no presente. O que será do futuro bem, só vivendo…

  2. Obrigado, Cezar. Não entendo tanto assim, sou apenas um curioso. Agradeço pelo comentário e seja sempre bem-vindo.

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