Crítica: Caros Ouvintes


 

caros ouvintes 6

Por Renato Mello.

Quando seleciono os espetáculos que assistirei em minhas passagens por São Paulo levo em conta 2 critérios, o primeiro obviamente é a busca pela qualidade, o segundo e não menos importante são os fortes indícios de que não será apresentado no Rio, sabendo assim que essa será minha única oportunidade. Desta forma, na última e rápida visita a São Paulo optei por “Caros Ouvintes” e “O Homem de la Mancha”. Em relação ao último espetáculo citado, falaremos dele nos próximos dias. Hoje o assunto é “Caros Ouvintes”, uma dica preciosa fornecida pelo amigo Gilberto Bartholo, do blog “O Teatro Me Representa”.

Grandes Ouvintes” estreou na grande sala do Masp e após brilhante temporada, acabou de reestrear e nesse momento se encontra em cartaz no Teatro das Artes, localizado no Shopping Eldorado.

O tema e a época abordados por si só já me deixavam com grande desejo de assisti-lo. A ambientação se passa toda em um estúdio de rádio durante a época que a ditadura começou a escancarar suas garras. Período de transição na vida nacional não só no aspecto político, mas igualmente nos hábitos e costumes. A era do rádio chega definitivamente ao seu ocaso e os grandes nomes dos musicais da Record e as estrelas das telenovelas passam a ditar as regras e tendências do país. Toda uma classe que durante décadas tomou conta da vida brasileira, formada por cantores, locutores e atores entravam num definitivo período de ostracismo, salvo os que tiveram capacidade ou atributos para se adaptar ao novo mundo que surgia.

Escrita e dirigida por Otávio Martins, “Caros Ouvintes” relata de maneira sensível, emocionante e bem humorada um último dia de uma vida ou um ciclo profissional de quem vivia para o rádio. Em frente ao prédio da emissora é aguardada uma multidão para acompanhar o último capítulo da radionovela “Espelhos da Paixão”. No alto do prédio, de dentro do estúdio é possível observar a tempestade que cai lá fora, motivo pelo qual a esperada multidão provavelmente ainda não tenha dado o ar de sua presença. Momentos antes de começar a difusão dos momentos derradeiros de “Espelhos da Paixão”, o diretor Vicente(Marcos Damigo) entra em crise quando sua amante, a atriz Conceição(Natallia Rodrigues) lhe anuncia que está de mudança para o Rio de Janeiro, onde irá trabalhar em telenovelas. A contagem regressiva para o início da apresentação está prestes a se esgotar e para piorar, um dos atores ainda não deu as caras no estúdio. Mesmo em meio a sua turbulência pessoal e aos imprevistos, Vicente se empenha ao máximo para que essa última página que se fecha em suas vidas seja apresentada com dignidade. Conta com o apoio de seu principal colaborador, Eurico(Alex Gruli) e com o locutor Wilson(Rodrigo Lopez). Em meio a esse ambiente de amargura e de confusão que se instaura ainda tem que contornar o estrelismo e improvisos ao vivo do canastrão Péricles Gonçalves(Eduardo Semerjian) e principalmente com a truculência do publicitário Vespúcio(Alexandre Slaviero), que tenta se impor por meio do poder econômico do patrocinador que ele representa. Tudo isso ocorre enquanto do lado de fora uma multidão se aproxima do prédio da rádio, mas não são necessariamente os esperados fãs da radionovela.

O texto de Otávio Martins cria com perfeição tanto a ambientação da intimidade de um estúdio de rádio, assim como todo o peso e opressão que paira por cima daqueles seres, o peso do tempo passado e da temperatura política do país. Assim como sua direção possui extremo dinamismo, jamais deixando cair o ritmo e com uma perfeita ocupação de todos os espaços cênicos do palco, criando variadas e bem elaboradas situações e contextos, mesmo nos diferentes ambientes cenográficos. Mescla com competência os momentos de humor e melancolia. Além disso, consegue extrair excelentes atuações de todo eu elenco, que atingem um patamar de altíssimo nível. A atuação de Otávio, seja como dramaturgo e diretor são responsáveis diretos pela grande montagem que resultou “Caros Ouvintes”.

Não há dúvidas que o ápice do espetáculo se dá no momento em que a radionovela está no ar, com todas as características desse subproduto que tanto sucesso fez durante os anos 40, 50 e 60. A trama apresentada no palco à beira do absurdo, típico do gênero, agravadas pelas surpresas ao vivo. É nesse momento também que o elenco tem seu maior esplendor em cena, demonstrando principalmente uma enorme técnica vocal na maneira com que “brincam” de fazer radionovela.

Na montagem realizada no Masp, o papel do protagonista Vicente foi vivido por Petrônio Gontijo. Nessa nova temporada o personagem foi representado por Marcos Damigo, que teve uma atuação bastante convincente. Um tipo honesto, íntegro, não necessariamente perfeito pois tem lá seus pequenos pecados e tentações, mas é aquele tipo de chefe que consegue dar toda a segurança e estrutura para sua equipe, mesmo que a alto custo pessoal.

Alex Gruli tem grande atuação e é responsável por momentos bastante engraçados do espetáculo como o sonoplasta que tem que se virar aos improvisos ao vivo. Trata-se inegavelmente de um grande ator, com imensos recursos e bastante carisma.

Eduardo Semerjian, que igualmente como Gruli representa momentos hilários. Assim como também arranca momentos de grande emoção e piedade por parte da plateia. Seu personagem, Péricles Gonçalves, ainda vive do sucesso de outrora. Hoje não passa de um decadente e canastrão ator à beira do ridículo. Quando o personagem de Péricles assume o primeiro plano se torna impossível tirar os olhos de cima do ator, sempre se esperando algo inusitado de seu personagem e ele nunca nos decepciona. Excelente atuação!

Rodrigo Lopez vive o típico locutor de rádio, com toda a pose e postura necessária, mas seus grandes momentos se dão no momento em que revela sua verdadeira essência diante de um drama de cunho sentimental.

Agnes Zuliani, é Ermelinda Penteado. Paulistana típica, começando pelo nome que parece ter saído do seio de alguma família quatrocentona. Agnes cria mais uma atriz decadente, porém com uma enorme cancha que os novatos da televisão vão levar décadas para chegarem perto. Trata-se também de um tipo peculiar e presente da época que andava nas sombras daquele período, delatando colegas com ideais um tanto subversivos. Foi delicioso acompanhar a maneira como a atriz brincava com sua capacidade e técnica vocal. Ótima!

Não podemos deixar de citar Natallia Rodrigues, vivendo a mocinha prestes a abandonar o barco que afunda e se jogar de cabeça para que o futuro.  Natallia talvez seja do elenco quem estava sob maior pressão, gerada por uma boa dose de preconceito. Mas Natallia já demonstrou em outras oportunidades que é uma atriz de recursos e esteve muito bem em cena.

Amanda Costa, vive a cantora de boleros que é convencida que o negócio agora é tocar rock en roll com a Jovem Guarda. Eficiente na criação do seu personagem.

Alexandre Slaviero vive o publicitário arrogante, prepotente e egocêntrico. Correta atuação.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em “Caros Ouvintes” inegavelmente é a cenografia. O trabalho de Marcos Lima é excepcional. Logo que entramos no teatro, ainda vazio, e nos deparamos com o cenário não há como deixarmos de nos encantar. Reproduz com beleza e fidelidade um estúdio de rádio dos anos 60, num trabalho de reconstituição muito bem elaborado.

Os figurinos de Fabio Namatame também são muito bem realizados, Trabalho de enorme e exaustiva pesquisa, captando com perfeição a moda da época.

Caros Ouvintes” é um espetáculo teatral impecável, do mais alto nível técnico, um elenco com enorme capacidade, uma dramaturgia muito bem construída e um trabalho de direção realizado com bastante qualidade. Espero que o Rio de Janeiro tenha a oportunidade de poder usufruir de sua qualidade e possa reconhecer essa grande peça que se apresenta neste momento no Teatro das Artes de São Paulo.

Ficha Técnica
Texto e Direção: Otávio Martins
Elenco (em ordem alfabética): Agnes Zuliani (Ermelinda Penteado), Alex Gruli (Eurico Boavista), Alexandre Slaviero (Vespúcio Neto), Amanda Acosta (Leonor Praxedes), Eduardo Semerjian (Péricles Gonçalves), Marcos Damigo(Vincente Martinho), Natália Rodrigues (Conceição Neves) e Rodrigo Lopes (Wilson Nelson).
Diretora Assistente: Maria Silvia Siqueira Campos
Assistente de Direção: Marcos Damigo
Desenho de Luz: Wagner Freire
Cenografia: Marco Lima
Música Original: Ricardo Severo
Figurino: Fábio Namatame
Fotografia: Priscila Prade
Direção de Produção: Ed Júlio
Produção Executiva: Gabriel de Souza
Relacionamento Empresarial: Laís Campos
Assessoria de Imagem: Beatriz Cervone
Assessoria de Imprensa: Morente Forte Comunicações
Realização: Baobá Produções Artísticas


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