Crítica: Cartola, o Mundo é um Moinho


 
Foto: Alice Aquino

Foto: Aline Aquino

Por Renato Mello

É bastante animador se deparar com um teatro da dimensão e tradição do Carlos Gomes lotado de cima a baixo por um público ávido por vivenciar Cartola, um artista de fundamental importância na consolidação no imaginário nacional de uma cultura popular carioca. Ao mesmo tempo soa irônico. Vem num momento justamente de trevas que nos assombram por um perverso projeto de desmonte cultural, que inclui o Teatro Carlos Gomes. Não foi gratuita a presença de manifestantes às suas portas no dia que assisti ao espetáculo.

Cartola, o Mundo é um Moinho” já traz encantamento pela grandeza da obra de um artista que como poucos alcançaram a plenitude poética e melódica. Com direção de Roberto Lage, o espetáculo busca esse universo para completar-se como obra teatral. Nem sempre atinge tal objetivo devido a uma série de irregularidades, mas tem virtudes e as músicas de Cartola por si só possibilitam um consistente elo de comunicabilidade com o público.

Foto: Alice Aquino

Foto: Aline Aquino

O grande problema do espetáculo reside na dramaturgia de Artur Xexéo, optando por um recurso simplista para contar a história de Cartola através de 2 planos que transcorrem paralelamente. A narrativa se desenvolve pelo viés contemporâneo de um carnavalesco que volta seu olhar ao passado enquanto planeja, em meio a uma série de infortúnios e dificuldades de diversas ordens, o enredo de uma escola de samba exaltando a vida do compositor. A criação cênica do interior da escola de samba e a reconstituição do universo de Cartola intercalam-se ao longo da narrativa de maneira linear, cronológica, quase didática. Diria que a expressão adequada seria “careta”, no sentido de diferenciar o que seria uma mera despretensão autoral de uma progressão narrativa “preguiçosa”. “Cartola, o Mundo é um Moinho” consegue atrair um interesse maior quando se concentra no personagem central, mas a trama paralela revela-se sem força e nada acrescenta às intenções de contar história de sua vida.

Há na proposta de Roberto Lage e na idealização de Jô Santana o sentido de resgatar uma tradição do teatro de revista, algo ainda possível se sentir nas vibrações que emanam das calçadas da velha Praça Tiradentes onde se localiza o Teatro Carlos Gomes. Mas o espetáculo passa ao largo dessa busca, o que não é necessariamente um demérito, se aproximando mais de um típico produto das biografias que inundaram em tempos recentes os palcos nacionais, que igualmente não é argumento para desmerecimento dependendo da forma como se dá essa concepção. Para citarmos como exemplo de um espetáculo que abarca exitosamente esse tipo de formato na originalidade de sua concepção cênica e dramatúrgica, basta lembrarmos o texto que Marcia Zanelatto escreveu para “Deixa Clarear”.

A direção de Roberto Lage não impõe força para amenizar a inércia dramatúrgica de Artur Xexéo, com soluções óbvias, personagens deslocados em cena e estilizações que não dilatam as possibilidades narrativas. A concepção cênica do interior de uma quadra de escola de samba soa estereotipada, mas a construção do barracão possibilita uma melhor amplidão dentro do projeto. Porém as transições dos cenários se dão de forma um tanto abrutalhadas e com excesso de presença da contrarregragem que acaba por “sujar” o desenho de cena. Roberto Lage encontra maior eficiência na direção de atores, em especial com o quarteto que centraliza as principais ações: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Hugo Germano e Adriana Lessa, mas volta a esbarrar com outra questão originária da sua base dramatúrgica pela ausência de um melhor delineamento dos demais personagens.

Foto: Aline Aquino

Foto: Aline Aquino

Utilizando-se de uma ótima expressão corporal, estudo dos movimentos,  embocadura, impostação vocal, além da contribuição do excelente visagismo de Eliseu Cabral, que acabam por se coadunar num excelente trabalho de composição por parte de Flávio Bauraqui, encontrando essência e verdade de Cartola em sua brilhante interpretação. Virginia Rosa trilha um percurso sutil para revelar uma encantadora presença, alcançando destaque na composição de Dona Zica. Hugo Germano interpreta o carnavalesco que desenvolve o enredo da vida de Cartola, com um papel central dentro da narrativa de Xexéo legando-lhe um papel de narrador, embora prejudicado pelo baixo alcance da história paralela, mas que o ator consegue suplantar pela força de seu carisma e presença cênica. Adriana Lessa tem maior destaque como Deolinda, realizando um adorável jogo cênico com Flávio Bauraqui, mas seu papel dentro do contexto da escola de samba acaba diluído.

 O elenco complementa-se com Silvetty Montilla, Augusto Pompêo, Edu Silva, Renata Vilela, Ivan de Almeida, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente , Rodrigo Fernando e  André Muato, que em linhas gerais, com algumas exceções, encontra alguns problemas na forma como são conduzidos no desenho de cena, pela ausência de um maior delineamento dramatúrgico e mesmo em elementos necessários para suas composições(como figurinos adequados ou visagismos mais específicos), que acabam por prejudicar personagens como Carlos Cachaça ou as insípidas participações de Nelson Cavaquinho e Sérgio Porto. Assim como a espontaneidade e capacidade de comunicação de Silvetty Montilla acabam deslocadas e sem um entendimento da função real de suas intervenções.

 A Direção musical de Rildo Hora e os arranjos de Guilherme Terra tem papel preponderante para um maior alcance do espetáculo junto aos espectadores, modulando com sensibilidade a altura necessária para expor cada canção dentro do contexto dramatúrgico, permitindo a potência musical embutida em cada verso de Cartola encontrarem um acolhimento junto ao público, que se deixa envolver pela sua beleza.

A iluminação de Fran Barros demonstra capacidade de moldar os momentos dramáticos, apenas faço uma ressalva na utilização das luzes laterais à plateia, que nada acrescentam ao desenho de cena e incidem de maneira incômoda contra os olhos do público.

O figurino de Fernando Ferrari contribui bastante para o trabalho de composição de Flávio Bauraqui, com um bom trabalho de pesquisa nos cortes e formas. Brinca com as cores na ambientação da escola de samba, revelando todo um conceito de contemporaneidade de um grupo social específico.

Apesar de suas falhas, ainda temos a música de Cartola para nos deixarmos embeber por tanta beleza. E como ela nos encanta!

Foto: Vania Toledo

Foto: Vania Toledo

Idealização: Jô Santana
Dramaturgia: Artur Xexéo
Direção e Encenação: Roberto Lage
Pesquisa: Nilcemar Nogueira
Direção Musical: Rildo Hora
Coreografia: Alex Morenno

Elenco: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Hugo Germano, Adriana Lessa, Silvetty Montilla, Augusto Pompêo, Edu Silva, Renata Vilela, Ivan de Almeida, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente , Rodrigo Fernando e André Muato.

Ficha Técnica
Idealização: Jô Santana
Dramaturgia: Artur Xexéo
Pesquisa: Nilcemar Nogueira
Direção e Encenação: Roberto Lage
Diretora Assistente:Joanah Rosa
Diretor Residente: Ricardo Gamba
Direção Musical: Rildo Hora
Direção Musical Assistente: Guilherme Terra
Preparação Vocal: Guilherme Terra
Arranjos: Rildo Hora
Arranjos vocais e música incidental: Guilherme Terra
Composição Original: Arlindo Cruz e Igor Leal
Designer de Som: Bruno Pinho
Piano e Regência: Guilherme Terra
Figurino: Luciano Ferrari
Cenografia: Paula de Paoli
Diretor de palco: Ricardo Santana
Iluminação: Fran Barros
Visagismo: Eliseu Cabral
Comunicação: Simone Galiano
Marketing Cultural: Ghéu Tibério
Comunicação Visual: Rafael Porazza
Assessoria de Imprensa: Kassu Comunicação
Assessoria Jurídica: Mario Mafra
Coordenação de Produção: Renato Araújo
Produção de Elenco: Ricardo Gamba
Fotografia Artística Estúdio: Vânia Toledo
Fotografia Cena: Lenise Pinheiro
Direção Financeira: Dani Correia
Gestão de Leis de Incentivo: Correia Cultural
Realização: Fato Marketing & Produções

Serviço
Temporada: A partir de 16 de Março até 28 de Maio
Onde: Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/n – Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20060-050)
Capacidade: 644 lugares
Quando: De 5º a Domingo
Horário: As quintas, sextas e sábados às 19h e domingos às 17h.
Censura: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: Quintas e sextas R$ 70,00; sábados e domingos R$ 80,00.
Vendas: ticketmais.com.br
Vendas para grupos: (21) 21466527


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