Crítica: Cavar um Buraco Não Ver o Buraco


 
Foto: Bruna Lopes

Foto: Bruna Lopes

Por Renato Mello

Confesso de início um certo receio pelo fato de se apresentar num galpão. Nada contra a iniciativa de buscar alternativas a um sistema irracional de ocupação das salas teatrais que vigora na nossa cidade e que de maneira contumaz impede a auto sustentação digna de qualquer produção. Tratava-se apenas de um escaldo de quem já passou nesses anos de crítica teatral por experiências nos mais prosaicos lugares que resultaram num número significativo de pretensões vazias.

Cavar um Buraco Não Ver o Buraco” cumpre temporada até o dia 24 de março no Galpão Ladeira das Artes, com direção assinada por João Pedro Madureira e pela poeta visual Maria Isabel Iorio, esta última responsável pela dramaturgia.

O que vemos e o que não vemos quando olhamos para uma mulher. Que uma mulher parada é muitas vezes uma mulher correndo. Fazendo um esforço danado. Porque são muitas as mobilizações dos nossos corpos pra que ele chegue lá: na insistência de existir, e dizer, e quem sabe vir a poder descansar”… “a peça é centrada em mulheres, não só em cena e na equipe, mas também enquanto corpo da narrativa. A ideia é a de que, destacadas da sociedade brasileira e passando a ocupar este não-lugar, possam testar as falências e as invenções de possíveis novos territórios“, aponta o programa do espetáculo. Na sua sinopse oficial: “quatro mulheres, desconhecidas entre si, se encontram em um lugar transitório à espera de uma viagem sem volta. Ao passo que permanecem neste espaço, começam a atravessar suas histórias, concentradas entre as paredes apertadas, e a procurar novas saídas”.

Subir pelos paralelepípedos das tradicionais ruas do Cosme Velho me levou a conhecer um espaço que demonstrou aptidão para suprir bem as necessidades teatrais do espetáculo, muito por mérito da concepção cênica que consegue expandir-se pela ambientação e expor com adequação suas bases estruturais. O resultado é um visível esforço coletivo para erigir uma preposição advinda da inquietude de um grupo de artistas que sentiram necessidade de compartilha-las. Tem méritos, mas também ressalvas.

A partir da construção cênica de Igor Abreu, os diretores João Pedro Madureira e Maria Isabel Iorio apreendem suas ações dentro de uma instalação em forma quadrilátera, encubando os movimentos e intenções num micro espaço particular, aumentando um sentimento de infinitude. Com luzes interiores, fundo preto e confrontando o público num ângulo diagonal, o resultado sensorial é positivo, com contribuição do desenho de luz planeado por Julia Horta e dessa forma superando o desafio de impor um pensamento visual num espaço físico não pensado especificamente para uma peça teatral.

Foto: Bruna Lopes

Foto: Bruna Lopes

Percebe-se no texto de Maria Isabel Iorio a maneira cuidadosa com que trabalha a palavra, porém a construção da narrativa não implementa inteiramente suas intenções por se perderem em questões que resultam etéreas, diluindo algum senso de objetividade com ideias(mesmo que boas) que parecem flutuar soltas pela representação, não propiciando um arcabouço seguro e ao mesmo tempo passando a sensação que o ideário inicial acaba por não se complementar. Uma síntese mais clara do que me refiro pode ser percebida no prólogo, que no meu entender não acresce ao espetáculo, baixando já nos primeiros movimentos a sua pulsão em contextualizações que poderiam ser melhor digeridas se fossem espalhadas ao longo da narrativa.

Em determinados momentos nota-se uma dissonância entre o andamento narrativo com as respectivas ações, com uma melhor eficácia para os aspectos físicos, que transportam a proposta numa altura mais consistente. A imposição da oscilação rítmica pelos diretores é um dos pontos mais interessantes da sua estruturação, buscando dilatar impulsos narrativos, seja para aquietar, enternecer ou fustigar, dosando de forma equilibrada e encontrando a tonalidade adequada para as diferentes sensações.

A utilização de microfones por parte dos atores num espaço físico restrito pode causar estranhamento, mas é preciso avivar a ausência de uma acústica apropriada, com “falsas” paredes delimitadoras, pé direito alto e telhas de alumínio.  O elenco formado Andressa Lee, Júlia Horta, Katerina Amsler e Nathalia Gastim alcança uma altura interpretativa homogênea, numa representação que preza pelo jogo coletivo e mútua sustentação, além de conseguir abrir um canal de comunicação pela fluência da “fala” corporal.

Os figurinos de Nathalia Gastim trabalham com a uniformização de cores e formas, buscando um monocromatismo que amplia o sentimento de anulação da individualidade.

Cavar um Buraco Não Ver o Buraco” é um espetáculo que apresenta alguma irregularidade no seu todo e seu principal vácuo é não conseguir fechar seu próprio ciclo interior. Ao mesmo tempo é preciso ressaltar um grupo de artistas que demonstra despudor e rara coragem para se jogar no vazio, simplesmente porque mantém puras as convicções artísticas que deseja compartilhar.

Foto: Bruna Lopes

Foto: Bruna Lopes

FICHA TÉCNICA
Direção: João Pedro Madureira e Maria Isabel Iorio
Dramaturgia: Maria Isabel Iorio
Elenco: Andressa Lee, Júlia Horta, Katerina Amsler e Nathalia Gastim
Preparação corporal: João Pedro Madureira
Direção de arte: Nathalia Gastim
Iluminação: Julia Horta
Instalação cênica: Igor Abreu
Figurino: Nathalia Gastim
Desenho de som: Phillipe Baptiste
Material gráfico: Maria Isabel Iorio e Nathalia Gastim
Produção executiva: Marcos Quental
Direção de produção: Katerina Amsler

SERVIÇO – “CAVAR UM BURACO NÃO VER O BURACO”
Temporada: de 2 a 24 de março, sextas e sábados.
Local: Galpão Ladeira das Artes (Rua Conselheiro Lampreia, 225 – Cosme Velho)
Horário: 20h
Telefone: (21) 98031-8142
Preço: R$ 20 (meia) R$40 (inteira)
Classificação Etária: 12 anos
Capacidade: 40 lugares
Duração: 60 min


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