Crítica: Cenas de um Casamento


 

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Por Renato Mello.

Um fragmento da obra de Ingmar Bergman ganha os palcos do teatro Ipanema com a adaptação de “Cenas de um Casamento”, numa temporada que se estenderá até o dia 15 de novembro.

Dirigido por Bruce Gomlevsky a partir de uma tradução de Maria Adelaide Amaral, “Cenas de um Casamento” foi concebido originalmente para a televisão sueca em capítulos e posteriormente remontado para as telas de cinema, com cada episódio representando um momento do arco de vida em comum do casal Johan(Heitor Martinez) e Marianne(Juliana Martins) durante um período de aproximadamente 10 anos em que a normalidade da convivência  conjugal se direciona para um abismo que corrói por dentro suas estruturas ao se depararem com situações e dilemas existenciais que eram cuidadosamente ocultadas pelo jogo das aparências cotidianas.

Para início de conversa é absolutamente necessária uma dissociação entre a obra original e essa proposta de montagem teatral. Não se trata simplesmente de uma transposição literal do filme de Bergman para um palco de teatro. Gomlevsky é um diretor com enorme capacidade para vasculhar as angústias interiores e sabe conduzir seus atores a absorverem tais intensidades dramáticas. Portanto, a obra teatral “Cenas de um Casamento” possuiu o olhar de um criador teatral sobre a obra de Bergman, mas com sua própria personalidade presente, não deixando o espetáculo se esvair por caminhos impessoais ou se abater sob o peso da grandiosidade de Bergman. Exatamente assim Gomlevsky levou para os palcos em tempos recentes outros espetáculos cujas referências cinematográficas eram muito fortes, como “Festa em Família” e “Um Estranho no Ninho”(que tem uma origem teatral), sem que as questões comparativas tenham sido colocadas em causa e que resultaram em trabalhos autorais desse diretor.  Quem for a assistir esperando meramente o filme de Bergman no teatro, pode se decepcionar. Há Bergman sim, mas igualmente a visão de Bruce Gomlevsky sobre esse universo utilizando-se de todos os atributos que o teatro possibilita para criar um trabalho inventivo e de qualidade artística.

Dito isso, a estrutura dramatúrgica de Maria Adelaide Amaral respeita a divisão da obra original, representando todo um período de convivência de Johan e Marianne através de segmentos intitulados “A Arte de Empurrar Problemas para Debaixo do Tapete”, “Paula”, “O Vale de Lágrimas”, “Os Analfabetos”, “No meio da Noite Numa Casa Escura em Algum Lugar” e o acréscimo de um epilogo. Painéis pelos quais vão sendo desenhados uma história comum em situações banais e que juntas compõem o quadro de um relacionamento no qual seus personagens delineiam as curvas em função do turbilhão dos acontecimentos e dos sentimentos aflorados que esgarçam suas almas pelo acomodamento imposto de uma estabilidade que se comprova frágil. O texto constitui-se numa base de sustentação importante para que a linha evolutiva do relacionamento se mantenha sólida e que as diferentes nuances dos personagens sejam gradativamente reveladas através de suas próprias experiências pessoais em diálogos secos e agressivos.

Bruce Gomlevsky fez uma concepção cênica que possibilita a fluência narrativa e explora com eficiência todas as variáveis que o texto lhe possibilita. Um dos aspectos que mais admiro costumeiramente nos trabalhos de Gomlevsky é sua direção de atores e no caso de “Cenas de Casamento” em que as sutilezas e os não-ditos tem um papel a desempenhar, realiza com Heitor Martinez e Juliana Martins um processo de afloramento das essências dos personagens com bastante sensibilidade, dosando o acomodamento e a virulência, de distintas formas, que habitam de Johan e Marianne. Realiza uma ocupação cênica com marcações distintas,  desconstruindo e reconstruindo  pequenos núcleos ao longo do espaço físico.

Foto Thiago Ristow 4

Heitor Martinez compõe um personagem que inicialmente exterioriza um certo cinismo e sarcasmo mesclado com alguma sensatez e senso de praticidade, mas que abruptamente extravasa um ser movido através de ímpeto, dando vazão a sentimentos egoístas e tomado pela amargura. Essa gradação vai sendo construída de forma consciente pelo ator, levando-nos a uma compreensão das razões que o levam para a busca de uma auto-piedade. Martinez realiza uma atuação bem equilibrada, encontrando a essência das motivações do seu personagem e exteriorizadas num tom adequado às intenções dramatúrgicas. Juliana Martins dosa suas emoções, que mesmo quando se pega desprevenida pelos acontecimentos, consegue manter uma aparente estabilidade que contrasta com sua oculta devastação interior, sentimentos pelos quais a atriz demonstra através de gestos e da expressão corporal, mas também com auxílio de detalhes que lhe fornecem o suporte de composição, desde o figurino até a escolha do cabelo, encontrando assim a correção interpretativa. Heitor Martinez e Juliana Martins estabelecem no jogo cênico um suporte mútuo para que consigam dar ênfase a toda a carga de densidade dramática de ambos personagens.

O cenário assinado por Pati Faedo contribui para que a proposta de encenação do diretor tenha o alcance necessário para o extravasamento dos sentimentos represados dos personagens através de um permanente jogo de desconstrução de estruturas, que impossibilita o acomodamento da ambientação, paralelamente com a instabilidade crescente de Johan e Marianne, sendo inseridas propiciamente numa proposta conceitual que atende plenamente as necessidades da curva dramática.

Os figurinos de Ticiana Passos tem a adequação para os personagens e suas características, apontando em determinados momentos os rumos que lhes são destinados.

Mais um belo trabalho de Elisa Tandeta, sabendo compor a iluminação de acordo com as intensidades cênicas e sabendo valorizar as situações envolvidas em cada momento dramatúrgico.

Cenas de um Casamento” é um espetáculo bem realizado, com boas atuações e com um texto admirável que disseca o tortuoso processo de degradação de uma relação conjugal.

Fotos: Thiago Ristow

Ficha Técnica
Autor: Ingmar Bergman
Tradução: Maria Adelaide Amaral
Direção: Bruce Gomlevsky
Elenco: Juliana Martins e Heitor Martinez
Trilha Original: Alex Fonseca
Iluminação: Elisa Tandeta
Cenografia: Pati Faedo
Figurino: Ticiana Passos
Assistente de direção: Luiza Maldonado
Projeto gráfico: Thiago Ristow
Agente literário: Cinthya Graber
Prestação de contas: Letícia Napole
Produção executiva: Ana Casalli
Direção de produção: Fábio Amaral
Produtores associados: Anna Magdalena, Fábio Amaral, Fabricio Chianello e Juliana Martins
Idealização: Juliana Martins
Realização: Bubu Produções Artísticas e Ymbu Entretenimento
Assessoria de imprensa: Minas de Ideias

SERVIÇO
Estreia: 16 de outubro de 2015
Temporada: De 16 de outubro a 15 de novembro
Datas: Sextas, sábados e domingos
Horário: Sextas, sábados e domingos, 20h
Preço: R$ 40,00 (inteira) R$ 20,00 (Meia entrada)
Local: Teatro Ipanema
Endereço: Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema – Telefone: (21) 2523- 9794
Capacidade: 222 lugares
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama


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