Crítica: Chuva Constante


 

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Por Renato Mello.

4-estrelas12A análise desse espetáculo por nossa parte reflete à experiência de uma específica sessão de “Chuva Constante”, que não corresponde com a concepção final dessa peça teatral. Foi uma sessão que tenho certeza que tanto elenco como produção desejam ter sido a única. Mas isso não quer dizer que foi uma apresentação ruim, pelo contrário.

Houve uma demora excessiva na abertura das portas da Sala Marília Pêra, no Teatro Leblon. O espetáculo da sala ao lado, “Samba Futebol Clube” já tinha até começado e dava para acompanhar do corredor da galeria os seus deliciosos batuques e ritmos.  Quando o público já se encontrava instalado na cadeira, a produtora Cinthya Graber se dirigiu à plateia desculpando-se pela demora e informou que estavam enfrentando um problema técnico. O equipamento que projetava imagens para o fundo do cenário estava apresentando defeito. Tentaram durante a tarde conserta-lo e diante da impossibilidade, outro estaria a caminho, porém preso num engarrafamento da cidade. Não haveria a projeção de tais imagens que pontuariam o espetáculo e a sessão seria feita somente com um fundo todo preto. As imagens, segundo Cinthya, seriam belíssimas, mas ela acreditava nos seus atores para segurar o espetáculo sem a sua utilização. Deixaram o público à vontade para trocar os ingressos caso se sentissem prejudicados, mas se pelo menos 1 espectador resolvesse ficar, haveria espetáculo. Algumas pessoas se levantaram, mas 90% da sala “pagou para ver”, acreditando na capacidade do trabalho.

Do meu lado, sinceramente, até preferi. Tinha conhecimento que o êxito ou o fracasso desse espetáculo dependeria basicamente de 2 elementos: o texto e as interpretações. Seria até bom assisti-lo sem demais elementos distracionistas e focar minha atenção no que realmente me interessava.

Nesse momento o técnico adentra a sala com o novo equipamento sob a ovação da plateia. Mas não havia tempo e nem possibilidade de instala-lo para a sessão. Fiquei pensando na situação tanto dos atores, quanto da produtora. Para os atores nada pior do que estar a 20 minutos do início da sessão, sem saber em que condições entrariam em cena. Se já soubessem desde cedo que não haveria o equipamento, seria até melhor porque se preparariam para a situação. Nada é pior que a incerteza. Imagino o tamanho do nervosismo que estariam nos bastidores, ainda mais Malvino Salvador, que além de ator, é produtor. No caso de Cinthya Graber, sei bem como é a tensão e o constrangimento de se dirigir a uma multidão para dar uma notícia como essa. Tenho experiência no assunto e sei que há casos em que o público recebe a notícia até com serenidade, mas basta uma pessoa mais agitada para espalhar combustão e deixar o ambiente explosivo. Percebi algumas tentativas isoladas nesse sentido, mas o fogo não se alastrou.

É preciso destacar a maneira honesta e correta com que a questão foi tratada pela produção.

Vamos então ao espetáculo, propriamente dito.

Chuva Constante” é a versão brasileira de “A Steady Rain”, traduzida por Daniele Ávila Small do original escrito por Keith Huff, que fez sua estreia na Broadway em setembro de 2009  e teve no seu elenco original Daniel Craig e Hugh Jackman. Como consta do próprio programa da peça, segundo Huff, “em chuva constante não sabemos qual dos policiais é o bom e qual é o mau. Não sabemos, já que na minha opinião este clichê pouco importa. O espetáculo trata da lealdade de dois amigos que falam continuamente sobre a amizade que os une e os define. Uma amizade como tantas outras até o dia que atravessa por uma situação limite…”

Com direção de Paulo de Moraes e tendo no seu elenco apenas 2 atores: Malvino Salvador e Augusto Zacchi. Dois policiais, amigos de longa data e personalidades completamente diferentes, vivendo uma eterna dicotomia entre o confronto e a lealdade. Denny(Salvador), passional e com uma vida familiar estruturada. Joey(Zacchi), solteiro, solitário, introvertido e racional. Ao receber Joey para jantar em casa na intenção de ajudá-lo a dar uma guinada em sua vida pessoal, um misterioso e violento episódio atinge em cheio a família de Denny e vira o estopim para que toda a instabilidade e irracionalidade que habita dentro de si venha à tona na busca frenética que empreende na busca do criminoso que feriu gravemente seu filho. Suas atitudes terão reflexos diretos na sua vida profissional, pessoal e na relação com seu parceiro. Todo esse turbilhão se passa debaixo de uma intermitente chuva que insiste em não cessar sob suas cabeças.

O texto de Huff é extremamente vigoroso, forte, seco e em nenhum momento poupa quem quer que seja, espectadores ou personagens, quase que exalando um cheiro de acre no ar. O texto se estrutura num permanente diálogo entre os personagens para se contar a história, num confronto direto no melhor estilo tête-à-tête. Mas para que a punjança do texto tivesse reflexo direto no desempenho do espetáculo, nada adiantaria se não tivesse atores a altura. Caso o elemento da representação não estivesse no mesmo nível, o desastre seria inevitável.

Porém Malvino Salvador e Augusto Zacchi tem atuações irrepreensíveis. São composições e registros diferentes, mas ambos estão no mesmo nível de excelência. O fato de não contarem com outros elementos em cena, devido ao problema já relatado, talvez os tenha deixado mais expostos, nus. Por isso mesmo a minha tese no início do espetáculo se confirmou, o foco na atuação foi total e só realçou seus trabalhos. Apesar não ter visto o espetáculo completo, desde já eu prefiro da maneira que assisti, em que os atores fizeram um teatro puro e direto. Salvador com um tipo notoriamente explosivo, um vulcão em permanente erupção. O tom utilizado foi o adequado, mesmo se elevado, já que o texto pede tal carga emocional. Já  Augusto Zacchi tem a composição quase inversa, talvez com um grau de dificuldade um pouco maior. Carrega um sentimento de culpa, quase que um medo de estar ofendendo e um desejo de parecer invisível.

A direção de Paulo Moraes foi acertada, discreta na medida certa e procura não chamar a atenção para “o dedo do diretor”, numa época em que os encenadores querem deixar sua marca pessoal.

A iluminação de Maneco Quinderé é um trabalho que precisa ser ressaltado, utilizando-se refletores localizados nos cantos do palco, causando um interessante impacto visual.

Ao fim do espetáculo, o público aplaude com entusiasmo os dois atores. Malvino Salvador visivelmente emocionado e com lágrimas nos olhos. Me viro para o balcão e vejo as produtoras se abraçando aliviadas e igualmente emocionadas.

Na saída ainda cruzo com Cinthya Graber pedindo desculpas a cada um dos espectadores que deixa o teatro, numa noite que tenho certeza, ela quer mais é esquecer. Quanto a mim, eu prefiro lembra-la. Pude testemunhar dois atores em cena superando com talento e garra os imprevistos e obstáculos que de maneira traiçoeira o teatro é capaz de proporcionar. O que vimos naquela noite foi puro teatro.

CHUVA CONSTANTE
Teatro Leblon – Sala Marília Pêra

FICHA TÉCNICA
Texto: Keith Huff
Tradução: Daniele Avila Small
Direção: Paulo de Moraes
Elenco: Malvino Salvador e Augusto Zacchi
Direção de Produção: Cinthya Graber e José Carlos Furtado Filho
Cenário e Figurino: Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Ricco Viana
Projeto gráfico: Radiográfico
Relações Públicas/ Convidados: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Assessoria de imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Uma produção: Cinthya Graber, Luis Erlanger e Malvino Salvador


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