Crítica: Cinza


 

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Por Renato Mello.

Após 2 sessões na Fundição Progresso e 5 no Oi Casa Grande, o musical “Cinza” parece estar pronto para ganhar definitivamente os palcos do país, para se mostrar em cena como merece: grandioso, potente, com uma personalidade muito peculiar e acima de tudo, inteiramente autoral. A próxima parada é o teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

Trata-se de um projeto idealizado e realizado por Jay Vaquer, artista permanentemente inquieto e inconformado com possíveis amarras às estruturas pré-concebidas.  Jay Vaquer passa a sensação de ser um criador que não tem medo de ousar, mas acima de tudo, alguém que parece vibrar em estar na corda bamba. “Cinza” é a cara de seu autor, um espetáculo que surge com uma fúria criativa e um constante grau de intensidade.

 Curioso é que há cerca de 1 ano e meio atrás, quando Vaquer falou ao Botequim Cultural sobre esse projeto que ainda se encontrava em desenvolvimento, possuía um outro nome: “Meia Noite Ciderela”. Sem dúvida mais palatável ao mercado. “Fiz essa concessão e nem doeu. A dor seria ver um espetáculo bacana como esse sem chance de acontecer por falta de grana”, disse na época

Parece que com o passar do tempo e com o desenrolar do processo de criação, Vaquer retomou o título que tinha idealizado lá no início do projeto, como nos contou nessa mesma entrevista: Trazer ‘Cinderela’ no título, inevitavelmente, remete ao infantil apesar da origem desse folclore universal não ser infantil. Cinderela não é uma obra da Disney…nem dos irmãos Grimm…nem mesmo do Perrault como muitos imaginam… Eles publicaram versões. Muuuuito antes, já existia Yeh-Shen na China ou mesmo Rhodopis na Grécia. O que fazemos aqui é pegar esse conto que funciona como coluna vertebral para desenvolver um corpo que vai além. Pensei em chamar esse musical de ‘CINZA’. Tem relação com a etimologia mesmo. Cinder é a cinza, o borralho (hmm..a Gata Borralheira.rs).. e Cinza como cor também funciona para descrever aspectos da protagonista desse espetáculo.

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Um aspecto curioso é que o núcleo do elenco que compõe “Cinza” é o mesmo que em 2013 protagonizava um espetáculo infantil sobre a mesma personagem “Cinderela”, do qual Jay Vaquer assinava a direção musical. Faziam parte Gabriella Di Grecco(como a personagem título), Raquel Keller, Juliana Viana, André Rayol, Roberta Spindel e Yann Dufau. Embora fosse um espetáculo destinado ao público infantil e realizado com todos os aspectos e características de um conto de fadas, já podia ser percebido, ainda que de maneira mais discreta, algo de diferente e com uma personalidade mais aguçada do que de costume.

Igualmente em uma entrevista ao Botequim Cultural, André Rayol, que em “Cinza” interpreta o Rei, já nos adiantava o que poderíamos esperar desse novo espetáculo: “NÃO, não é a historinha do conto de fadas; É justamente o contrário!! É um outro ‘Ponto de vista’ sobre a história de uma menina que passa a vida inteira sendo humilhada e maltratada, e tentando mudar sua vida; Só que visto de uma forma mais realista, dura, cruel com o que poderia ter acontecido em uma situação como essa. E com ‘subtextos de um inconsciente’, que na nossa história, SE TORNAM REAL!!E isso tudo, numa ‘pegada’ bem Rock and Roll!!”

Muita gente talentosa quebrando tudo” é o que prometia Jay Vaquer. Essa talvez possa ser considerada a síntese desse musical e o que de fato acontece em cena. “Cinza” é o tipo de espetáculo que dá uma chacoalhada no gênero, que nesse momento se ressente justamente de musicais com composições e ambientações originais, exceção para o belíssimo “Bilac Vê Estrelas”, embora com um perfil diametralmente oposto.

Jay Vaquer descontrói a história clássica e coloca em cena toda uma verve pesada, com uma acidez, numa ambientação sombria, utilizando de alguma escatologia, debochando da própria história que conta e ao mesmo tempo propõe um mergulho nas profundezas do lado mais escuro da alma humana. O desenvolvimento dramatúrgico é extremamente complexo, criando uma atmosfera que mistura delírio, alucinação, rebeldia, sem deixar claro o que é realidade ou ilusão, fazendo do texto de “Cinza” algo complexo e intenso.

São 160 minutos de duração, divididos em 2 atos, apoiada numa banda extremamente competente e responsável por manter a temperatura sempre elevada.

Cinza” exige uma representação que necessita tanto de bons atores quanto cantores, se alguma dessas duas características não estiverem no mesmo nível, o artista em cena tende a ser engolido. Pois além da complexidade dramática do texto criado por Vaquer, a criação musical exige igualmente um enorme esforço dos intérpretes, com uma extensão acentuada e divisões musicais que fogem da simplicidade. Para o êxito que se verificou em cena é preciso destacar os méritos do trabalho de preparação vocal de Jane Duboc.

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Já tinha assistido Gabriella Di Grecco em cena e recordo que adorei sua intepretação naquela ocasião, mas que tinha um registro completamente diferente. A atriz conseguiu me surpreender novamente e prender minha atenção em cena com uma personalidade sólida, agora com sua personagem chamada simplesmente como C, que a atriz interpreta com muita força em meio a um ambiente degradante e miserável. Excelente performance!

De repente escutamos uma voz vindo do alto do cenário. Gilberto Bartholo, do blog “O Teatro Me Representa – Merda!” sentado ao meu lado comenta: “Que voz linda!!!”. Era Roberta Spindel. Embora não tenha um papel protagônico, vivendo em “Cinza” a mãe de C, que se suicida vítima da esquizofrenia, Roberta num palco cantando é algo realmente lindo, uma cantora de múltiplos recursos e que encanta sempre. Já tem algum tempo que admiro o trabalho de Roberta Spindel.

Belo trabalho de composição e criação de Juliana Viana e Maria Bia. As duas filhas da madrasta que tanto judiam da pobre C, num trabalho de concepção em conjunto das duas em parceria com Raquel Keller(a madrasta), transformando num núcleo a parte e que gera extremo interesse.

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Bukassa Kabengele diverte com seu tipo irônico e com seus falsetes, como uma espécie de consciência do Rei. Esse vivido por André Rayol, que mais uma vez demonstra grande preparo técnico, percebendo-se um ator nitidamente apaixonado pelo que está realizando e o resultado é visível.

 Paulinho Serra é uma espécie de personagem símbolo da atmosfera criada por Vaquer. O cão de C, com um senso crítico aguçado e rebelde, com toda a liberdade que a dramaturgia lhe dá para desferir os mais ferinos comentários e ponderações filosóficas.

Yann Dufau interpreta o príncipe, demonstrando boa técnica vocal e completa o elenco Kakau Berredo.

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O trabalho de Carol Lobato como figurinista é excelente, num trabalho de pesquisa e adequação extremamente perfeito à estética proposta por Vaquer. Um dos figurinos mais interessantes e originais que vi nos últimos meses. A cada dia me rendo mais à admiração ao trabalho de Carol Lobato.

O ambiente de degradação e desestruturação está muito bem representado nos cenários de Fábio Delduque, que também tem boa inventividade e funcionalidade para o que está sendo contado, que em conjunto com a ótima iluminação de Tiago Mantovani é responsável pelo êxito de encontrar a criação cênica perfeita para o desenvolvimento dramatúrgico e da estética proposta.

Um aspecto importantíssimo na composição dos personagens em “Cinza” é o visagismo criado por Fernando Torquatto e Valéria Rodrigues, que nesse espetáculo tem importância preponderante e maior do que esse elemento costuma ter em outros espetáculos.

Por fim, ressaltamos a competente coreografia criada por Renata Brás, com movimentos bem realizados.

Ocorreram alguns problemas de som, mas uma questão que esperamos ver equacionada nas próximas apresentações.

Cinza” é a conjunção de ótimos técnicos, atores completos, nas mãos de um criador talentoso e com forte personalidade que juntos criaram um espetáculo ousado e original. Pode não agradar a todo tipo de público, mas Jay Vaquer jamais abrirá mão de fazer no que acredita em troca de concessões.

Fotos de cena: Renato Pagliacci

Equipe de Criação
Texto, músicas, letras, direção e direção musical: Jay Vaquer
Direção de movimento, coreografias e assistente de direção: Renata Brás
Preparação vocal: Jane Duboc
Design de Som: Moogie Canazio
Design de Luz: Tiago Mantovani
Cenógrafo: Fábio Delduque
Figurinista: Carol Lobato
Visagismo: Fernando Torquatto e Valéria Rodrigues
Direção e criação audiovisual / Projeções: Renato Pagliacci
Arranjos de base: Jay Vaquer e Renato Pagliacci
Arranjos vocais: Jay Vaquer e Jane Duboc
Fotos de Campanha, programa e cena: Renato Pagliacci
Criação Fotos de Campanha: Horácio Brandão
Comunicação e Imagem: Midiorama Entertainment Media
Operador de Som: Alex Miranda
Stage Managers: Dandara Povoas e Ailime Cortat

Equipe de Produção
Produção Executiva e Financeira: Thiago Amorim, Bianca Labruna e João Alquéres (Uma realização Zangão Entretenimento.)
Gerente de Produção: Marcela Peringer

Banda
Teclados: Anderson Junior
Bateria: Kelder Paiva
Baixo: Lancaster Lopes
Guitarra: Caio Barreto
Guitarra: Bruno Fonseca
Programações: Renato Pagliacci e Anderson Junior

Elenco
PAULINHO SERRA Jeremias
GABRIELLA DI GRECCO C.
RAQUEL KELLER Emilie Chanson
ROBERTA SPINDEL Mãe de C. / Nádia Grotescus / Fada Foda
BUKASSA KABENGELE Bóris de La Torre / Sr.Chanson
MARIA BIA Ana Belle Chanson
JULIANA VIANA Gisele Chanson
ANDRÉ RAYOL Rei Raoul II / Pai de C.
YANN DUFAU Príncipe Raoul / Dr.Raul Cortázar
KAKAU BERREDO Zantsko Grotescus / Nobilis Fleaunard/ Alcibíades Blake
FERNANDA MAMANA Razvana Ionescus / Stand-in Emilie Chanson e Mãe de C.
TAINÁ PUENTES Laila Pitorescus / Stand-in Ana Belle Chanson e Gisele Chanson


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