Crítica: Círculo da Transformação em Espelho


 
Foto: Rodrigo Castro

Foto: Rodrigo Castro

Por Renato Mello

Uma das mais representativas dramaturgas contemporâneas norte-americanas, Annie Baker, recebe seu primeiro tratamento cênico no Brasil através da montagem de “Círculo da Transformação em Espelho”. Dirigido por Cesar Augusto com idealização e tradução de Rafael Teixeira, que cumpre temporada até 29 de outubro no Teatro de Arena do Sesc Copacabana.

Círculo da Transformação em Espelho” foi escrito por Baker em 2009, seu 2º texto de um total de 9 que marcam sua trajetória autoral marcada por um estilo teatral “untheatrical”, em que concentra sua narrativa nas ações, enfatizando a construção de diálogos provenientes de pensamentos imprecisos e silêncios eloquentes, dentre os quais se destaca “The Flick”, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 2013.

Na fictícia Shirley, localizada no estado de Vermont, dois homens(Alexandre Dantas e Sávio Moll) e duas mulheres(Julia Marini e Carol Garcia) frequentam um curso de artes dramáticas ministrado por Marty(Fabianna de Mello e Souza). No processo evolutivo das aulas, semana após semana, o pequeno grupo percorrerá um caminho evolutivo na descoberta do outro, tal como na vida, em pequenos episódios dramáticos. Annie Baker desenvolve uma tipologia bem equilibrada, longe das caricaturas ou do velho truque dramatúrgico de se apoiar em arquétipos, mas na complexidade que existe em cada indivíduo. São aprendizes de atores “confinados” num mesmo ambiente, formando um painel heterogêneo das diferentes relações que experimentamos no convívio social. Cada personagem traz histórias pessoais reveladoras, que nos permite unir os traços de cada personalidade a partir de pequenos segredos mal revelados que vão gradualmente preenchendo o espaço narrativo. Fingem ser um ao outro, contando suas histórias de vida. Escrevem segredos profundos anonimamente em pedaços de papel e escutam, sentados em um círculo pelo chão, as confissões alheias em voz alta. Embora origens e histórias de vida tão distintas, algo os conectam naquele espaço físico, reverberando um entendimento sobre quem se encontra à frente, como um reflexo de um espelho, que através de exercícios simples, estranhos ou incongruentes, permitirá uma atuação não somente sobre seus corpos e atitudes, mas sobre seu próprio ser. A troca e a introspecção lhes propiciarão uma transformação conjunta, equilibrando um paradoxal relevo de emoções e risos. A construção dos diálogos apresenta um refinamento de estilo na medida que não se revestem de loquacidades estéreis, ao contrário, são vacilantes, imprimindo uma humanidade a personagens que apresentam mais dúvidas que convicções sobre suas representatividades.

Ao preparar uma entrevista com Rafael Teixeira semanas atrás sobre o espetáculo, observei nas leituras feitas na imprensa norte-americana que as principais montagens de  “Círculo da Transformação em Espelho” optaram por um caminho mais realista, com a utilização mais moderada de outros elementos técnicos. Na montagem de Cesar Augusto a escolha foi diferente, em que aspectos de teatralidade ganharam uma maior proporção em virtude(creio eu) das próprias exigências de um teatro de arena, como o Sesc Copacabana. Antes de mais nada, nessa observação não existe nenhum julgamento de valor, certo e errado, melhor e pior. Apenas o sublinhar de percursos diferentes para um mesmo texto, um processo que entendo como enriquecedor.

A cenografia de Mina Quental fez uma concepção bastante interessante na utilização de 5 estruturas, que dispostas lado a lado formam uma parede espelhada, transformando o espaço físico numa falsa semi-arena. Explico o “falsa”: algo que passou desapercebido pela plateia da estreia, que se sentou inteiramente de frente e nas laterais dos espelhos, sem se dar conta que o espetáculo propicia uma outra experiência. As estruturas são espelhadas de um lado, mas atrás de sua estrutura envidraçada permite uma janela para o olhar “através do espelho”, uma diferente perspectiva sobre a mesma representação e fechando no entorno o próprio círculo da arena. A proposta cenográfica de Mina Quintal trouxe grandes possibilidades cênicas, inclusive pela própria mobilidade das estruturas, que um diretor com a capacidade criativa de Cesar Augusto, ampliou toda uma especificidade para seu desenvolvimento narrativo.

As soluções cênicas de Cesar Augusto impulsionam a força dramática das intenções contidas no texto de Baker, dimensionando com sutileza a altura dos vazios e angústias de cada personagem. Não há gestos gratuitos na maneira como esparrama a dramaturgia pelo espaço físico, valorizando os silêncios, a troca de olhares, a formação das pequenas intrigas e despertando cada vez mais no espectador um desejo de conhece-los em suas reais intensidades.  Sua direção impõe uma dinâmica quase milimétrica para expandir equilibradamente as sutilezas existentes justamente no que não nos é dito pelos personagens, naquilo preferem guardar dentro de si.

Foto: Rodrigo Castro

Foto: Rodrigo Castro

O elenco formado por Alexandre Dantas, Carol Garcia, Fabianna de Mello e Souza, Júlia Marini e Sávio Moll apresenta-se em pleno equilíbrio, como peças de um tabuleiro com movimentações muito específicas, que no conjunto de suas características ergue-se a força conjunta de um desenho dramático, com atuações muito bem conduzidas pela direção de atores de Cesar Augusto e importante contribuição da direção de movimento de Dani Cavanellas.

Sávio Moll vive Schultz, que chega aos 40 anos recém-saído de um divórcio. Necessita virar a página da sua vida e recomeçar, deixando de lado seus aspectos mais medíocres. Genuinamente sincero, aparenta de início um estranhamento naquele ambiente que de alguma forma trará significados para seu desenvolvimento interior, que na interpretação de Moll ganha contornos delicados, principalmente como trabalha todo um humor por trás de aspectos meio patéticos do personagem. Excelente atuação de Sávio Moll!

Júlia Marini é Theresa, atriz experimentada, vinda de contratempos em sua vida nova-iorquina antes de se mudar pra Vermont. Compartilha um esforço de realização e entusiasmo no trabalho. Desperta a atenção nem tanto pela beleza, mas pelos aspectos interessantes que compõem sua personalidade e pelo que aparenta ocultar. Júlia Marini apresenta um nível de atuação similar ao de Moll, numa intervenção encantadora.

Fabianna de Mello e Souza representa Marty, o principal eixo de transformação de “Círculo da Transformação em Espelho”. A professora que no comandar das execuções desenvolve as habilidades de comunicação de seus alunos sob uma fortaleza que apresenta igualmente seus vazios, que Fabianna explora com profundo acerto pela maneira como gradua os subtons do seu personagem.

Carol Garcia interpreta Lauren, 16 anos, uma atriz entusiasmada a princípio pelas novas descobertas, mas que no meio do processo busca encontrar um sentido para suas ações, questões que lhe ficam pendentes:  “- A gente não vai atuar de verdade”? No que recebe:  “- Já estamos atuando”. Situações que a costumeira espontaneidade de Carol Garcia serve à perfeição para exprimir seus questionamentos, pelas suas inflexões e expressões, despejando ironia, sarcasmo, humor e aguçada capacidade de observação.

Alexandre Dantas é James, um personagem que busca preencher-se daquilo que perdeu num momento da vida em que determinados aspectos parecem um caminho já sem volta, tendo que aparentar uma maturidade em função de sua faixa etária, diferente do que realmente sente, representado por gestos simbólicos realizados com bastante precisão no seu processo de atuação.

Dentro de um ambiente costumeiramente uniforme e impessoal em vestimentas, os figurinos de Ticiana Passos conseguem apontar para detalhes das personalidades, origens e faixa etárias de personagens, mais especificamente nos personagens masculinos. A iluminação de Adriana Ortiz acentua bem os momentos dramatúrgicos e demarca com energia o transpassar do tempo.

Como na vida real, repleta de silêncios, hesitações e dúvidas, Annie Baker compôs uma comédia dramática realista, em que a proposição de Rafael Teixeira, a direção de Cesar Augusto e as ótimas interpretações do elenco direcionam o espetáculo para camadas emocionais profundas, descortinando um objeto de identificação ao mais puro material humano.

Foto: Rodrigo Castro

Foto: Rodrigo Castro

FICHA TÉCNICA
Texto: Annie Baker
Idealização e tradução: Rafael Teixeira
Direção: Cesar Augusto
Elenco / Personagem:
Alexandre Dantas / James
Carol Garcia / Lauren
Fabianna de Mello e Souza / Marty
Júlia Marini / Theresa
Sávio Moll / Schultz

Direção de movimento: Dani Cavanellas
Assistente de direção: Pedro Uchoa
Cenário: Mina Quental
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurinos: Ticiana Passos
Programação visual: Daniel de Jesus
Fotos: Rodrigo Castro
Vídeos: tocavideos – Fernando Neumayer e Luís Martino
Direção de produção: Luísa Barros
Produção executiva: Ana Studart
Administração financeira: Amanda Cezarina
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Realização: Sesc Rio


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31