Crítica: Como Se um Trem Passasse


 
Foto: Patrick Gomez

Por Renato Mello

Como se um Trem Passasse” é mais um exemplo da boa dramaturgia do teatro argentino que tem sido encenada no Brasil em tempos recentes, com textos que atingem questões existenciais do homem contemporâneo diante dos problemas da vida moderna, como nos trabalhos que pudemos observar de nomes como Victoria Hladilo, Romina Paula, Gonzalo Demaria ou Juan Pablo Gómez.

Escrito por Lorena Romanin, “Como si Passara um Tren”, no original, ganhou tradução de Caio Scot e Junio Duarte, não trazendo somente o seu texto, como também a própria direção da autora para a montagem nacional. Sua sinopse pode ser resumida pela abordagem da relação entre uma mãe superprotetora com um filho pós-adolescente e deficiente intelectual numa pequena cidade de interior, em que a chegada da prima da capital, abalará os alicerces desse relacionamento. Acima de tudo, entendo que o espetáculo se debruça sobre uma questão extremamente atual, a ausência de comunicação, no caso, sob diversas configurações a partir da maneira como a autora estrutura sua proposta, que embora simples na forma, aprofunda o sentido de cada personagem, conectando diferentes aspectos de sensibilidade.

Lorena Romanin já trouxe para a montagem nacional uma concepção cênica pré-definida, parecendo ter a noção exata das aplicabilidades dos elementos e sentidos, utilizando com habilidade do ambiente da sala como o território do embate a ser travado pelos seus personagens, em que a cenografia(Dina Salem) amplia a variabilidade de opções para maior fluência na condução dos atores, ajustados dentro de um senso de coletivismo e equilibrando-se mutuamente no momento do crescimento da altura dramatúrgica, até que emerjam à ruptura emocional de suas travas interiores.

Dida Camero interpreta a mãe, que enxerga na imobilidade em sua volta uma cápsula protetora para si e para o filho, em que a atriz expressa numa gradação acertada suas angústias existenciais e a carga de sofrimento de toda uma vida, buscando remedia-la na captura de um tempo estático,  contrapondo-se com os desejos do filho, Caio Scot, em que o peso da mãe lhe obriga a armazena-los intimamente, exteriorizando-se numa metáfora de um trem em constante movimento, mas que ao fim sempre retorna ao eixo de partida. Caio Scot consegue compor adequadamente um personagem que lida com limitações e questões psíquicas, tanto na composição física, como nas ações e movimentações, evitando maiores histrionismos em gestos. A prima da capital, Mani Hashimoto, tem uma importante função na (des)harmonia de toda a predisposição estrutural do espetáculo, representando toda a luminosidade ádvena, ao abrir-se em questionamentos e demonstrar outros percursos possíveis, mas que contraditoriamente carrega seu próprio histórico de incomunicabilidade, aspectos bem sublinhados pela atriz.

Os figurinos de Julia Marques remetem aos originais da montagem argentina, mas adequados ao perfil comportamental dos personagens. A iluminação de Renato Machado comporta com qualidade as alturas da narrativa

Como Se um Trem Passasse” é um espetáculo que concilia uma boa disposição narrativa e cênica, se desvencilhando de pequenas armadilhas para encontrar uma tonalidade correta nas suas irrupções emocionais.

Foto: Patrick Gomez

Ficha técnica
Texto e direção  Lorena Romanin
Elenco  Dida Camero, Caio Scot e Manu Hashimoto
Cenário  Dina Salem
Luz  Renato Machado
Figurino  Julia Marques
Idealização e tradução  Caio Scot e Junio Duarte
Produção Executiva  CAJU
 

Serviço
Como se um trem passasse
De  Lorena Romanin

Teatro Poeirinha
Quinta a sábado, 21h;  domingo 19h
Até 14 de abril de 2019
Duração  70 minutos
Classificação  12 anos
R$ 60 e 30
Rua São João Batista 104
Botafogo – RJ
21 2537 8053

www.teatropoeira.com.br

Assessoria de imprensa Meise Halabi


Palpites para este texto:

  1. Mauro Villas Boas -

    A peça é belíssima exatamente por toda a sua singeleza. Em tempos apoteóticos é difícil apreciar o simples. A crítica acompanha a suavidade e beleza da peça. Foi o que vi.

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