Crítica: Conselho de Classe


 

Conselho de classe 1

Por Renato Mello.

O teatro SESI Centro apresenta atualmente na sua programação a peça “Conselho de Classe”, trazendo de volta à cena carioca um dos mais relevantes textos do teatro contemporâneo brasileiro, tal como sua autoria, de um dos mais expressivos dramaturgos nacionais, Jô Bilac.

Conselho de Classe” recebeu inúmeros e importantes prêmios teatrais, inclusive o nosso modesto prêmio Botequim Cultural em sua 3ª edição como Melhor Autor. Viabilizada através do trabalho da Cia dos Atores, que comemorava 25 anos de uma existência fundamental para o teatro carioca, a peça se passa num típico dia infernal de calor do Rio de Janeiro em que está programado para acontecer o conselho de classe da Escola Estadual Dias Gomes. Em meio a um ambiente degradado, seja no aspecto físico da instituição, seja no aspecto humano, a chegada de um novo diretor acaba por aflorar uma série de conflitos entre os professores daquela instituição.

Talvez seja triste afirmar que “Conselho de Classe”, não apenas pela sua qualidade, mas pela sua temática, venha a se tornar um texto atemporal. Numa nova montagem daqui a trinta anos leremos o crítico da Folha ou do Globo escrever algo como “escrita no longínquo ano 2013, impressiona pela sua atualidade”. Jô Bilac através de um roteiro brilhante cria num ambiente particular uma grande radiografia do estado de inanição da educação nacional.

A peça abre com uma narração em off de Drica Moraes recitando um discurso de Darcy Ribeiro que termina com uma expressão que é uma ênfase da luta que Darcy travou ao longo de toda sua existência pela educação nacional: “Só tem duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. Eu não vou me resignar nunca”. Esse talvez seja o grande mote do espetáculo. Até que ponto resiste nosso estado de indignação antes dele se transformar em resignação? Um eterno entusiasmado como Darcy não se deixou abater nem com a proximidade da morte, através de um câncer terminal, quando afirmou “Termino esta minha vida já exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras”. Mas como questiona Drica: “Sabe quem foi Darcy Ribeiro, né?

Interessante também a citação a Dias Gomes e sua obra “O Pagador de Promessas”, criando uma contradição com o ambiente vigente na escola que leva seu nome. Dias Gomes, um autor que foi um eterno contestador e que nunca se deixou tutelar ou intimidar pelo poder vigente ou por qualquer tipo de imposição. Assim como Zé do Burro, retratado em sua peça como teimoso por não aceitar “humildemente” as imposições que lhe limitariam o cumprimento do que se havia proposto.

O espelho da sociedade está na resignação de personagens como Célia Patricia(César Augusto), Tia Palmira (Marcelo Olinto) e Edilamar(Leonardo Netto). A capacidade de indignação com o sistema já esgotou-se há muito tempo,  não carregam consigo a vocação para Dom Quixote de lutar contra moinhos de vento. Seus sonhos foram roubados por alunos desinteressados, pais omissos e por um Estado que lhes negligencia interesse por seu trabalho, por sua saúde, por suas pobres almas. O entusiasmo ainda é encontrado na professora de artes Mabel(Thierry Trémouroux). Mas o grande contraste com a realidade vem do novo diretor João Rodrigo(Paulo Verlings), com menos anos de vida do que algumas delas tem de magistério, que do seu gabinete bem climatizado no prédio da Secretaria de Educação mantém uma ingênua utopia sobre o papel que a escola e seu corpo docente podem representar para a comunidade ao redor e para a sociedade.

O desenvolvimento desses personagens é muito bem realizado, com a composição de 5 tipos inteiramente díspares, mas complementares dentro do ambiente proposto numa atuação em conjunto muito competente. César Augusto é o símbolo do descaso e da desilusão, patente quando Célia, irônica, diz: “Vocês são muito engraçados, vocês da secretaria. Eu também fico muito alarmada. Com meu salário. Todo mês, quando ele pinga, eu fico alarmada. E ninguém vem aqui saber como eu tô, como tá minha cabeça, meu coração…”. César Augusto tem uma atuação fabulosa e com uma presença em cena perfeita,  entonação correta aos sentidos que o texto pede, seja na amargura, na ironia, na desilusão. Leonardo Netto, compõe a professora Edilamar utilizando de uma eloquência como um real professor de educação física usa a voz para tentar comandar o ambiente. Pragmática, com senso de realidade e que não concede mais crédito no ser humano. Outra atuação primorosa no elenco a realizada por Leonardo Netto. A composição de Marcelo Olinto talvez seja a de maior grau de dificuldade. Abobada, por vezes quase num estado catatônico, parecendo estar fora da realidade, mas volta ao mundo em lampejos. Uma criação milimétrica, com o risco de desvairar para um exagero desnecessário muito bem controlado pelo ator. Thierry Trémouroux e Paulo Verlings completam o elenco com correção e tom correto nas atuações.

As diretoras de Bel Garcia e Susana Ribeiro conseguiram transportar toda a força do texto de Jô Bilac para cima do palco, num trabalho de direção de grande qualidade, com uma direção de atores muito bem realizada, sendo inclusive das diretoras a proposta de que o elenco masculino interpretasse personagens femininos. Encenaram essa “transposição de sexo” com muito cuidado e de maneira a dar credibilidade ao que estava sendo desenvolvido no palco. Criam uma importante movimentação de cena, assim como mantém um ritmo que deixa o espetáculo com o mesmo grau de atenção da primeira cena, mesmo que seja um solitário ator calado e de costas para o público, até o ato final.

Além das qualidades artísticas de texto, interpretação e direção, “Conselho de Classe” tem a virtude de ser tecnicamente muito bem produzido, mesmo nos pequenos detalhes. A constituição do ambiente físico da escola é um enorme achado e um banho de realidade, num trabalho concebido por Aurora de Campos. Seja na diversidade das cadeiras, no ventilador morrinha que não alivia ninguém, na degradação do cenário, pichações, redes de basquete furadas. Perfeito trabalho de Aurora! Assim como o trabalho de iluminação de Maneco Quinderé é competente e os figurinos de Rô Nascimento e Ticiana Passos estão de acordo com a proposta e com os personagens(independente do sexo que vestiam).

Conselho de Classe” um espetáculo necessário, que apesar de darmos enormes gargalhadas ao longo de toda sua representação, acaba sendo um elegante tapa na nossa cara, espectadores, que já passamos igualmente da indignação para a resignação.

* Foto: João Vicente de Mello

Conselho de Classe

Ficha Técnica 
Texto: Jô Bilac
Direção: Bel Garcia e Susana Ribeiro
Assistência de direção: Raquel André
Elenco: Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux
Voz Off Vivian: Drica Moraes

Figurino: Rô Nascimento e Ticiana Passos
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha original: Felipe Storino
Direção de produção: Tárik Puggina
Produção: Nevaxca Produções
Consultoria Pedagógica: Cléa Ferreira
Realização: Cia dos Atores e Nevaxca Produções
Direção de Palco: Wallace Lima
Operação de Luz: Brisa Lima
Operação de Som: Diogo Magalhães
Fotografia: Dalton Valério (cena) e Vicente de Mello (locação)
Direção de Produção: Tárik Puggina
Produção Executiva: Luísa Barros

Serviço:
De 19 de março a 11 de abril de 2015
Horário: Quinta a sábado, às 19h30
Local: Teatro SESI Centro
Endereço: Av. Graça Aranha, n° 1.
Capacidade: 350 lugares
Telefone: (21) 2563-4163
Classificação: 12 anos
Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)


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