Crítica: Consertam-se Imóveis


 

 By_Guga Millet_CONSERTAM-SE_IMOVEIS_2

Por Renato Mello.

A sala multiuso do Espaço Sesc Copacabana está apresentando “Consertam-se Imóveis”, um espetáculo com registro de bastante originalidade em sua história e que dá uma interessante oxigenada ao atual cenário dramatúrgico carioca.

 Dirigido por Cynthia Reis a partir de um texto escrito por Keli Freitas, “Consertam-se Imóveis” conta, segundo sua sinopse oficial “a história de uma família cuja trama é firmemente entrelaçada, figurando no centro um nó fundamental: a mãe, idosa e enferma. Ao se verem diante de situações inesperadas e de um iminente colapso, todos os seus membros se articulam em desdobrados esforços para poupar a matriarca de sobressaltos que podem ser fatais. Com relativo êxito, este controle dura até que alguns acontecimentos escapam novamente do roteiro inicial, obrigando-os a investir toda a energia em empreender novas mudanças justamente para que nada mais mude”.

O grande mérito do texto de Keli Freitas é a maneira como desenvolve sua história criando contornos surpreendentes, que de maneira progressiva vai colocando em cena novos dados, transformando um quadro ambientado inicialmente de maneira sóbria acabe por mudar completamente sua tonalidade, passando a beirar o surrealismo. A mobilidade da história é desenvolvida de modo consciente pela autora, contrapondo com o movimento em contrário por parte dos personagens, imobilizados num universo paralelo e tentando de maneira insana um controle sobre a realidade do que acontece no mundo externo à ficção que criaram.

Não fica a princípio claro aonde e quando se passa a história. Pelos móveis, figurinos, sotaques, há uma sugestão de que estamos próximos de algo como uma fazenda na zona rural de Minas Gerais em décadas passadas, mas de modo gradativo tais sugestões vão se tornando mais paradoxais, sem sabermos onde começa ficção e termina a realidade, deixando uma permanente inquietação em nossos conceitos concebidos sem uma estruturação sólida. Porém, tal necessidade de contextualizarmos uma peça acaba se tornando secundário diante do belo desenvolvimento do texto e da encenação dentro do núcleo de uma sólida e real relação familiar.

O trabalho de encenação de Cynthia Reis tem papel determinante no êxito do espetáculo, criando uma movimentação e marcação dinâmica, numa estética e linguagem muito bem desenvolvidas que geram um envolvimento permanente de todos os elementos. As cenas são sucedidas com competência, solidez e criatividade, conseguindo seguir o que necessita o tratamento do texto e surpreendendo de modo bastante eficiente, sabendo com precisão o caminho pela qual quer levar o espectador para a história que está contando. A direção de atores é um dos pontos mais fortes, conseguindo levar seu quarteto de atores a um bom desempenho.

O elenco é formado por Alonso Zerbinato, Jarbas Albuquerque, Raquel Alvarenga e Suzana Nascimento. Os personagens femininos chamam uma maior atenção com ambas atrizes em desempenhos irretocáveis. Raquel Alvarenga trabalha num registro mais próximo do cômico e desperta enorme empatia do público desde o início. De onde menos se espera é que aparece os primeiros momentos de lucidez, a partir de uma cena muito bem desempenhada pela atriz. Sua presença em cena é extremamente marcante e adorável! Desde o modo como trabalha seu sotaque, a pronuncia de cada palavra, o ritmo vocal adotado e o seu desenvolvimento corporal. Suzana Nascimento já desenvolve seu personagem com mais gravidade e que chega à beira do caos, embora tenha também toques de comicidade. Suzana Nascimento tem sido nesses últimos tempos um dos nomes mais marcantes da cena teatral carioca, com personagens e atuações de altíssimo nível, o que acontece mais uma vez nesse espetáculo. Alonso Zerbinato e Jarbas Albuquerque mantem um bom nível de atuação e conseguem uma boa interação com o universo proposto para seus personagens.

Embora não faça parte direta da ação desenvolvida, tanto a presença física quanto a direção musical de Federico Puppi são um destaque adicional. Federico executa ao fundo da sala seu violoncelo, pontuando cada cena ou situação de modo extremamente eloquente. O músico, ao contrário do que costuma ser característica da função em cena, abstém-se da imobilidade para gravitar juntamente com o elenco pela ambientação física da sala do teatro.

Os objetos cenográficos têm a função que a princípio ajuda a contextualizar a ambientação, utilizando-se de móveis e utensílios com um conceito temporal e que está de acordo com a proposta do espetáculo, que vão ganhando ao longo da encenação novas marcações. Muito bom trabalho assinado por Lorena Lima! Os figurinos tem uma função que ajuda a descontruir ideias pré-concebidas dentro do contexto da ideia central, criados por Bruno Perlatto. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros bastante eficiente e com algumas cenas ganhando contornos muito específicos graças ao trabalho desenvolvido, em especial nas cenas na penumbra de Suzana Nascimento estudando inglês, de belo impacto visual.

Consertam-se Imóveis” é um espetáculo cujo resultado final é muito bem sucedido, num estudo competente sobre a complexidade das reações humanas diante da verdade absoluta e de como trabalhar sua relativação. E assim, a gente vai levando…

FICHA TÉCNICA
Idealização e direção: Cynthia Reis
Texto: Keli Freitas
Elenco: Alonso Zerbinato, Jarbas Albuquerque, Raquel Alvarenga, Suzana Nascimento
Cenário e produção de arte: Lorena Lima
Figurino: Bruno Perlatto
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Composição e direção musical: Federico Puppi
Orientação filosófica: Alexandre Mendonça
Fotografia: Guga Millet
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga
Assessoria de imprensa: Minas de Ideias
Direção de produção: Aline Mohamad
Realização: Cynthia Reis e Tucana e Produções

SERVIÇO
Consertam-se Imóveis
Estreia: 3 de abril de 2015 – Sala Multiuso
Horário: 19h sextas e sábados – 18h aos domingos
Temporada: Até 26 de abril
Local: Espaço Sesc
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Telefone:(21) 2547-0156
Valor: R$ 20,00 (Inteira) R$ 10,00 (Meia) – R$ 5,00 (Associados do SESC)
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama
Duração: 90 min
Capacidade: 80 lugares

Carlos Gilberto – Assessor de Imprensa
Minas de Ideias – www.minasdeideias.com.br

 


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