Crítica: Constellation


 

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Por Renato Mello.

O Teatro Vanucci está apresentando atualmente em cartaz o espetáculo musical “Constellation”, uma deliciosa viagem nostálgica sobre um Rio de Janeiro que não mais existe, com direção de Jarbas Homem de Mello a partir de texto e idealização de Claudio Magnavita.

O musical se passa na então Capital Federal do já longínquo ano de 1955, o texto tem como protagonista a jovem e sonhadora Regina Lúcia(Jullie), que através de um concurso promovido pela Radio Nacional, disputa o privilégio de fazer parte do voo inaugural do moderníssimo Constellation. Enquanto anseia pelo prêmio, tem que conviver com sua realidade, morando num quarto e sala em Copacabana em companhia da mãe(Lovie Elizabeth) e da tia(Andrea Veiga) e decidir entre viver um universo sonho e glamour ou de frustração.

Em meio a história central, o texto de Claudio Magnavita busca uma série de elementos que nos remetem diretamente aquele Brasil ainda pré-Bossa Nova, Cinema Novo, Campeão Mundial e igualmente pré-juscelinista. Numa Copacabana que ditava os rumos tanto da política e do comportamento, antes mesmo de Ipanema entrar na moda, num tempo inclusive que o América disputava o Campeonato Carioca para ganhar o título. Tempos em que nas colunas do Ibrahim, Swann ou do Jacintho de Thormes desfilavam o peso de nomes como Carmen Mayrink Veiga, Jorginho Guinle, Didu Souza Campos, Baby Pignatari, Marta Rocha e que o encurtamento da distância entre Rio e Nova York para apenas 20 horas criou uma enorme ponte aérea entre as 2 cidades, refletindo justamente nos gostos, moda e comportamento.

Refletindo esses hábitos e os sucesso da época, foi escolhido um repertório escolhido à perfeição, incluindo grandes clássicos do período, como Blue Moon , When I Fall In Love, Jambalaya, Surfin’ USA, Only You, Unchained Melody, Stand By Me, Smoke Gets In Your Eyes, Unforgettable e Happy Day entre outros, interpretados e dançados com muita talento pelo elenco do espetáculo.

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A protagonista Regina Lucia é interpretada com muita competência por Jullie. Atriz e cantora, Jullie realizou uma composição física remetendo seu louro platinado a ícones do período, entre os quais Marilyn é o primeiro nome que nos surge. Apresenta enorme carisma, presença cênica, charme, bela adequação nos gestos e movimentos. Como se não fosse o bastante, ainda possui uma bela técnica vocal. Confesso que não conhecia o trabalho de Jullie, tinha somente ouvido alguns comentários sobre sua participação no “The Voice”. Pude constatar que trata-se na verdade de uma atriz completa. Andrea Veiga é Maria da Penha, tia de Regina Lucia. Vedete de Carlos Machado, vivida, conhece bem todas velhacarias do mundo que a cerca, mas isso não faz dela uma pessoa menos frustrada e seu sucesso com os homens ao longo da vida é inversamente proporcional ao seu fracasso na vida pessoal. Andrea faz uma competente interpretação, com belas tiradas e arranca boas risadas da plateia. Atriz de grande personalidade, é muito bom vê-la em cena. Lovie Elizabeth, tal como a irmã, tem suas dores e frustrações. Mesmo na sua repartição já teve no passado mais prestígio, como no tempo que era secretaria de Gustavo Capanema. Mais uma atuação competente e no final do espetáculo Lovie Elizabeth atinge o arrebatamento da plateia, numa linda cena que protagoniza.

Ladeando as 3 atrizes há um verdadeiro time de excelentes atores/cantores/bailarinos, formado por Clayton Morais, Marcio Louzada, Daniel Cabral, Drayson Menezes, Franco Kuster e Ugo Capelli. Todos, sem exceção, ótimos e completos profissionais. Há alguns momentos de destaque para o Jorginho Guinle de Franco Custer, que igualmente se apresenta em cena com muito bons momentos no canto, assim como Clayton Morais faz com bastante graça um apresentador de programa de auditório. Mas quem me chamou mais atenção foi Drayson Menezes, ator de grande expressividade, de imenso talento vocal e que também faz a plateia dar belas risadas.

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Constellation” é o primeiro trabalho de direção de Jarbas Homem de Mello no Rio de Janeiro, embora costume ocupar com mais frequência tal ofício em São Paulo. Jarbas conseguiu captar com muita sensibilidade o espírito do texto de Magnavita e recriou no palco do Teatro Vanucci toda a atmosfera daqueles anos 50 de um Rio de Janeiro que parecia destinado a ser a terra da felicidade e do bem viver. Criou interessantes cenas e perfeitas movimentações. Realizou um importante papel de direção de atores, sabendo dar rumo certo a todos os elementos que compõe o elenco do espetáculo e arrancando ótimas atuações do trio central formado por Jullie, Andrea Veiga e Lovie Elizabeth. A longa experiência em musicais e seu talento faz com que tenha segurança do que quer em cena e de como criar belas situações para dar vida ao espetáculo. Apenas uma pequena ressalva na repetição de algumas propostas usadas na iluminação de certas cenas.

É preciso dar destaque e relevância ao excepcional trabalho cenográfico de Natalia Lana na cenografia. No 1º ato, num canto de cena há um típico apartamento da década de 50, com todos os elementos de época resultante de um belo trabalho de pesquisa e garimpagem. São por vezes pequenos detalhes, como uma mera foto no porta-retratos ou uma vitrola. No outro canto um estúdio de radio. No centro um telão com fotos de prédios de Copacabana com suas curvas em art deco, tão característicos do bairro, telão esse, que ao se abrir nos são apresentados os músicos do espetáculo. No 2º ato a ação se passa para o saguão do aeroporto do Galeão, ficando mais impessoal, porém não menos competente.

Os figurinos também foram alvo de um detalhamento por parte Patrícia Muniz. Estamos falando de um período que as pessoas se vestiam até mesmo para ficar em casa e acompanhar a triste e dramática história de Albertinho Limonta em “O Direito de Nascer”. Mesmo que por vezes o figurino tenha um ar estilizado, como no caso dos bailarinos, não afeta a proposta do espetáculo. Trabalho muito bem feito.

As coreografias não podem ser deixadas em 2º plano. Vital para dar força e expressividade ao espetáculo. Criação de Vanessa Guilhen.

Constellation” certamente não vai ser “o musical do ano” e nem arrebatar um monte de prêmios. É um trabalho muito cuidadoso e que é possível notar que foi idealizado com muita paixão por Claudio Magnavita, mas sem maiores pretensões artísticas ou intelectuais. Seu único objetivo, que atinge em cheio, é fazer o público passar 2 horas se deliciando com o encantamento por uma cidade e ver “a que ponto a cidade turvaria esse Rio de amor que se perdeu”.

Seu enorme sucesso de público não é obra do acaso.

Repertório:
Heaven on Earth (Buck Ram)
He’s Mine (Buck Ram)
My Prayer (G. Boulanger)
Blueberry Hill (Lewis / Stock / Rose)
Blue Moon (Richard Rodgers / Lorenz Hart)
When I Fall In Love (V. Young / E. Heyman)
Jambalaya (On The Bayou)
The Great Pretender (Buck Ram)
Donna (Ritchie Vallens)
Surfin’ USA (Chuck Berry / Brian Wilson)
Only You (A. Rand / Buck Ram)
Unchained Melody (A. North / H. Zareth)
Stand By Me (B. King / J. Leiber / M. Stoller)
Smoke Gets In Your Eyes ( J. Kern / O. Harbach)
Unforgettable (I. Gordon)
Happy Day

FICHA TÉCNICA
Texto e Idealização: Cláudio Magnavita
Direção: Jarbas Homem de Mello
Direção Musical e Arranjos: Beatriz De Luca
Assistente de Direção e Coreógrafa: Vanessa Guillen

Elenco: Andrea Veiga (Tia Maria da Penha), Jullie (Regina Lúcia), Lovie Elizabeth (mãe), Cleiton Morais (locutor e boy band), Marcio Louzada (Tenente Zé Luiz), Daniel Cabral, Drayson Menezzes (locutor), Franco Kuster (Jorginho Guinle), Ugo Capelli

Elenco de apoio – Comissários de Bordo: Agatha Maria Kreisler, Douglas Teixeira, Luã Bregeron e Mariana Floriani

Iluminação: Paulo César Medeiros
Assistente de Iluminação: Julio Medeiros
Figurinos: Patrícia Muniz
Assistente de Figurino: Patricia Delvaux
Cenário: Natalia Lana
Assistente de Cenografia: Marieta Spada
Sound Designer: Fernando Fortes
Sound Designer Assistente: Leandro Lobo
Visagismo: Dicko Lorenzo
Projeções e Audiovisual: Studio Prime
Pianista Ensaiador, Band Leader, Pianista – Eduardo Henrique
Pianista Ensaiador – Thalyson Rodrigues
Músicos: André Barros, Wagner Bispo, Mazinho.
Operação de Projeção: Flavia Belchior
Camareiros: Valter Rocha e Tarsila Alves
Direção de Palco: Pedro Gedelha
Contra-Regras: Fernando Queyroz e Kelson Succi
Fotografia: Milton Menezes
Assistente de Fotografia: Gabriel Stefanini
Projeto Gráfico: Milton Menezes | Lightfarm Brasil
3D: Raphael Coppola
Produção Geral: Frederico Reder
Direção de Produção: Alina Lyra
Produção Executiva: Ágatta Marinho e Marcelle Nery
Produção de Cia: Luana Simões
Assistentes de Produção: Agatha Maria Kreisler e Douglas Teixeira
Elaboração de Projeto: Elisa d’Abreu e Natália Simonete
Equipe de Comunicação: João Batista Gabarron, Luana Ribeiro, Karol Freitas Garrett, RodrigoTrabbold
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Gerência financeira: Juliana Reder e Mariana Reder
Realização: Alkaparra Produções e Brainstorming Entretenimento

SERVIÇO
Horário: Quinta, sexta e sábado às 21h30 e domingo às 20h30
Local: Teatro Vannucci – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea
Bilheteria (21) 2274-7246. Horário de funcionamento: Terça a domingo de 14h às 20h.
Preço: QuintaR$ 80,00 (inteira) / Sexta R$ 90,00 (inteira) / Sábado e Domingo R$ 100,00 (inteira)
Classificação: Livre.
Duração: 120 min.
Capacidade: 400 lugares


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