Crítica: Cronópio, as Aventuras de um Herói Desajustado


 

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Por Renato Mello.

A estreia de “Cronópio, as Aventuras de um Herói Desajustado” merece um olhar atento por todos que de algum modo estão envolvidos com o teatro infantil. São 3 os motivos que nos levam a ressaltar esse destaque necessário: Primeiramente o fato de ser a estreia na nova casa do Centro de Referência Cultura Infância, sob a direção de Karen Accioly, que estava há 12 anos no Teatro do Jockey, um espaço que sempre apresentava espetáculos infantis de qualidade, com escolhas criteriosas e que a partir de agora terá o Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, como sua sede. Em segundo lugar, por se tratar de um trabalho livremente inspirado no universo de Julio Cortázar. Eu, como admirador da obra do escritor argentino, confesso-me surpreendido(agradavelmente) por vê-lo transposto para o universo de uma peça infantil. Por fim, mas não menos importante, pela qualidade final do espetáculo apresentado.

Numa temporada que se estenderá até dia 2 de agosto, “Cronópio, as Aventuras de um Herói Desajustado” tem direção de Diogo Villa Maior para a Quesquecé Companhia de Teatro e segundo sua sinopse “narra a saga do libertário Cronópio, que desafia um mundo de ordem e dribla todas as regras para fazer de sua vida uma experiência poética”.

Não é obrigatório conhecer o universo Cortazariano para se aproveitar o espetáculo, mas logicamente que quanto maior os elementos que se dominam de uma dramaturgia, maior será enriquecimento na compreensão da proposta. Na obra de Julio Cortázar, os Cronópios são seres verdes e úmidos. Idealistas, sonhadores, ingênuos e sensíveis que se contrapõem com os Famas. Os Famas são seres ordenados, estruturados, com o hábito de consultar o relógio para tudo. Existe ainda na obra de Cortázar as Esperanças, aborrecidos e ignorantes. Existe nesses personagens todo um jogo metafórico, que com o sarcasmo que lhe era peculiar, Cortázar usou essas denominações para fazer uma radiografia de como enxergava a sociedade argentina da década de 50/60, sendo os Famas uma representação, na verdade, da alta burguesia, seres alados que se encarregavam de dispersar as más notícias. Enquanto os Cronópios seriam uma visão peculiar da classe média argentina, desejam na verdade imitar os Famas. Enquanto as Esperanças representam as classes mais baixas que permanecem sempre na espera.

Dito isso, o diretor Diogo Villa Maior coordenou o desenvolvimento da narrativa através de um processo de criação coletiva, numa adaptação complexa e que permite uma amplidão interpretativa com diversas camadas de leitura em meio a um universo onírico e que por vezes beira ao absurdo, rejeitando um protagonismo em todos os campos da construção cênica. Não é uma transposição fácil, muito pelo contrário, mas acabou resultando numa base muito positiva para o desenvolvimento do espetáculo.

Diogo Villa Maior já deu provas que não se contenta em procurar as pontes mais seguras, como pode ser constatado em seu trabalho anterior “A Jornada de Kim”. Não teme o risco e ao mesmo tempo jamais subestima a capacidade do seu público. São escolhas complexas, mas que ao final foram bem-sucedidas. Consegue ao mesmo tempo a diversão instantânea do pequeno público, sem abandonar o espaço para aguçar o sonho e a imaginação. Nesse universo proposto, em que o mundo é dominado pelos Famas, quem não se enquadra nas rígidas regras acaba sendo um desajustado, como o título mesmo sugere. Em determinados momentos é possível nos remetermos a “Tempos Modernos” de Chaplin, com sua crítica a cultura da industrialização e de um mundo que a máquina é mais importante que o indivíduo, ou mesmo a “Metropolis”, de Fritz Lang. Diogo explora com competência todas as possibilidades cênicas que o espaço do teatro lhe oferece, criando boas sequências, com um ritmo muito consistente e com uma direção de atores muito bem cuidada.

Não existe lugar para personalismos na história contada e isso se reflete no elenco, em que todos os atores se revezam no papel título de Cronópio. Embora não seja citado, os Famas também estão igualmente presentes do início ao fim em cada um dos atores. O elenco é formado por Camila Costa, Fred Araújo, Judson Feitosa, Juliana Soure e Mariana Rego. Como um reflexo do texto, a direção de Diogo consegue homogeneizar as atuações, embora seja possível sentir uma sutileza em cada um dos atores ao assumirem seu Cronópio.  Os atores inteiramente de acordo com o tom exigido, com um excelente trabalho de expressão corporal e realizando com competência uma permanente troca em cena entre si. Apesar da harmonia e das boas atuações de todo o elenco, podemos pinçar individualmente Camila Costa, que arranca grandes gargalhadas quando interpreta uma apresentadora de programa de televisão e Fred Araújo, ator de personalidade forte e bastante eloquência em cena.

O espetáculo se utiliza de um fundo acinzentado, contribuindo para um tom inodoro de uma atmosfera em que procura propositalmente ser amorfa em um mundo que procura o nivelamento coletivo em detrimento do individualismo. Nesse aspecto do trabalho de Ronald Teixeira vai inteiramente de encontro com o objetivo do espetáculo. Uma escada maleável é o principal elemento cênico, construindo diversas formas necessárias para a construção das cenas. Importante destacar mais um bom trabalho de iluminação de Elisa Tandeta.

Cronópio, as Aventuras de um Herói Desajustado” é um espetáculo que abre com chave de ouro os trabalhos do Centro de Referência Cultura Infância no Teatro Maria Clara Machado. Num momento em que a temporada teatral carioca está infestada de espetáculo infantis de apelo fácil e dramaturgia simplista, “Cronópio” chega para demonstrar que a ousadia e a inquietude artística ainda é o melhor caminho para se construir peças infantis de qualidade e de relevância para a formação cultural do público infantojuvenil.

Foto: Maíra Barillo.

Ficha Técnica:
Direção geral – Diogo Villa Maior
Assistência de direção – Ricardo Cabral
Dramaturgia – Criação Coletiva
Elenco -Camila Costa, Fred Araujo, Judson Feitosa, Juliana Soure e Mariana Rego
Direção de arte – Ronald Teixeira
Iluminação – Elisa Tandeta
Direção musical e trilha original – Fernando Katullo e Tarso Gusmão
Idealização – Quesquecé Companhia de Teatro

Teatro Municipal Maria Clara Machado (Planetário da Gávea)
Av. Padre Leonel Franca, 240, Gávea (estacionamento no local)
Sábados e domingos, às 17 h
R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
De 20 de junho a 02 de agosto


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