Crítica: Dançando no Escuro


 
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Foto: Nana Moraes

Por Renato Mello

Idealizado pelos atores Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes, o filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier recebe tratamento teatral através da direção de Dani Barros, em temporada prevista até o dia 19 de novembro no Sesc Ginástico.

Antes de tudo proponho um acordo de tolerância, pois sou obrigado a esclarecer que desde os tempos paleozoicos em que escrevia para cinema em outros espaços, sempre nutri certa restrição e assumidamente uma antipatia tanto pela obra quanto pela figura de Lars Von Trier, mesmo quando ainda era incensado pela crítica e festivais. Assim como igualmente me foram insuportáveis meus momentos numa sala escura assistindo ao filme.

Isso posto, não significa que a peça esteja de antemão condenada por minha opinião. Assim como já expus num outro texto publicado neste ano, foi fundamental me despir dos “pré-conceitos” para tratar de um trabalho realizado com empenho e sinceridade com o respeito que seus criadores merecem. Portanto, é extremamente meritório que a montagem tenha revertido por completo meu olhar para apontá-la com convicção como um dos melhores espetáculos do ano na temporada teatral carioca.

Adaptado ao teatro por Patrick Ellsworth, com tradução de Elidia Novaes, segundo a própria sinopse oficial suahistória se passa em 1964, nos Estados Unidos. Selma Jezková(Juliane Bodini) é uma imigrante tcheca que se muda para os EUA com seu filho Gene, um garoto de doze anos. Ela tem uma doença hereditária degenerativa que a faz perder a visão, algo que também vai acontecer com seu filho. Ao saber que nos EUA existem médicos que podem operar Gene, foi o suficiente para fazê-la imigrar para o país. Selma aluga um trailer na propriedade de Bill e sua esposa Linda, seus vizinhos, onde vive humildemente. Trabalha exaustivamente em uma fábrica com sua melhor amiga Carmen e guarda tudo o que ganha para a cirurgia que evite que seu filho sofra do mesmo destino. Mas quando Bill se vê em dificuldades financeiras rouba o dinheiro que Selma tinha economizado duramente. O roubo é o ponto de partida para trágicos acontecimentos.

A proposta da adaptação de Patrick Ellsworth dimensiona eficazmente o peso dramático que aflige a protagonista vivida por Juliane Bodini, que embora sua dor contenha contornos visivelmente latentes ainda assim é sublimada por traços sutis, em especial no 1º ato, dos efeitos da sua entrega às atividades tanto laborais quanto lúdicas como uma forma inconsciente de fuga. Mas a partir do momento que se rouba sua base estrutural, o aprofundamento do tomento d’alma alcança níveis acima do suportável sem que em nenhum momento se resvale em aspectos sentimentalistas, ao contrário, existe toda uma coerência das reações.

O processo de direção de Dani Barros modula a carga emocional em tons adequados aos momentos dramáticos. Sua concepção cênica acentua influências expressionistas com uma forma de sublinhar o sobrelevo do sistema sobre a individualidade, remetendo inclusive aspectos da cenografia, assinada por Mina Quental, a “Metropolis” e algo de “Tempos Modernos”, em que a personalidade do indivíduo é anulada pela padronização dos métodos de produção, como bem expresso nos figurinos monocromáticos de Carol Lobato. Sem a utilização de maiores artifícios a diretora consegue conceitualmente estender as percepções dos personagens e ampliar na ambientação da descarga emocional despejado pela narrativa. A movimentação proposta gera significados às ações físicas, principalmente através de um jogo não-verbal que possibilita o avançar do espiral dramático.

Foto: Nana Moraes

Foto: Nana Moraes

A atuação de Juliane Bodini interpretando  Selma Jezvoká é cativante pelos diferentes níveis que se utiliza para exprimir a intensidade interior do seu personagem, sem necessariamente explicitá-los, desde a composição física(méritos ao visagismo de Marcio Mello), a uma postura corporal comprimida que representa todo um estado psicológico, a expressividade e atingindo um domínio vocal adequado não somente na técnica, mas também nas intenções com que permite um afloramento enternecido através de canções com algum nível de complexidade. Juliane é ladeada por um elenco formado por Cyria Coentro (Carmen Baker), Luis Antonio Fortes (Jeff), Andrêas Gatto (Samuel), Greg Blanzat (Gene Jezková), Julia Gorman (Linda Houston), Lucas Gouvêa (Bill Houston), Marino Rocha (Norman) e Suzana Nascimento (Brenda Young), demonstrando coesão, capacidade técnica e equilíbrio nas ações, com um destaque para a atuação de Suzana Nascimento, em especial na parte final como a sentinela que estabelece um vínculo de cumplicidade com sua cárcere.

Dançando no Escuro” possui algumas atipicidades em sua essência musical, começando por se compor de poucas canções e que fogem quase que por completo de todo um aspecto libertário, inclusive é bastante interessante a forma como de algum modo se contrapõe em seus princípios metalinguísticos com toda a luminosidade de “Noviça Rebelde”. Suas canções, compostas por Björk(traduzidas por Marcelo Frankel e Juliane Bodini) são complexas e exigem não apenas uma interpretação afinada, mas que sejam atacadas de dentro para fora como forma de extrair a força que existe em sua densidade, que ganharam uma adequada direção musical de Marcelo Alonso Neves.

Dançando no Escuro” é arrebatador!  Isso é um tremendo elogio vindo de alguém que nutre uma contrariedade pelas ideias defendidas por Lars Von Trier(estou me referindo a conceitos cinematográficos, mas podemos estender por outros mais).

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Foto: Nana Moraes

Ficha Técnica
Musical baseado no longa-metragem de Lars von Trier
Adaptação Teatral: Patrick Ellsworth
Tradução: Elidia Novaes
Direção: Dani Barros
Músicas Originais: Björk
Direção Musical e Arranjos: Marcelo Alonso Neves
Idealização: Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes
Direção de Produção: Jéssica Santiago

Elenco: Juliane Bodini (Selma Jezková), Cyria Coentro (Carmen Baker), Luis Antonio Fortes (Jeff), Andreas Gatto (Samuel), Greg Blanzat (Gene Jezková), Julia Gorman (Linda Houston), Lucas Gouvea (Bill Houston), Marino Rocha (Norman) e Suzana Nascimento (Brenda Young)

Músicos: Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (baterista), Allan Bass (baixista) e Dilson Nascimento (multi tecladista)

Cenário: Mina Quental
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Felicio Mafra
Preparação Vocal: Mirna Rubim
Direção de Movimento e Coreografias: Denise Stutz
Aulas e Coreografia do Sapateado: Clara Equi
Preparação Corporal e Assistente de Direção de Coreografias: Camila Caputti
Visagista: Marcio Mello
Versionista: Marcelo Frankel e Juliane Bodini
Percussão Corporal: Mauricio Chiari
Sonorização: ÁUDIO CÊNICO – Andrea Zeni e Joyce Santiago
Assistentes de Direção: Rubia Rodrigues e Camila Caputti
Assistente de Visagismo: Roberto Santiago
Produção Executiva: Camila Santana e Liliana Mont Serrat
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos do Material Gráfico: Nana Moraes
Fotos de making off e registros: Los Padrinos Fotografia – Roberto Carneiro
Marketing Digital: Maria Alice
Marketing Cultural: TEM DENDÊ! Produções – Tamires Nascimento
Assessoria Jurídica: Heloisa Mourão
Assessoria Contábil: FORTES Contabilidade
Confecção de Boneco: Bruno Dante
Instrutor de manipulação de bonecos: Marcio Nascimento

Serviço
“Dançando no Escuro”
Local: Sesc Ginástico, Av. Graça Aranha, 187, Centro, Rio de Janeiro (tel. 2279-4027)
Temporada: 19 de outubro a 19 de novembro de 2017, quinta a sábado às 19h e domingo às 18h
Ingressos: R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (para jovens até 21 anos, estudantes e maiores de 60 anos), R$ 7,50 (Associados Sesc)
Bilheteria: terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Capacidade de público: 513 lugares
Duração: 120 minutos
Classificação: 14 anos
Drama Musical
Acessibilidade para pessoas com deficiência e assentos especiais
Audiodescrição e Libras aos domingos: 29/10, 5/11, 12/11 e 19/11


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