Crítica: De Filha Pra Mãe


 

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Por Renato Mello.

Como parte integrante do projeto da Funarte “Ocupação Glauce com Vida”, foi encenada nos últimos dias 28 e 29 de novembro no Teatro Glauce Rocha, a peça teatral “De Mãe pra Filha”, da Utópica Cia de Teatro, com direção e texto de Nathalia Cólon.

Uma das razões da minha curiosidade especifica nesse projeto foi ter a oportunidade de assistir pela primeira vez o trabalho de direção de Nathalia Cólon, na minha opinião, uma das mais gratas revelações do teatro carioca em 2014. Nathália é autora do espetáculo infantil “O Pequeno Autor”, um dos mais bonitos textos do gênero que se produziu recentemente e que esteve em cartaz nos meses de setembro e outubro no CCBB, com direção de Marco dos Anjos. Naquela ocasião, mencionei sobre o seu trabalho:

Nathália brinca com muita competência com a metalinguagem através de uma carpintaria que é sólida e ao mesmo tempo repleta de pura fantasia. É absolutamente gratificante para quem acompanha com certa atenção o cenário teatral carioca ver o surgimento de uma autora que parece ter vindo para ocupar um importante lugar

Pois agora a autora abandona o universo lúdico e com uma carga de alta densidade aborda a delicada relação mãe-filha através de uma adolescente que descobre estar grávida.

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Bianca(Paula Barbosa) arruma as malas da sua filha adolescente, Juliana(Débora Osório), que está se preparando para passar uma temporada em Nova York desenvolver suas habilidades como bailarina. Juliana, angustiada, observa a movimentação da mãe enquanto se prepara para dar a notícia da gravidez. Situação que poderá acabar com  uma série de sonhos e planejamentos da mãe em relação a filha. Essa é a linha mestra da peça, mas o grande êxito é a maneira e os elementos que Nathália se utiliza para desenvolver sua narrativa e encenação.

Tudo se passa numa noite de tempestade, com a cidade sendo encurralada pela subida da água, aumentado a carga de angústia e sentimento de impotência diante do turbilhão que se espreita. Num belíssimo jogo de espelhos e reflexos, a mãe observa com uma geração de atraso o seu reflexo na imagem da filha, vendo diante dos seus olhos um “futuro repetir o passado”. Ela, melhor do que ninguém, sabe e conhece as consequências de uma gravidez precoce, com todos os sonhos de uma vida sendo abortados pela opção da vida.  Alguns instantes são responsáveis pela trilha que nossa existência vai seguir. Bianca e Juliana estão vivendo justamente esse momento único, quando ocorre a escolha por abrir mão dos sonhos e desejos e ver tudo aquilo que se projetou para a vida da filha, em decorrência de suas próprias frustrações pessoais, se esvaindo por água abaixo pela enxurrada dos acontecimentos.

Em “De Filha pra Mãe” a grande ausência é a figura pater. Por vezes omissa, fugindo do problema. No homem reside a fraqueza, procurando a omissão ou a fuga do problema, ao contrário das mulheres. É nela que reside a força, em todos os sentidos.

Além da simetria e sensibilidade de como o texto é desenvolvido, é impossível não tecer elogios as atuações de Paula Barbosa e Debora Ozório, responsáveis por dar vida às palavras e aos diálogos contundentes criados por Nathália. Já tive a oportunidade de assistir Paula Barbosa em cena na deliciosa “Vila Maria”, com uma bela atuação vivendo Maria do Meio. Agora pude testemunhar toda a capacidade de Paula num registro completamente diferente. Em cena com uma enorme sensibilidade, sempre no fio da navalha e responsável por conduzir a narrativa no tom correto. Seu acerto na gradação é fundamental para o êxito artístico da encenação, na altura correta, sem exageros, mas com a capacidade de demonstrar toda a complexa gama dos sentimentos que passam pela alma de sua personagem. Uma atuação para se aplaudir de pé. Teve em Debora Ozório uma parceira a altura e afinada com o que o texto pedia de Juliana. Angústia, medo, insegurança, sem saber o que o futuro lhe espera, com sentimentos contraditórios, mas que mesmo assim consegue se manter firme em seus propósitos. Juntas, Paula e Debora estabeleceram uma linda sintonia, além de um permanente e forte diálogo.

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Nathália Colón, melhor o que ninguém, soube como diretora explorar todas as possibilidades que seu texto oferecia. Tem responsabilidade direta no êxito das atuações de Paula Barbosa e Debora Ozório, com uma direção de atores milimétrica. Além disso criou belas situações, movimentações em cena, além de ter elaborado com pouquíssimos elementos distracionistas algumas sequências de grande beleza tanto narrativas, quanto plásticas. A última cena, com Paula por trás o espelho, com a luz abaixando aos poucos dá-nos aquele tipo de sentimento de angústia, em que temos que puxar o ar do peito, que poucas expressões artísticas conseguem nos oferecer como o teatro é capaz.

É importante mencionar o importante trabalho desenvolvido por Camila Costa na preparação corporal e direção de movimento. Elemento fundamental no trabalho de direção e no desempenho das atrizes.

De Filha Pra Mãe” é o tipo de espetáculo feito na raça, por amor à arte da representação teatral, expresso claramente em todos que fizeram parte do projeto

Podem anotar, vocês ainda vão ouvir falar muito de Nathalia Colón!

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Fotos de cena:  Reikrauss Benemond

De Filha Pra Mãe
Ficha Técnica
Texto e Direção: Nathalia Colón
Elenco: Paula Barbosa, Debora Ozorio, Andrea Schiavone
Preparação Corporal e Direção de Movimento: Camila Costa
Direção Musical: Daniel Carneiro e João Guesser
Cenografia: Claudia Caliel
Figurinos: Vinícius Andrade
Desenho de Luz: Dans Souza
fotografia: Pedro Anjos
Programação Visual: Alexandre d’Albergaria
Direção de Produção: Andrea Schiavone
Supervisão de Direção: Marco dos Anjos


Palpites para este texto:

  1. Reikrauss Benemond -

    Por favor colocar os créditos das fotos.

    Crédito obrigatório fotografia: Reikrauss Benemond.

    Abraço

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