Crítica: Deixa Clarear


 

Por Renato Mello.

Depois de apresentações nos mais diversos teatros do Rio de Janeiro, o espetáculo “Deixa Clarear” encerrou mais uma exitosa temporada no teatro João Caetano para iniciar agora uma etapa maior de sua trajetória, ganhar os teatros do Brasil para contar a história de uma das maiores cantoras do Brasil, Clara Nunes.

Com direção de Isaac Bernat a partir de uma dramaturgia assinada por Marcia Zanelatto, “Deixa Clarear” convida a algo mais do que uma biografia da cantora, não existe uma preocupação necessariamente cronológica no desenvolvimento da história, dos dramas, das paixões ou da carreira da artista, como se tornou padrão em uma série de musicais biográficos que estiveram(ou estão) em cartaz recentemente. A cronologia até existe, mas menos pontuada do que de costume. A proposta é outra, um mergulho na essência, no mais íntimo da alma da cantora e no papel desempenhado por sua música para o sua formação não só como artista, mas como ser humano. A grande busca do espetáculo não é pelo efêmero, mas uma visão mais complexa e oculta do que elementos mais superficiais.

Poucos artistas alcançaram a profundidade na difusão dos ritmos originários da cultura afro-brasileira, revelando ao grande público elementos originários da umbanda e candomblé, que fizeram ao longo de sua breve, porém intensa carreira, uma simbiose única e tão pessoal dentro da música brasileira. Com originalidade e sem utilizar-se de outras fórmulas vigentes, Clara Nunes se tornou um dos maiores sucessos de sua época, com uma vendagem e execução próximas inclusive de um Roberto Carlos. Gravou os melhores compositores de sua época: Nelson Cavaquinho, Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Candeia, Paulinho da Viola, Chico Buarque, João do Valle, Toninho Nascimento e através deles consolidou um repertório com qualidade e característica pessoal em que se consegue reconhecê-la através de suas escolhas musicais.

Acompanhada por 3 músicos, Luciano Fogaça(percussão), Bidu Campeche(percussão/cavaquinho) e Felipe Rodrigues(violão), a atriz Clara Santhana é responsável por personificar Clara Nunes em cena, uma tarefa não muito fácil, ainda mais tentando fugir de imagens mais retratadas e caricatas. Clara Santhana impressiona em sua atuação. Dona de uma voz forte, excepcional e de grande extensão, emociona, mesmo quando não canta em cena.  Basta simplesmente recitar com uma visível paixão o texto criado por Marcia Zanelatto, que é marcado por uma série de passagens contadas através de versos, para que a atriz nos deixe em estado de encantamento, compondo um quadro final que nos revela a espiritualidade, o  amor à vida e à cultura essencialmente brasileira. Ao longo dos 75 minutos do espetáculo Clara Santhana realiza uma bela interpretação, em que nos pequenos detalhes, nos mínimos gestos, na sua movimentação corporal(sob orientação de Marcelle Sampaio), faz-nos sentir de algum modo a presença da personalidade de Clara Nunes em cena. Existe todo um processo de caracterização e composição que não necessariamente a aproxima fisicamente de Clara Nunes, mas assim mesmo ficamos fascinados pelo modo tão verdadeiro como é retratada por Clara Santhana, demonstrando que esse não é o único aspecto necessário para se atingir um personagem, ainda mais como Clara Nunes que tinha uma presença tão única. A intensidade da interpretação de Clara Santhana é tão visceral que no momento final em que a aproximação física acontece com mais força através de outros tipos de adereços, atinge-se então um grande impacto.

Deixa Clarear_ João Lima1 - baixa

Foto João Lima

Para a composição de Clara Santhana o figurino, enfeites, pulseiras e demais elementos tem um papel colaborativo importante, mas na medida certa para não se cair num estereotipo vazio. Mérito do trabalho correto assinado pela figurinista Desiréé Bastos.

A delicadeza da direção de Isaac Bernat é um aspecto fundamental para o êxito artístico do espetáculo. O diretor se apoia em poucos elementos, focando apenas no que realmente importa e abrindo mão do supérfluo. Conduz Clara Santhana em sua busca pela personalidade da cantora de modo sensível e numa medida muito bem dosada, podando qualquer exagero que poderia ocorrer. Bernat acaba por compor sequências muito bonitas e muito bem contextualizadas. Um destaque especial para o momento em que Clara toma pelas mãos um enorme objeto circular que tinha anteriormente apenas a função cênica de um luar e o transforma num instrumento musical, conclamando o público a achar o caminho das águas juntamente com ela.

Essa busca pelo essencial em detrimento dos exageros também pode ser notada no cenário composto por fios e tranças, criados por Doris Rollemberg, que em contato com a bela iluminação de Aurélio de Simoni resulta num efeito muito belo e que ajuda na construção de toda a atmosfera e do universo em torno da artista.

Deixa Clarear” não faz revelações mais explícitas sobre seus amores, suas posições políticas, sua carreira. Ele vai mais além do que isso, sendo um bonito espetáculo de grandes méritos artísticos para quem busca conhecer a mulher por trás do mito.

A partir de abril o espetáculo leva a personificação teatral de Clara Nunes para suas origens com uma série de espetáculos agendados para Minas Gerais, em cidades como Belo Horizonte(09/04), Contagem(10/04), Itaúna(11/04), Uberlândia(23/04), Uberaba(25/04), Ouro Preto(30/04), Mariana(01/05) e Tiradentes(02/05).


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