Crítica: Delírio & Vertigem


 

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Por Renato Mello.

5-estrelas1Existem raros espetáculos com a capacidade de nos fazer crer na importância que o teatro tem para que possamos entender melhor todos os labirintos e a complexidade da alma humana. Quando saímos do teatro com esse sentimento, nos dá uma sensação de indescritível felicidade e fé na plenitude que a arte teatral pode atingir. Foi esse sentimento que carreguei após assistir a irrepreensível montagem de “Delírio & Vertigem”, ficando com ele na minha mente ainda que passados alguns dias, martelando e reanalisando conceitos e visões, sobre o próprio espetáculo e os temas por ele propostos.

Delírio & Vertigem” estreou em Belo Horizonte em 2012 e agora aporta no Rio de Janeiro na Caixa Cultural, Centro, em temporada que se encerrará em 28 de setembro. É uma montagem do Oficinão Galpão Cine Horto feita a partir de 13 textos curtos de Jô Bilac, com direção de Rita Clemente.

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O espetáculo é dividido em 2 partes, como o próprio título já sugere. Na 1ª parte, o “delírio” se passa em ambientes fechados em que somos convidados a espiar, como se estivéssemos olhando pelo buraco da fechadura. O ambiente é propício para as explosões de mágoas ocultas e erupções das nossas íntimas loucuras. Quando a montagem abre espaço para a “vertigem”, o ambiente se torna menos lúgubre e o lado patético do ser humano aflora. Momento em que toda a insanidade e patologia que nos sufoca no espaço privado é transposto com humor para o ambiente público… uma sala de cinema, o interior de um avião, o saguão de um aeroporto ou o meio da rua.

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Jô Bilac é sem a menor dúvida um dos nomes mais expressivos surgidos nos últimos anos no teatro nacional. Consegue como nenhum autor nacional contemporâneo viajar pela comicidade, ambiguidade e suplício da alma com tanta habilidade e talento. Bilac consegue expor a podridão do caráter interior do ser humano com uma inteligência para coloca-las numa situação de humor, ridículo e muita acidez.

A junção de textos diversos, como foi o caso de “Delírio & Vertigem”, é sempre algo arriscado e que normalmente tende a deixar o espetáculo irregular na sua dramaturgia. Porém Rita Clemente conseguiu em conjunto com Daniel Toledo costurar os 13 textos de Jô Bilac numa montagem que apesar de fragmentada, tal como a alma humana, tem uma unidade na proposta de investigação da psique e consegue prender permanentemente a atenção, sem deixar em nenhum momento o espectador respirar, com situações que vão do trágico ao cômico(às vezes trágico e cômico) através de personagens e situações que vão e vem e que se cruzam nos  entreatos. Cenas são repetidas sob outro ponto de vista ou situação, utilizando-se diferentes protagonistas e que nos fazem perceber diferentes camadas e sutilezas que um mesmo texto pode oferecer.  A direção de Rita Clemente é ao mesmo tempo sensível, incisiva e podemos dizer que cirúrgica.

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Um dos grandes êxitos do trabalho de Rita Clemente é sua direção de atores. Para dar vida a essa vasta gama de sentimentos contou com um elenco formado por Bianca Fernandes, Bruna Campos, Daniel Toledo, David Maurity, Débora Borges, Leonardo Fernandes, Márcio Monteiro, Ramon Coelho, Raquel Castro, Tucha Borges e Yasmin Santana.  Há uma homogeneidade de atuações, o que não é fácil devido ao tamanho do elenco, a intensidade dramática e humor em cena. No caso de “Delírio & Vertigem” esse equilíbrio é necessário e um desnível poderia ser um desastre. Nesse caso a contribução dos preparadores de atores Diego Bagagal e Silvana Stein parece ter sido fundamental. Seria injustiça de minha parte pinçar destaques individuais, “Delírio & Vertigem” é um trabalho de grupo, de companhia, em que os atores não estão preocupados em brilhar, mas em ser, em sentir. É preciso destacar o Galpão Cine Horto, de Belo Horizonte,  pela formação de atores tão completos e competentes, que pelo que pude presenciar no teatro da Caixa Cultural estão prontos para ocupar um lugar de destaque no teatro nacional, assim como Rita Clemente, responsável por conduzi-los a um brilhante trabalho de atuação coletiva.

Um importante aspecto a ressaltar é a perfeita criação de luz, assinada por Wladimir Medeiros e Daniel Hazan. Um trabalho exemplar de como a iluminação é fundamental para nos remeter a diferentes contextos e cenários, seja uma estrada com carros passando ou o interior de uma sala de cinema. A iluminação de Wladimir e Daniel foi elemento importante para a concepção do cenário(sob responsabilidade de Luciana Buarque), que tem uma indefinição(necessária) e enorme funcionalidade para as diversas situações que se apresentam em cena.

Delírio & Vertigem” é um daqueles espetáculos que nos fazem compreender que o teatro é uma peça fundamental para que possamos investigar toda a complexidade das relações humanas, que nos fazem rir das nossas misérias humanas com a profundidade que aqui no Brasil só conseguiu ser atingida por um Nelson Rodrigues no teatro ou um Rubem Fonseca na literatura. Como é bom termos a consciência que ainda conseguimos produzir um autor da estatura de Jô Bilac.

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* Fotos de Cena: Lia Soares.

SERVIÇO:
DELÍRIO & VERTIGEM
Temporada: 16 a 28 de setembro – ter a dom às 19h
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô: Estação Carioca)
Telefone: (21) 3980-3815
Preços: R$16 (inteira) R$8 (meia-entrada). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 10h às 20h
Lotação: 193 lugares + 03 cadeirantes
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 100 minutos
Acesso para pessoas com deficiência

FICHA TÉCNICA
Direção: Rita Clemente
Direção de arte/Cenografia/Figurino: Luciana Buarque
Diretor Assistente: Daniel Toledo
Roteiro: Rita Clemente e Daniel Toledo
Elenco: Bianca Fernandes, Bruna Campos, Daniel Toledo, David Maurity, Débora Borges, Leonardo Fernandes, Márcio Monteiro, Ramon Coelho, Raquel Castro, Tucha Borges e Yasmin Santana.
Criação de Luz: Wladimir Medeiros e Daniel Hazan
Trilha Sonora: Márcio Monteiro
Preparação de Atores: Diego Bagagal e Silvana Stein
Projeto Gráfico: Yasmin Santana
Realização de Produção: Rita Clemente Produções Artísticas
Patrocínio: Caixa Econômica Federal


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