Crítica: Demônios


 

 

Foto: Dalton Valerio

Foto: Dalton Valerio

Por Renato Mello.

Terminou no último fim de semana a temporada de “Demônios” no Sesc Copacabana, um espetáculo da Cia Teatro Esplendor, com direção de Bruce Gomlevsky a partir do texto do autor sueco Lars Norén. Apesar da perda de uma das funções críticas pela tardia publicação deste texto, acredito ser importante deixar um registro do trabalho apresentado em razão da sua relevância artística e na crença que voltará a se apresentar em novos palcos.

Escrita em 1984, “Demônios”(“Dämonen” no original) faz parte de um trilogia dentro da extensa obra de Lars Norén relacionada à temática do luto a partir da morte materna, trabalhando com todos os elementos que caracterizaram um estilo dramatúrgico muito particular, mas que de algum modo abarca elementos presentes em outros importantes autores suecos como Strindberg e o cineasta/dramaturgo Ingmar Bergman, como questões psiquiátricas e psicossociais. Seu estilo dramatúrgico é repleto de embates sociais a partir de perversões sexuais, violência e conflitos conjugais, aspectos muito presentes em “Demônios”.

A atual montagem tem tradução de Laura Erber e Karl Schollhammer e traça um retrato do casal Frank(Bruce Gomlevsky) e Katarina(Luiza Maldonado), sem filhos e que vivem num belo apartamento. O jogo sádico entre o casal já se inicia na entrada de Frank no apartamento, carregando as cinzas de sua mãe, cujo enterro ocorrerá no dia seguinte. Ambos esperam a chegada do irmão de Frank com a esposa, mas esses preferem dormir num hotel no meio do caminho para poderem assistir um jogo de futebol pela TV. Pela total incapacidade de bastarem-se um ao outro, convidam os vizinhos Tomas(Gustavo Damasceno) e Jenna(Thalita Godoi), casados há 12 anos e pais de 2 filhos pequenos, para vir tomar uma bebida em seu apartamento. O que seria um encontro sociável acaba se tornando uma noite repleta de revelações, humilhações e provocações sexuais.

Foto: Dalton Valerio

Foto: Dalton Valerio

A crueza dos diálogos de Norán é o propulsor para uma guerra íntima sem espaço para tréguas ou misericórdias, instalando um conflito regado a muito álcool e erotismo num huit clos que os mantém atados na mútua dependência psicopática, valsando pelo espaço cênico em direção ao abismo da sanidade, com a intensidade permanentemente estimulada pela narrativa para impor um insaciável castigo físico e mental. Para manter a altura da torrente dramatúrgica em níveis elevados, paralela à necessidade imposta por Norán, Bruce Gomlevsky resgatou para sua proposta de desenvolvimento cênico um nível de pulsão que eu não presenciava desde espetáculos que particularmente me arrebataram como “Festa de Família” e “O Funeral”. Não que seus trabalhos posteriores como “Anti-Nelson Rodrigues” e “Um Estranho no Ninho” fossem necessariamente inferiores, mas as subidas e descidas do desfiladeiro emocional de “Demônios” exige essa descarga emocional plena para que a sintamos carnalmente vivas como experiência teatral, algo que Bruce Gomlevsky é capaz de expor como poucos encenadores.

O espaço cênico é cercado inteiramente pela presença do público, que fica em patamar superior observando de cima para baixo, tal como os romanos apreciavam com gozo os brutais combates no pódio de um coliseu, mas aqui para um embate que vasculha os mais perturbadores sentimentos de personagens estancados e incapazes de encontrar sua própria libertação, reféns do medo de respirar a brisa que sopra no exterior de um ambiente envolto pela podridão.

O cenário assinado pelo próprio Bruce Gomlevsky, em conjunto com Bel Lobo, cria pequenos ambientes dentro de um grande espaço corrido, retratando algum nível de vida sofisticado por parte do casal Frank e Katarina, desde móveis de design modernos, obras de arte, diversidades de gêneros alcoólicos, mas ao mesmo tempo expõe o caos que domina a atmosfera pelo descuido na desarrumação e roupas intimas espalhadas. A criação cenográfica possibilita a movimentação e dinâmica contínua para o espetáculo. A iluminação de Elisa Tandeta aflora os aspectos sombrios e gradua seu desenho de luz marcando com correção todo o movimento dramatúrgico, ampliando as possibilidades cênicas do espetáculo.

Foto: Dalton Valerio

Foto: Dalton Valerio

O elenco corresponde incessavelmente a gradação impressa pela direção e exprime todo o arco de perversidades a partir de um potente jogo cênico. Luiza Maldonado apresenta uma das mais densas e brilhantes atuações do ano, expressando-se tanto corporalmente como pelo extravasamento de todo um comportamento que por vezes aparenta incoerência, mas que retratam com exatidão todo o tormento e a vastidão de sentimentos que se encontram em um personagem perdido num mundo que lhe parece vazio de perspectivas. Certa vez afirmei aqui mesmo no Botequim Cultural: “Que grande atriz é Luiza Maldonado!”. Poucas vezes me sinto tão convicto de uma afirmação passada, ainda mais após sua Katarina. Bruce Gomlevsky explora com grande acerto todo o caráter dicotômico do seu personagem, sabendo dosar harmonicamente ironia, sarcasmo e crueldade. O casal formado por Gustavo Damasceno e Thalita Godoi são usados habilmente por Norén como um efeito espelho, obrigando-os a visvlumbrar no que podem se transformar, ao mesmo tempo em que ameaçam sucumbir a esse reflexo, fascinados por esse ritual de dança da morte e de amor. Gustavo Damasceno faz ótimo trabalho de composição, tanto pela postura corporal,  utilização da expressão vocal e gestos titubeantes para o personagem um tanto antissocial e fora do contexto, mas que acaba extravasando o vulcão que habita por trás de uma face aparentemente cordata. Thalita Godoi explora os aspectos reprimidos de uma personagem de vida ordinária e se encontra num turbilhão de sentimentos que lhe afloram os cantos recônditos de sua alma.

Os figurinos de Andrea Fleury complementam com eficácia as necessidades de composição dos personagens, sabendo explorar as distintas personalidades expostas no texto de Norén

Demônios”, uma direção intensa e com um elenco com perfeito domínio das gradações necessárias para se alçar na altura do desafio dramatúrgico proposto no texto de Lars Norén.  Espero que venham outras temporadas.

Foto: Dalton Valerio

Foto: Dalton Valerio

Ficha Técnica
Autor: Lars Norén
Tradutor: Karl Erik Schollhammer
Direção artística: Bruce Gomlevsky
Elenco: Bruce Gomlevsky, Gustavo Damasceno, Luiza Maldonado e Thalita Godoi
Cenografia: Bel Lobo e Bruce Gomlevsky
Figurinista: Andrea Fleury
Iluminador: Elisa Tandeta
Assistente de direção: Dulce Penna
Projeto gráfico: Maurício Grecco
Assessoria de Imprensa: Leandro Bertholini
Direção de Produção: Luiz Prado
Realização: Cia Teatro Esplendor


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Adorei a peça e sua crítica!
    Super intensa!

  2. ANDREIA E SEMPRE UM GRANDE EXPOENTE DE MODA E ART …. GOSTA DE FAZER ART DA SUA PROPRIA PERSONALIDADE…. SEMPRE DIVINA & ESPLENDIDA…. GRANDES LIÇÕES VIVIDAS…

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