Crítica: Dias Perfeitos


 
Foto: Marco Furlan

Foto: Marco Furlan

Por Renato Mello

Em temporada no Teatro Candido Mendes até o dia 30 de abril, “Dias Perfeitos” é mais uma adaptação realizada por César Baptista para a obra literária do escritor Raphael Montes, após a montagem de “Roleta-Russa” no ano passado.

Não me agrada iniciar o embasamento de minhas observações a partir de comparações, mas é inevitável nos remetermos a alguns aspectos do espetáculo anterior para obtermos uma visão mais abrangente nessa relação do teatro com a literatura e entre o processo de criação de César Baptista para a adaptação dos livros de Raphael Montes.Roleta-Russa” e “Dias Perfeitos” são trabalhos distintos, lógico, mas existe uma indissociabilidade entre ambos na forma como se contextualizam dentro de um universo particular existente no processo de criação do escritor, com uma linha de atuação bem demarcada e pela forma como se sublinha esse estilo dentro do processo de concepção cênica de César Baptista. Em “Montanha-Russa havia um círculo vicioso inquebrantável e inevitável em um espiral de violência, físico e moral, enquanto “Dias Perfeitos” enfoca uma história de amor obsessiva e paranoica. Ambas montagens me agradaram, mas considero “Dias Perfeitos” um trabalho mais maduro e com um resultado final superior.

Segundo aponta sua sinopse oficial, “Dias Perfeitos” conta a história de Téo(Helio Souto Jobim), “um jovem e solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e dissecar cadáveres nas aulas de anatomia, conhece Clarice(Dani Brescianini), uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Téo fica viciado em Clarice: quer desvendar aquela menina diferente de todas que conheceu. Começa, então, a se aproximar de forma insistente. Diante das seguidas negativas, opta por uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez”.

Foto: Marco Furlan

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Um dos aspectos que mais aprecio na obra de Raphael Montes é sua capacidade de descrever o tormento que habita na alma de seus personagens. Trata-se de um processo de extrema complexidade e que apesar da vastidão da dita “literatura policial”(tenho certo pudor em incluir Montes nesse gênero), poucos conseguem de fato realizar com êxito, podendo-se referenciar Rubem Fonseca como o que mais consegue se aproximar de uma virtude que só os escritores russos alcançaram em sua plenitude.

As linhas básicas de sua história não são necessariamente originais,  já contada várias vezes, como podemos citar em “Misery”, de Stephen King e em “Ata-me!”, filme de Pedro Almodóvar, mas a forma como Montes desenvolve sua narrativa decola em voo próprio na exploração de uma psique doentia  através da construção  sólida e gradativa do estado de tensão.  A adaptação dramatúrgica de César Baptista capta com competência o clima sombrio e por vezes, cria uma ambientação claustrofóbica ditada num ritmo pulsante.

Confesso que os primeiros movimentos do espetáculo me deixaram um pouco desconfiado do acerto no tratamento, na apresentação dos personagens e no contexto em que se conhecem. Um certo didatismo fez com que a solução cênica se descolasse do nivelamento do texto, deixando o roteiro soar inicialmente algo prepotente. Mas felizmente após esse início irregular a direção de César Baptista alça uma sintonia extremamente adequada e consegue envergar um arco narrativo potente e com a criação de cenas contundentes, utilizando com habilidade a trilha sonora e o desenho de luz.  As soluções cenográficas de Igor Alexandre Martins contribuem para o êxito cênico do espetáculo, que se tratando do Teatro Candido Mendes é um enorme mérito devido a suas limitações físicas(já vi muito espetáculo se afundar naquele teatro por incapacidade de transpor sua assimetria) revelando-se de bastante funcionalidade para a criação de cenas plásticas, fortes e enérgicas. César Baptista ritma a movimentação e ações de modo a espalhar pela ambientação toda a carga psicológica, prendendo por completo a atenção do espectador ao largo faz 2 horas de apresentação.

Foto: marco Furlan

Foto: marco Furlan

O casal Téo e Clarice é interpretado por Helio Souto Jobim e Dani Brescianini, tendo em papeis coadjuvantes e interpretando diferentes personagens ao longo da apresentação Arno Afonso, Leonardo Vasconcelos e Virgínia Castellões. Dani Brescianini tem excelente atuação! Forte personalidade, pleno domínio das intenções dramatúrgicas, exteriorização perfeita da modulação vocal e bom trabalho corporal. Um momento em particular me chamou muito a atenção da sua expressividade(que prefiro não contextualizar para evitar adiantar detalhes da história), mas numa criação cênica de César Baptista de força dramática importantíssima e bem iluminada,  bastando para que a força do seu olhar exteriorizasse todo o tormento vivido pelo seu personagem, atada a uma cama. Helio Souto Jobim, que ressaltei em minha crítica de “Roleta-Russa” alguns excessos, consegue em “Dias Perfeitos” uma atuação bem mais consistente na composição de um comportamento psicopata sem deixar-se resvalar em tonalidades desnecessárias. Com sutiliza expõe características comportamentais do seu transtorno de personalidade, como o egoísmo, a ausência de arrependimento por atos extremos, valores morais distorcidos e insensibilidade ao sofrimento alheio. Arno Afonso, Leonardo Vasconcelos e Virgínia Castellões encorpam o quadro cênico com atuações corretas e dentro das necessidades narrativas.

Uma história de obsessão com diálogos vigorosos, narrativa bem estruturada, concepção cênica inventiva e interpretações densas, fazem de “Dias Perfeitos” um espetáculo instigante e com capacidade de surpreender pela forma como se desvia dos clichês que costumam espreitar esse tipo de proposta. Corremos o risco de sermos flagrados no acender das luzes por nossa respiração ofegante diante da sucessão de acontecimentos que presenciamos.

Muito bom!

Foto: Marco Furlan

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Ficha Técnica

Romance original: Raphael Montes
Direção e adaptação: César Baptista

Elenco: Dani Brescianini, Helio Souto Jobim, Arno Afonso, Leonardo Vasconcelos e Virgínia Castellões

Assistentes de Direção: Diogo Pasquim e Leonardo Vasconcelos
Iluminação: Edson FM
Fotos: Marco Furlan
Cenário e Figurino: Igor Alexandre Martins
Trilha Sonora: César Baptista
Assessoria de imprensa: Minas de Ideias
Instagram: @espetaculodiasperfeitos

Serviço
Estreia: 10 de março – SESSÃO VIP – DIA 13 DE MARÇO – 21H
Horário: Sexta e Sábado ás 20h30 e Domingo ás 19h30
Temporada: De 10 março até 30 de abril de 2017
Local: Teatro Candido Mendes – Metrô Nossa Senhora da Paz – Tel.: 2523.3663
Endereço: Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Lotação: 103 lugares (01 lugar para cadeirante).
Funcionamento da bilheteria: diariamente a partir das 13h30
Venda de ingressos: compreingressos.com
Ingresso: Ingresso: R$ 50 (inteira) 25 (meia)
Classificação: 16 anos
Gênero: Suspense
Duração: 100 minutos

Assessoria de Imprensa    
Minas de Ideias Comunicação Integrada
Carlos Gilberto e Fábio Amaral


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