Crítica: Dispare


 

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Por Renato Mello.

No ciclo das Comemorações dos 20 anos da emblemática Cia Boto-Vermelho, em que diversos espetáculos que fizeram parte do seu repertório ao longo desse tempo estão sendo reencenados, o Teatro Alcione Araújo apresenta a peça “Dispare”, numa temporada prevista até o dia 25 de setembro.

A encenação é assinada por Roger Mello, um dos artistas brasileiros mais conceituados internacionalmente e que recentemente recebeu por seu trabalho como ilustrador o Prêmio Hans Christian Andersen(o mais importante prêmio mundial da literatura infantil), a partir de sua transposição para os palcos do trabalho “Por  uma filosofia da Diferença”, de Regina Schöpke, talvez o maior estudo realizado sobre a obra de Gilles Deleuze no Brasil, que segundo a definição da própria produção da peça fala de um ser que não é mais pensado como identidade e sim como multiplicidade, um ‘díspar’, (do latim dispare) um simulacro em meio a outros simulacros, sem mais modelos, sem paradigmas. Roger construiu a história de um ‘Eu’ partido, um ‘Eu’ múltiplo, revelando que no fundo somos ‘muitos’, somos todos os ‘outros’ que falam em nós, que nos constituem”. “Dispare” fecha a trilogia iniciada em 2003 com “Elogio da Loucura”, inspirado na obra de Erasmo de Rotterdam e posteriormente com “Entropia”.

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Ao entrarmos na sala de teatro já somos impactados com a presença no meio do palco de um corpo pulsante, multifacetado, vital, complexo, porém uno em seu formato. A partir de seu esfacelamento em diferentes partículas, a complexidade dos diversos “Eu” é materializada e se manifesta individualmente. A dramaturgia construída por Roger Mello, ambientada numa sala de espelhos em que um disparo de revólver acaba por gerar diversas possibilidades até que a bala alcance seu destino final. Quem atirou? Quem será atingido? O próprio reflexo? O reflexo do reflexo? Durante essa fração mínima de tempo, toda uma série de reflexões jorra em cena demonstrando a complexidade de cada “Eu” que habita interiormente em suas fragmentações, através do conflito, do embate ou das insinuações.

A dinâmica com que Roger Mello imprime para a concepção do espetáculo lança um vertiginoso quadro do esfacelamento de nosso ser, através de uma movimentação em cena realizada com um cuidado milimétrico de cada marca, utilizando uma atmosfera sombria nessa viagem aos profundos interiores da alma humana.  Roger guia seus atores no palco com uma habilidade absoluta, levando cada distinto elemento de “Eu” para excelentes atuações.

 O elenco é formado por Artur Gendankien, Ludmila Wischansky, Pedro Cavalcante e Ricardo Schöpke, que fazem um jogo cênico absoluto, num trabalho de desconstrução, todos e ao mesmo tempo. Exploram diversas sensações e registros que podem caber em um mesmo indivíduo no seu processo de fragmentação de identidade. Esse jogo cênico é de vital importância para o desenvolvimento da narrativa, para a formação da multiplicidade e para o esfacelamento da personalidade de cada “Eu”. É um tipo de condução de personagem em que todos os atores estão permanentemente na corda bamba e qualquer descuido pode levar para um fim trágico, sendo que como em raros espetáculos, cada ator depende vitalmente do outro para seguir adiante em sua trajetória. Há um entrega total e absoluta de cada ator, mantendo a intensidade em sua capacidade máxima, atingindo uma visceralidade e uma pungência, no que posso considerar uma das melhores atuações conjuntas que presenciei neste ano. Há que se destacar o primoroso desenvolvimento corporal e vocal, resultando num trabalho de altíssima qualidade. Assim como a direção de movimento de Roberta Repetto tem fundamental importância no êxito das atuações.

DISPARE- foto oficial 01As distintas características dos demais elementos teatrais tem fundamental contribuição para a criação da identidade tão particular e complexa de um espetáculo como “Dispare”. A iluminação desenhada por Ricardo Schöpke é determinante para o clima sombrio proposto por Roger Mello para conceituar sua história, dialogando com todo o jogo e movimentação cênica. Assim como os figurinos negros e com características futuristas assinados por Ney Madeira, Pati Faedo e Dani Vidal, revestindo cada “Eu” com uma uniformização que impulsiona a busca dos atores por seu próprio percurso. A cenografia de Roger Mello dá todas as possibilidades para o desenvolvimento cênico. Eficiente utilização da sonoplastia para ritmar o espetáculo.

Dispare” é um teatro verdadeiro em sua essência, em que o espectador é surpreendido a todo momento pela diversidade de possibilidades abertas ao longo de toda encenação, por atores que percorrem o patamar extremo através de um diretor que não tem o menor receio em correr riscos. Ao final deságua num espetáculo de alto nível de sofisticação e qualidade.

FICHA TÉCNICA
Texto, direção, cenografia e direção musical Roger Mello.
Pesquisa e consultoria de filosofia Regina Schöpke e Mauro Baladi.
Direção de produção Ricardo Schöpke.
Elenco Artur Gendankien, Ludmila Wischansky, Pedro Cavalcante e Ricardo Schöpke.
Figurino Ney Madeira, Pati Faedo e Dani Vidal.
Direção de movimento Roberta Repetto.
Arquitetura de luz Ricardo Schöpke.
Fotos Martin Atme
Assessoria de imprensa Ricardo Schöpke – Cia BOTO-VERMELHO.
Realização Cia BOTO-VERMELHO.

SERVIÇO:
Local: Teatro Alcione Araújo
Endereço: Av. Presidente Vargas, 1261 – Centro – Estação Presidente Vargas do Metrô
E-mail: programacao.bpe@bibliotecasparque.rj.gov.br
Temporada: 12 de agosto a 18 de setembro. Quartas, quintas e sextas às 19h
Valor: R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 (meia). Cadastrados nas Bibliotecas Parque têm direito à meia entrada.
Capacidade: 195 lugares
Classificação: 12 anos
Gênero: drama
Duração: 55 minutos
Assessoria de imprensa: Ricardo Schöpke.E-mail:
assessoria@ciabotovermelho.com.br


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