Crítica: Domando a Megera


 

domando a megera 1

Por Renato Mello.

O Grupo Nós do Morro está em cartaz no Espaço Sérgio Porto com seu mais novo espetáculo, “Domando a Megera”, numa temporada prevista para se encerrar no próximo dia 2 de agosto.

Como o título já sugere, trata-se de uma livre adaptação do clássico de William Shakespeare. Escrita originalmente no século XVI, “A Megera Domada”, é uma história repleta de personagens sem limites na arte da mentira e trapaça para atingirem seus objetivos, através de uma estrutura narrativa que se mantém politicamente incorreta durante todo o seu transcurso em que  muitos enxergam como um texto anti-machista do bardo inglês, na representação de um personagem feminino que não se submete à ordem pré-estabelecida da sociedade. Uma visão que particularmente não compartilho, começando pelo adjetivo “megera” para se referir a protagonista, expressão que na renascença em especial, tinha uma conotação de uma mulher de língua afiada e gênio forte, que ao longo da encenação sofre mudanças significativas em sua personalidade através da força bruta que lhe é imposta, independente se alguns enxergam alguma ironia nas intenções originais do autor.

A atual montagem, com adaptação e tradução assinadas por Luiz Paulo Corrêa e Castro e com direção de Fernando Mello Costa tem uma visão bastante particular e original da obra, apresentando uma proposta interessante que resultaram num bom espetáculo  repleto de humor e qualidades através da mescla de dois elencos,  um formado por atores e outro por clowns,  que interpretam as intenções de modos peculiares a cada arte(através da interpretação clássica e da palhaçaria), mesmo quando representam a mesma cena. Há boas criações cênicas, em especial quando unifica em cena as técnicas interpretativas e mesmo em situações que busca sutis soluções engenhosas com a metalinguagem ou na quebra da 4ª parede. Fernando Mello Costa realiza uma encenação com bastante dinamismo, sabendo explorar muito bem seu numeroso e distinto elenco de atores e palhaços, com uma distribuição correta e que evita um congestionamento desnecessário em cena(salvo quando é intencionado pelo texto), facilitado pelo generoso espaço proporcionado pelo palco do Espaço Sérgio Porto. Em sua concepção cênica utiliza as laterais do cenário para as trocas de vestuário, local também em que se situa os atores que não fazem parte da cena representada naquele momento, sentados temporariamente na condição de espectadores. Expediente semelhante ao utilizado este ano em espetáculos como “Madame Bovary” e “A Visita da Velha Senhora”.

Sua direção evita a distração inútil para focar na força do texto e nas atuações dos atores. Os papeis principais, Catarina e Petruchio, são interpretados por Melissa Arievo e Marcello Melo, que tem boas atuações dentro necessidade dos personagens, mas a grande qualidade reside no trabalho homogêneo do numeroso elenco. Sem exceção todos demonstram uma boa preparação técnica. Destaque para o complexo trabalho de preparação corporal e direção de movimentos de Maíra Maneschy.  Porém é necessário registrar alguma deficiência coletiva no canto, algo que necessita um trabalho mais apurado nos próximos projetos do Nós do Morro.

Contribuição importante para ambientação e atmosfera alegre do espetáculo reside no excelente trabalho de composição e arranjos elaborados por Gabriel Moura.

A montagem optou por um cenário neutro, assinado pelo próprio diretor, que busca a discrição e que disponibiliza um despojamento para a livre circulação do elenco. Os figurinos de Kika Medina possuem adequação e possuem um importante resultado para a concepção do espetáculo.

Domando a Megera” é uma montagem de uma obra clássica que não se deixa prender em dogmas e ideias pré-concebidas, gerando um espetáculo teatral criativo, de qualidade e bom nível técnico. Um trabalho que merece encontrar o respaldo de uma boa presença de público nessa sua temporada no Sérgio Porto.

Foto: Rany Carneiro

SERVIÇO
Domando a Megera
Local: Espaço Sérgio Porto – Rua Humaitá 163 (2535-3846).
Dias e horário: Qui. a dom., às 20h. Até 2/8.
Preço: R$ 20.
Classificação: 14 anos.


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