Crítica: Dorotéia


 

dorotéia 1

Por Renato Mello.

Fotos: Carol Beiriz.

Dorotéia” é o coroamento final do que foi denominado ciclo das Peças Míticas de Nelson Rodrigues(juntamente com “Álbum de Família”, “Anjo Negro” e “Senhora dos Afogados”). Trata-se de uma dramaturgia que traz na sua essência uma camada de extrema densidade que acaba por se prestar para um amplo arco cênico de possibilidades, ao mesmo tempo que apresenta labirintos que convidam à perdição. A montagem dirigida por Jorge Farjalla que acaba de prorrogar sua temporada até final de abril no Espaço Tom Jobim, Jardim Botânico, talvez tenha sido o mais belo atracar dessa nau rumo a um bom porto de chegada para um texto que já se prestou a grandes equívocos ao longo de 66 anos de existência.

Sua primeira montagem ocorreu em 1950 no Teatro Phoenix, Rio de Janeiro, com um elenco composto por Eleonor Bruno no papel título, Luiza Barreto Leite e Dulce Rodrigues. A direção de Ziembinski enxergou na proposta uma tragédia que segundo Ruy Castro em “O Anjo Pornográfico”, “faria Aristóteles feliz de orelha a orelha”, visão que contrariava o próprio autor, que a tinha como uma farsa, tanto que vinha acompanhada do subtítulo “Farsa Irresponsável em Três Atos”. O fato concreto é que trazia no seu enredo elementos que causaram enorme estranhamento àquela plateia, que na verdade antecipava alguns movimentos de vanguarda que viriam anos depois, como o Teatro do Absurdo de Ionesco e Beckett, expressos em referências como o noivo da personagem Das dores representado por um par de botas, o jarro como um elemento desestabilizador dos desejos sexuais de Dorotéia e a presença da personagem que morreu ao nascer mas não tem consciência do fato simplesmente porque não foi comunicada. Nelson Rodrigues não ficou satisfeito com o resultado final dessa montagem e em 1958 foi-lhe proposto um espetáculo mais afeito com sua visão pessoal, encenado no Cultura Artística de São Paulo com direção de Leo Júsi, mas com o personagem título entregue a uma atriz que não se preocupava muito com conceituações, intenções autorais e coisas do gênero: Dercy Gonçalves.

Poucos conseguiram navegar nesses anos com segurança pela turbulência de “Dorotéia”, como podemos apreender de pesquisas realizadas. Sábato Magaldi, por exemplo, registra em 1965 uma montagem farsesca de Heleny Guariba para a Escola de artes Dramáticas de São Paulo sem um maior entusiasmo ou mesmo a montagem em 1985 de Walmor Borges afirmando que “o resultado objetivo é muito ruim

Sem dúvida não é das peças com maior apelo de Nelson Rodrigues. Embora seu conhecido humor esteja de algum modo inserido dentro das entranhas narrativas, é possível traçarmos em sua organicidade uma base de sustentação na qual se inserirá o estreio dramatúrgico que seguirá pelos trabalhos seguintes do dramaturgo. Mesmo que possua uma profundidade abissal na sua construção, falta-lhe uma maior fluidez encontrada em outros trabalhos seus, acarretando um problema de ritmo em decorrência da grandiloquência exagerada dos diálogos.

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Somos tomados já no limite entre a entrada e o interior da sala pelo contraste na ambientação, adensando-nos para uma atmosfera espessa e uma luz que nos obriga a ir acostumando gradativamente à visão do espaço físico pelo qual avançamos por uma névoa, fazendo-nos absorver a revelação da proporcionalidade, divisões e caminhos que teremos que percorrer, como se estivéssemos transpondo por uma espessa floresta até encontrarmos nosso lugar definitivo naquele ambiente, ultrapassando 4 imensas árvores cenográficas que brotam do sacro solo teatral rumo à elevação plena, de onde despejam luzes em meia penumbra que revelam em sua centralidade um plano elevado com 4 almas compungidas em suas novenas. Ainda em busca de nossos assentos, as orações abarcam das profundezas daquelas personagens durante longos minutos, até que abruptamente somos surpreendidos por estrondosas batidas na porta, que numa sacolejada nos arrebata como um pedido de salvação de quem lá de fora vem.

É Dorotéia que lá está! Ela jura que como todas as mulheres daquela família também sentiu náuseas. Mas é confrontada. Duas carregam tal nome naquela família de mulheres feias, sem ancas, que nunca viram um homem mesmo em suas noites de núpcias, momento supremo de suas vidas em que inevitavelmente todas foram tomadas pela náusea. Uma náusea longe de ser uma maldição, mas a bendição redentora. Naquela família as mulheres “não dormem para sonhar”. O sonho traz consigo o “inconsciente”, elemento subversivo e libertador, capaz de evadir-se dos mais rígidos aprisionamentos.

Qual Dorotéia? Do grego, “dádiva divina” ou “presente de Deus”(dóron = presente  + theus = Deus). A virtuosa ou a perdida? A que se afogou ao ter consciência do corpo nu por baixo das vestes ou a linda, radiosa, desejada por todos os homens e que se entregou aos afagos mesmo com a proximidade da morte do filho? Dorotéia, a arrependida! A que busca nas 3 tias o espelho do virtuosismo, a ambição de se tornar feia ao extremo para apagar o tempo que deixava possuir-se, submetendo-se à destruição pelas chagas.

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Jorge Farjalla evoca a Tragédia Mítica para fundamentar sua excelente encenação. Ameniza alguns problemas estruturais do texto com soluções extremamente satisfatórias para a fluidez narrativa do espetáculo. A centralização da encenação absorve a atmosfera da sala ecoando uma vibração que propaga a força dramática por todos os cantos, deixando a atmosfera carregada e quase irrespirável. Um dos grandes êxitos de sua proposta reside no condensamento homogêneo dos distintos departamentos de um espetáculo teatral para a criação de uma estética onírica e que se casa inteiramente com a construção dramática. A ocupação cênica é bem estruturada por uma movimentação consciente mesmo quando a trama central se encontra aprisionada fisicamente.

O elenco composto por Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Dechamps, Dida Camero, Anna Machado e Jaqueline Farias tem irrepreensível atuação. Rosamaria Murtinho é o grande destaque, interpretando D Flavia de forma brilhante. É absoluta na utilização da sua expressividade e na intenção de cada inflexão vocal, dotando sua personagem de uma carga dramática de alta intensidade e com uma grande presença física pelo espaço cênico. Rosamaria Murtinho encontrou em Leticia Spiller(Dorotéia) uma generosa acolhida para o estabelecimento de um eficiente jogo cênico. Spiller realiza um bom trabalho corporal e encontra nos gestos e intenções uma boa composição para sua Dorotéia. Anna Machado tem uma atuação do mais alto nível técnico, com ótima movimentação, no rastejar ou no uso dos instrumentos corporais para um personagem que necessita de uma expressividade acentuada para extravasar toda a vastidão de sentimentos que lhe assola, acentuada na cena da noite de núpcias a qual aproveita-se no mais intenso deleite contrapondo à fracassada expectativa da náusea. Uma atuação que encontrou uma altura considerável atendendo plenamente  as necessidades superlativas que o texto lhe exige.  Alexia Dechamps e Jaqueline Farias realizam uma boa composição física e se destacam no momento em que se revelam e rumam para o inexorável fim a que se destina quem nutre extremos sentimentos. Atuação correta de Dida Carmero, num personagem que tem uma participação menor na narrativa, mas que a boa presença em cena da atriz contribui positivamente para a composição de todo um quadro desenhado pelo autor.

Fundamental destacar alguns técnicos para o grande êxito da direção de atores de Jorge Farjalla, como o perfeito trabalho de visagismo e maquiagem realizado por Anderson Calixto; a competentíssima preparação vocal de Patrícia Maia, ainda mais pelo formato da encenação e pela amplitude do teatro. Apesar de não constar na ficha técnica a presença de um diretor de movimentos, o que me supõe a crer que o encenador seja o responsável direto. Digna de todos os aplausos.

A utilização dos músicos(ou homens jarros) que surgem de dentro das árvores dispostas nos 4 cantos, em conjunção com a opaca iluminação e o trabalho de visagismo(novamente rendo destaque para Anderson Calixto, juntamente com a figurinista Lulu Areal) nos impede  visualizarmos suas expressividades, mesmo com enorme proximidade física de suas presenças junto ao público e inteiramente contextualizado na proposta estética e cênica.

A direção musical João Paulo Mendonça potencializa os movimentos dramáticos com boa execução dos “homens jarros” Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil.

Os figurinos de Lulu Areal contribuem bastante à composição dos personagens e à criação da atmosfera do espetáculo, num belo trabalho de criação, passando pelo envelhecimento dos tecidos.

O cenário de José Dias tem fundamental importância para o positivo resultado final da proposta. Sob o palco apenas uma cadeira, mas cercando todo o entorno da representação a presença de elementos que ressaltam a estética e compõem uma composição cênica em paralelo com o eixo principal. Além da enorme beleza de suas imensas árvores. Primoroso!

A iluminação de Patrícia Ferraz sem dúvida é  uma das melhores do ano, caracterizando uma ambientação nebulosa, trabalhando as sombras e que propositalmente escondem mais do que revelam ao nosso olhar.

A atual montagem de “Dorotéia” conseguiu suplantar os potenciais defeitos do texto para resultar num dos espetáculos mais impactantes desses primeiros meses anos. Impossível deixar o teatro com indiferença ou não se sentir de algum modo tocado pela contundência viva da encenação.


Palpites para este texto:

  1. Patricia Ferraz -

    Olá , agradeço a crítica .
    Gostaria de retifixar, que a o desenho e operação de luz são assinados somente por mim. Nossos queridos Farjalla e Dias, foram creditados errados no programa e divulgação.
    Abs gratos

    • Patricia, primeiramente te parabenizo pelo trabalho de iluminação. Maravilhoso! Agradeço a retificação e já fiz o acerto no texto. Realmente me baseei na informação do programa. Abraços

  2. patricia ferraz -

    Prezado Renato, agradeço sua gentileza e carinho.
    Fuco feliz que tenha gostado, seguimos fazendo arte.
    Seu olhar melhora o meu! Beijos.

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