Crítica: E Se eu Não Te Amar Amanhã?


 
Paula Kossatz

Paula Kossatz

Por Renato Mello

Um dos mais representativos nomes da dramaturgia teatral carioca, Julia Spadaccini, apresenta seu mais novo texto em temporada prevista até o dia 2 de julho na sala Marília Pêra do Teatro Leblon.

E Se eu Não Te Amar Amanhã?” marca a estreia da cineasta Sandra Werneck na direção teatral e segundo sua proposta descrita na sinopse oficial, conta a história de “Samantha(Luana Piovani), uma atriz de novelas, e de Gustavo(Leonardo Medeiros), um escritor sem inspiração, que acabaram de se separar por causa de uma aparente bobagem cotidiana. O amigo Zé Roberto(Marcelo Laham), com suas visitas, mantém o casal próximo. Samantha e Gustavo parecem ter aceito o fato de que o casamento deles ruiu, não tem mais volta, mas Zé Roberto não. Ele não consegue conceber que aquele casal que ele tanto amou não estará mais junto. Através do leva e trás de Zé, de sua tentativa frustrada de unir novamente os dois, e de Suelen, garota de programa transexual contratada por Gustavo, a peça mergulha num quebra-cabeças engenhoso em que todos os personagens aos poucos vão descortinando seus medos, desejos e a trama, que antes parecia uma comédia romântica inofensiva, se revela como uma profunda reflexão das relações amorosas contemporâneas”.

O texto de Julia Spadaccini apresenta uma fluência narrativa e rítmica consistente, revestindo as ações com diálogos que proporcionam uma leveza à ambientação e explora na medida acertada as zonas do humor. Porém algumas situações demonstram-se deslocadas e talvez um pouco forçadas, assim como não se aprofunda demasiado na essência das motivações dos personagens e na fugacidade das relações, deixando-as numa camada mais superficial, previsível e seguindo uma rota linear ao longo de todo o arco dramatúrgico. Apesar das ressalvas ainda assim mantém a capacidade de expandir uma atmosfera empática.

O texto de Spadacccini encontra um canal de diálogo com alguns trabalhos cinematográficos de Werneck, que por isso mesmo parece ter deixado a  diretora bastante confortável para desvelar uma concepção que consegue equilibrar suas soluções cênicas com questões inerentes a organicidade da dramaturgia. Sandra Werneck intercala planos distintos numa mesma marcação e explora  os ambientes cenográficos em diferentes situações. Algumas opções utilizadas se mal dosadas correriam o risco de quebrar a dinâmica narrativa na tentativa da diretora em construir uma ambientação de set de filmagem para o palco teatral, como o desnudar das áreas internas do teatro, conceitos de luz, além da exposição e interação da contrarregragem, mas a diretora encontrou um resultado mediano no esquadrinhar desse percurso.

O elenco formado por Luana Piovani, Leonardo Medeiros e Marcelo Laham alcança uma boa sintonia com o texto, atua de maneira harmônica e reparte eficientemente as situações dramatúrgicas que envolvem cada um dos personagens. Luana Piovani divide-se em 2 papeis dicotômicos, a atriz de novela Samantha e a garota de programa transexual Suelen, encontrando canais de expressão razoáveis para ambos, seja no bom trabalho corporal ou na expressividade. Leonardo Medeiros interpreta Gustavo, um escritor que tem que lidar com a falta de inspiração, o prazo de expiração de suas relações sentimentais  e mesmo com a possível percepção de sua irrelevância artística, que o ator realiza com bastante qualidade, principalmente pelo ritmo que impõe,  valorizando os ótimos diálogos de Julia Spadaccini. Marcelo Laham vive o amigo comum do casal, tendo a atuação mais destacada, em parte por graça da maneira como Spadaccini cria seus contornos, que o ator aproveita cada milimetro que lhe é desenhado para compor um personagem com camadas a serem desvendadas e ao mesmo tempo é o responsável pelos mais divertidos momentos do espetáculo.

A cenografia se adequa com a proposta cênica da diretora ao deixar ao mesmo tempo os espaços vazados e também a composição composta para 2 universos dissolutos, acrescentando consistência à narrativa. Os figurinos de Kika Lopes adequam-se ao processo de composição dos personagens, seja em suas personalidades ou estado de espírito mesmo que em diferentes matizes, com importante contribuição para essa construção do visagismo de Diego Nardes. A iluminação de Tomás Ribas acentua à ambientação os momentos cênicos expostos nos textos e na direção.

 “E Se eu Não Te Amar Amanhã?” não alça voos mais ambiciosos, seu resultado é positivo no abordar de questões fundamentais de nosso viver, como amor, separação e amizade.

Foto: Paula Kossatz

Foto: Paula Kossatz

FICHA TÉCNICA
Autora: Julia Spadaccini
Elenco: Luana Piovani, Leonardo Medeiros e Marcelo Laham
Direção: Sandra Werneck
Codireção: Michel Blois
Cenografia: Aurora dos Campos
Luz: Tomás Ribas
Figurino: Kika Lopes
Visagismo: Diego Nardes
Trilha Sonora Original: João Nabuco
Direção de Produção: Nevaxca Produções – Tárik Puggina
Produção Executiva: Luiz Fernando Orofino
Idealização: Sandra Werneck
Realização: Cineluz

SERVIÇO
E SE EU NÃO TE AMAR AMANHÃ?
Gênero: comédia
Local: Teatro do Leblon
Endereço: Rua Conde de Bernadote, 26 – Leblon – Rio de Janeiro
tel. (21) 2529-7700
Estreia para convidados: 10 de maio (quarta-feira), 21h
Temporada: de 11 de maio a 2 de julho de 2017
Horários: quinta a sábado, 21h | domingo, 19h
Preços: quinta: R$ 60,00 | sexta: R$ 70,00 | sábado e domingo: R$ 80,00
Horário de funcionamento da Bilheteria: a partir das 15h, nos dias de espetáculo
Lotação: 400 lugares
Duração: 75 min
Classificação etária: 14 anos


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