Crítica: Edward Bond Para Tempos Conturbados


 

 

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Por Renato Mello

A provocação é um dos principais fundamentos do teatro. A questão é que muito além de uma letargia que por vezes domina essa arte, quando a provocação se tenta fazer presente o seu resultado tem sido na maioria das vezes incipiente, vazio e gratuito. Cada vez mais difícil encontrarmos numa temporada teatral um punhado de espetáculos que realmente nos suscite alguns espasmos reflexivos.

Justamente provocar, remexer nossa sensibilidade, qualidades presentes em “Edward Bond Para Tempos Conturbados”, dirigido por Daniel Belmonte, em temporada no Teatro II do Sesc Tijuca até 3 de setembro.

Mesclando diferentes manifestações artísticas como o teatro, pintura, dança e vídeo, sob a égide do controverso dramaturgo inglês Edward Bond, notório não só por sua obra, mas pela violência mostrada em suas peças, o radicalismo de suas opiniões sobre o teatro, as teorias narrativas e a sociedade moderna; o texto de André Pellegrino compõe uma hábil narrativa, fragmentando e mesclando, situações distintas que acabam por formar um enorme “mata-borrão”, substantivo que certa vez Mario Quintana definiu como algo que “absorve tudo e no fim da vida acaba confundindo as coisas por que passou”. Uma reflexão sobre os processos de desumanização em nossa sociedade, dialogando francamente e deixando de lado as hipocrisias, mesmo que com algum cinismo, busca uma compreensão sobre nossa própria função dentro de um contexto social.

Essa provocação não fecha questões, ao contrário. Sua própria sinopse oficial, mais que afirmações, deixa as lacunas em aberto: “Até que ponto temos autonomia para mudar as coisas? Até que ponto nossas ideias são realmente nossas? E se os donos do jogo pudessem manipular até mesmo as nossas emoções? E se em alguns momentos acreditamos estar expressando os nossos sentimentos mais fortes, profundos e pessoais, quando na verdade estamos sendo nada mais que um boneco?”. 

Edward Bond Para Tempos Conturbados” é o 4º espetáculo dirigido por Daniel Belmonte, que mais uma vez permite-se experimentar, testar caminhos diversos daqueles antes trilhados. Dentre seus trabalhos, em algum aspecto se assemelha um pouco mais pelo espírito anárquico de sua peça de estreia, “Peça Ruim”, mas ao mesmo tempo mostra um diretor maduro em suas opções, seguro, e acima de tudo, disposto a correr esse risco, sabedor que nem todos os espectadores farão eco de suas proposições, algo que parece lhe semear um íntimo prazer. E isso faz bem ao teatro!

Sua concepção é ousada, afrontosa, sem jamais perder o sentido de humor. Cria bons quadros para expor a contundência do texto de Pellegrino, explorando diversas possibilidades em um mesmo substrato, permeando o tempo cênico com momentos que nos instiga e ao mesmo tempo deixa livre o espaço para a reflexão.

O elenco formado por Susanna Kruger, Fernando Melvin, João Sant’AnnaKallanda Caetana, Leonardo Bianchi e Lívia Feltre absorve inteiramente o teor proposto por Pellegrino e Belmonte, expondo-se em cena despudoradamente, inteiros e complementares. Importante destacar nesse processo o trabalho desenvolvido por Kallanda Caetana na direção de movimentos. Enquanto  Susanna Kruger abre-nos esse espaço mais íntimo de nossas próximas consciências, ditando um ritmo que traz-nos uma congruência para tentarmos organizarmos a profusão de exposições, como num contraponto para a dinâmica desenvolvida pelos demais membros do elenco.

Cabe destacar o videografismo de Leonardo Bianchi, que dialoga em momentos preponderantes com a narrativa. A cenografia Julia Marina e Ana Beatriz Barbiere destaca uma ambientação um tanto anárquica, de acordo com toda a proposição do diretor. Anouk Van Der Zee assina os figurinos, enquanto Tiago e Fernanda Mantovani são responsáveis pelo desenho de luz.

Não é um espetáculo tão palatável assim para almas, digamos, mais sensíveis. Derrama em cena uma energia, que nem sempre busca se explicar, mas que tem plena capacidade de revolver quem tiver um mínimo de inquietude.

 

FICHA TÉCNICA20292666_156211754950754_1507906160286826510_n
Elenco:
 Susanna Kruger, Fernando Melvin, João Sant’Anna, Kallanda Caetana, Leonardo Bianchi e Lívia Feltre
Direção: Daniel Belmonte
Dramaturgia: André Pellegrino
Direção de Arte: Colmar Diniz
Cenografia: Julia Marina e Ana Beatriz Barbiere
Figurino: Anouk Van Der Zee
Iluminação: Irmãos Mantovani
Assistência de Figurino: Marianna Pastori
Direção de Movimento: Kallanda Caetana
Videografismo: Leonardo Bianchi e Kaio Caiazzo
Fotos: Kaio Caiazzo
Assistência de direção: Isis Pessino
Visagismo: Marianna Pastori
Trilha Sonora: Daniel Belmonte, Antonio Nunes e Pedro Nêgo
Músicas Originais: Antonio Nunes e Pedro Nêgo
Sound Designer: Antonio Nunes
Ilustração: Lívia Feltre
Programação Visual: Victoria Scholte
Operação de Som e Luz: Pedro Cadore
Contrarregras: Alice Botelho e Lipe Dal-Cól
Assessoria de Imprensa: Leila Meirelles
Produção: Luana Manuel e Isadora Krummenauer
Realização: Belmonte Produções

 SERVIÇO
Espetáculo
: Edward Bond Para Tempos Conturbados
Teatro II – Sesc Tijuca
: Rua Barão de Mesquita, 539 /Telefone: (21) 3238-2100
Temporada
: 11 de agosto a 03 setembro 2017 – sextas, sábados e domingos às 19h  
Ingressos
: R$6,00 ( comerciário com carteirinha), R$12,00 meia (idosos e menores de 21 anos) e R$25,00 (inteira)
Duração
: 60min
Não recomendado para menores de
: 16 anos
Gênero
: Comédia Dramática


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