Crítica: ELA


 
Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

Por Renato Mello

Um espetáculo que aborda temática avassaladora e dolorida, mas que ainda consegue extrair tanta beleza na sua representação. Eis o que “ELA” proporciona em sua temporada no Teatro III do CCBB até o dia 28 de maio, com direção assinada por Paulo Verlings.

A dramaturgia de Marcia Zanelatto se utiliza de um relacionamento amoroso para traçar uma investigação sobre os efeitos devastadores da Esclerose Lateral Amiotrófica(ELA), expandido cenicamente os efeitos práticos de uma doença que causa uma degeneração progressiva em que se perde a capacidade de transmitir os impulsos nervosos, causando atrofia, perda muscular, dificuldades progressivas de executar movimentos e perda da força muscular, ainda de difícil diagnóstico e considerada rara. Sua sinopse oficial aponta para a história de Clara(Elisabeth Monteiro) e Isabel(Carolina Pismel), “lindas, jovens, talentosas e vivem um grande amor. Mas o sentido da vida entra em xeque diante do diagnóstico de ELA. Cada vez mais ausente fisicamente o tempo de Clara se expande em sua vida interior, comparecendo em cena através de memórias e delírios que nos fazem pensar no que seja a mente humana. Enquanto isso, com apoio de Paula(Patrícia Elizardo), médica e amiga de infância, Isabel dá conta da realidade, galgando íngremes fronteiras com poder e coragem que jamais soube que poderia ter. Embora a doença as tenha enfraquecido, ELA fortaleceu os laços que as une”.

Na base de todo esse processo reside um belíssimo texto escrito por Marcia Zanelatto. A narrativa é forte e o texto bem contextualizado, abordando o sofrimento através de uma personagem que tem justamente na expressão corporal sua mais forte concepção de vida e possibilitando um fundamental arcabouço para a concepção cênica de Paulo Verlings. Impressiona como em meio a uma dramatização aprofundada, a forma como a autora apura a intenção e o sentido de cada palavra, de tal maneira que por vezes eu fechava os olhos para uma melhor percepção do pulsar que havia na forma como as atrizes entonavam suas falas, libertando poesia e emoção pela ambientação. Na minha opinião, o melhor roteiro original desse primeiro semestre na temporada teatral carioca.

Um dos aspectos mais destacáveis de “ELA” é como o diretor Paulo Verlings constrói uma simbiose entre os diversos elementos teatrais, possibilitando o permear de um segmento por dentro do outro, erigindo dessa forma uma obra una e indivisível, em que cenografia fica indissociável da iluminação, que por sua vez preenche do arco narrativo na utilização da sonoplastia, música ou mesmo no delineamento dos personagens. Essa ausência de compartimento é um grande mérito por parte de um diretor que traçou uma linha coletiva, que pode até parecer óbvia em se tratando de teatro, mas que na prática nem sempre se alcança, encaminhando para um resultado final muito bem-sucedido. Se guardei reticências ao trabalho anterior de Verlings como encenador, “Alguém Acaba de Morrer Lá Fora”, elas dissipam-se inteiramente em “ELA”.

Foto:Elisa Mendes

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O alcance da proposta do espetáculo é potencializado pelas excelentes representações de Elisabeth Monteiro, Carolina Pismel e Patrícia Elizardo, que atuam como num desenho coreográfico muito bem demarcado, erguendo um tripé interpretativo que equilibra harmonicamente todas as ações, possibilitando o desvendar sentimental da intensidade dramatúrgica pelo ritmo, pausas e mesmo respiração impostas na direção de atores de Paulo Verlings e na valorosa contribuição da preparadora vocal Verônica Machado. Cabe destacar igualmente os relevantes préstimos da preparação corporal de Lavinia Bizzotto. Elisabeth Monteiro interioriza num equilíbrio entre  peso e sutileza a devastação pela ausência de sentido que lhe tomam a alma, sem que em nenhum momento resvale minimamente pelas facilidades da pieguice, compondo habilmente seu personagem de uma máscara de implacabilidade que desmorona diante da sensibilidade aflorada. Carolina Pismel eleva-se numa atuação bem integrada com Monteiro, demonstrando domínio de cena, modulando com precisão o alcance emocional de quem é testemunha ativa do definhamento de quem se ama. A cena que pragueja contra os infortúnios é de extrema força e, talvez, a mais bela construção cênica do espetáculo. Encantadora atuação de Pismel!  Patrícia Elizardo interpreta com qualidade um personagem que se equilibra entre a amiga e a médica, a emoção e a razão, trilhando com coerência a dualidade e abismo que a dupla função exige de um só ser.

Como já mencionado, é difícil desassociar alguns elementos, ficando muito latente na iluminação de Fernanda e Tiago Mantovani com a cenografia Mina Quintal. São 3 painéis construídos a partir da junção de tubos PVC de diversas espessuras e irrigados por lâmpadas, que no acréscimo dos efeitos sonoplásticos, criam uma representação metafórica da mente humana e do sistema nervoso em processo de decrepitude. Iluminação e cenografia funcionam também como um propulsor da descarga emocional da narrativa, inclusive pela funcionalidade dos painéis que na sua movimentação rumo ao público amplia a percepção da profundidade dos sentimentos dos personagens. Admirável a comunicabilidade com que ambos elementos interagem entre si.

Essas conjunções fazem de “ELA” um espetáculo admirável em todos os seus aspectos, mas entre tantas qualidades, permito-me sublinhar com mais ênfase a soberba dramaturgia de Marcia Zanelatto.

Um espetáculo para não se perder!

Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

Ficha Técnica
Texto: Marcia Zanelatto
Direção: Paulo Verlings
Elenco: Carolina Pismel, Elisabeth Monteiro e Patrícia Elizardo
Participação em OFF: Ana Beatriz Nogueira como “Dra. Ana”
Cenário: Mina Quental
Direção Musical: Marcello H
Direção de Movimento: Lavinia Bizzotto
Figurino: Flavio Souza
Iluminação: Fernanda e Tiago Mantovani
Preparação Vocal: Verônica Machado
Visagismo: Vini Kilesse
Assistente de Direção: Jorge Florêncio
Designer Gráfico: Daniel Barboza
Fotos e Vídeo de divulgação: Elisa Mendes
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Produção: Tiago Mantovani e Jéssica Santiago
Realização: Nota Jazz Produções Artísticas e 9 Meses Produções Artísticas
Apoio: Centro Cultural Banco do Brasil

Serviço
“ELA”
Texto: Marcia Zanelatto
Direção: Paulo Verlings
Elenco: Carolina Pismel, Elisabeth Monteiro e Patrícia Elizardo
Centro Cultural Banco do Brasil  (Teatro III)
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro, tel. 21 3808-2020
Estreia dia 4 de maio, quinta-feira, às 19:30h
Temporada: Quarta a domingo, às 19:30h. Até 28 de maio.
Venda na bilheteria de quarta a segunda, das 9h às 21h ou pelo site www.ingressorapido.com.br
Ingresso: R$20 (inteira) e R$10 (meia)
Classificação 14 anos
Duração: 60 minutos
Drama

Atendimento à Imprensa
Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa


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