Crítica: Estamira – Beira do Mundo


 
5030_Foto_ Luis Alberto Gonçalves_crédito obrigatório

Foto Luis Alberto Gonçalves

Por Renato Mello.

Cinco anos após ter recebido calorosas críticas e alguns dos mais expressivos prêmios do teatro carioca, Dani Barros retorna aos palcos para encenar “Estamira – Beira do Mundo”, dirigido por Beatriz Sayad, em temporada prevista até o dia 29 de maio no Teatro Poeira.

Estamira – Beira do Mundo” é uma adaptação teatral do documentário de Marcos Prado sobre Estamira Gomes de Souza, catadora de lixo no aterro sanitário de Jardim Gramacho que despertou a atenção do cineasta com um discurso aparentemente confuso, mas com momentos de grande lucidez, que a câmera de Prado revelou ao mundo sua enorme singularidade. O documentário ganhou em sua trajetória mais de 30 prêmios nacionais e internacionais.

Inspirada na obra de Marcos Prado e a partir de contato pessoal com a própria Estamira, Dani Barros concebeu em parceria com Beatriz Sayad um monólogo de construção cênica simples, porém de grande potência dramatúrgica. Não há qualquer tipo de dispersão, mas uma busca pela essência da complexidade do personagem, expandido um arrebatamento através de uma dramaturgia que se harmoniza inteiramente com a intensidade da atuação de Dani Barros.

A dramaturgia possui uma fluência narrativa que se sustenta com inteira regularidade ao longo de seus 75 minutos, buscando dentro do caos uma equalização que revelam a riqueza perceptiva de Estamira através de seu cotidiano, sua história de vida, revoltas contra seu “Deus estuprador” e os “médicos copiadores de receitas”. Beatriz Sayad conduz sua atriz pelo espaço físico com enorme habilidade e o ritmo adequado para a absorção do jorro do pensamento interior da personagem.

Foto Adriano Horta

Foto Adriano Horta

Sentada e cercada por sacos plásticos ao longo de todo o espaço cênico, Dani Barros observa serenamente a movimentação do público em seu entorno como buscando na fronte de cada um o que os move ali. São intermináveis minutos de silêncio diante da atriz até que soa a 3ª campainha. A atriz inicia um processo de maquiagem e no baixar da mão percebe-se um olhar extremo, a alteração do ritmo respiratório, a modulação da voz, encorpando-se com uma movimentação destoante do que lhe parecia inerente. A atuação que Dani Barros proporciona a partir de então é dotada de enorme veracidade e uma contundência absoluta. Existe ali uma enorme capacidade técnica em que nos pequenos detalhes é possível notar que a atriz está com o pleno domínio de suas intenções e de toda a ambientação que a cerca, atenta a tudo que lhe é exterior, com o qual lida com extrema habilidade e cria um canal de interação que aproxima sua plateia com o mundo de Estamira . Trata-se de uma das mais brilhantes atuações que pude presenciar na atual temporada teatral. A preparação vocal de Luciana Oliveira contribui decisivamente para o extravasamento vocal encontrado por Dani Barros, evitando um falsete fora do tom que comprometeria seu processo de composição.

O cenário de Aurora dos Campos é despojado, mas absolutamente complementar às necessidades dramatúrgicas. São mais de mil sacos plásticos espalhados pelo palco dando a sensação do enorme lixão que gravita no universo de Estamira, se avolumando a partir do uso de ventiladores que criam as enormes montanhas de lixo por onde evolui a personagem. O figurino de Juliana Nicolay tem total adequação para o processo de composição, imprimindo elementos da superfície exposta da personagem e inteiramente contextualizados para o seu universo. A iluminação de Tomás Ribas acentua com exatidão as necessidades cênicas.

Estamira – Beira do Mundo”, um espetáculo urgente, necessário e de inestimável valor artístico.

Foto Luis Alberto Gonçalves

Foto Luis Alberto Gonçalves

FICHA TÉCNICA
Direção e dramaturgia: Beatriz Sayad
Atuação, dramaturgia e idealização: Dani Barros
Trechos de: Ana Cristina Cesar, Antonin Artaud, Estamira Gomes de Souza, Manoel de Barros, Michel Foucault e Nuno Ramos

Luz: Tomás Ribas
Cenário: Aurora dos Campos | Colaboração: Beatriz Sayad e Dani Barros
Figurino: Juliana Nicolay
Direção musical: Fabiano Krieger e Lucas Marcier
Design de som:  Andrea Zeni
Assistente de direção: Marina Provenzzano
Preparação de ator: Georgette Fadel
Preparação vocal: Luciana Oliveira (fonoaudióloga)
Voz do fado: Soraya Ravenle
Preparador vocal (Soraya): Felipe Abreu
Técnico, operador de luz e som, contrarregra: Sandro Lima
Técnico e operador de luz: Walece Furtado
Microfonista: Allan Moniz
Boneca: Getúlio Damado
Projeto gráfico: Cubículo
Edição de vídeo: Antonio Baines
Assistente de cenografia: Camila Cristina
Costureira: Cleide Moreira
Colaborou para esta criação: Ana Achcar
Direção de produção:  Verônica Prates
Produção: Quintal Produções
Gerente de projetos quintal: Maitê Medeiros
Assistente de Produção Quintal: Thiago Miyamoto
Coordenação geral do projeto: Dani Barros
Realização: Momoenddas Produções Artística

SERVIÇO:
 ESTAMIRA – BEIRA DO MUNDO
TEATRO POEIRA
R. São João Batista, 104 – Botafogo
Informações: (21) 2537-8053
Capacidade: 162 lugares
Duração: 1h15
TEMPORADA DE 31 DE MARÇO A 29 DE MAIO
QUINTA A SÁBADO, ÀS 21H | DOMINGOS, ÀS 19H
QUINTAS E SEXTAS: R$ 50 (inteira) | R$ 25 (meia)
SÁBADO E DOMINGOS: R$ 70 (inteira) | R$35 (meia)
Classificação indicativa: 12 anos

 Assessoria de imprensa
Luciana Medeiros
Paula Catunda


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