Crítica: Eu Não Dava Praquilo


 

 

 EU NÃO DAVA PRAQUILO 2 - DNG

Por Renato Mello.

Depois de uma temporada de muito sucesso nos palcos paulistanos, que rendeu inclusive o Prêmio APCA 2013 como melhor ator para Cássio Scapin, além de uma passagem por Belo Horizonte, finalmente chega ao Rio o espetáculo “Eu Não Dava Praquilo” em cartaz no teatro I do CCBB.

Eu Não Dava Praquilo” é um monólogo que durante 60 minutos transpassa fragmentos da vida pessoal e profissional, mas acima de tudo, a personalidade, o pensamento e a figura tão marcante de Myriam Muniz. Um ícone do teatro paulistano, daquelas atrizes que era absolutamente impossível não ficar hipnotizado diante de uma atuação sua, independente da dimensão e carga do papel que representava, conforme pode ser conferido pelas gerações mais novas e menos afeitas à história teatral brasileira em seus raros e menos longínquos trabalhos no cinema e na televisão.

Por trás de uma homenagem a Myriam está acima de tudo um espetáculo que é uma verdadeira devoção ao ofício da interpretação, retratando a paixão e a entrega completa aos palcos por uma profissão que talvez tenha salvado Myriam da irrelevância que o mundo ordinário nos oferece do lado de fora do teatro. Uma celebração maior ao teatro e sua história.

EU NÃO DAVA PRAQUILO 2 - DNG

Levar essa personalidade para cima do palco, num monólogo e ainda por cima interpretado por um ator masculino parece a princípio um despautério e uma tentativa de suicídio cênico. Myriam é aquele tipo de “personagem” que se torna tentador cair na armadilha do caricatural. Mas o que pudemos presenciar foi uma atuação e criação magistrais de Cássio Scapin, sob a direção de Elias Andreato. Em cena, cortinas pretas, assim como o figurino do ator. Como objetos cênicos apenas 1 cadeira, um xale que cobre eventualmente os ombros de Cássio e um cigarro. É suficiente para termos diante de nós Myriam Muniz. Não há uma composição, peruca, maquiagem especial, adornos. Utiliza-se tão somente de sua expressão corporal, o olhar e a modulação vocal para realizar uma brilhante atuação e prender a atenção do espectador por cada fala, cada gesto ou intenção.

Para que Cássio tenha encontrado com tanta perfeição Myriam Muniz, foi preciso a construção de uma sólida dramaturgia e ter a sensibilidade de colocar na boca de Cássio palavras que certamente estariam na de Myriam, ou pelo menos no seu universo e inconsciente particular. O roteiro assinado pelo próprio ator, em conjunto com o poeta Cássio Junqueira é extremamente sólido e bem construído. Possui a perfeita noção do caminho que precisa encontrar e é feliz no seu resultado final.

Elias Andreato adotou uma postura sóbria no seu trabalho de direção. O que para o espetáculo proposto foi o caminho correto. Lógico que não somos ingênuos em pensar com isso que seu trabalho fica diminuído diante de tal opção, ao contrário. Elias demonstra conhecer a perfeita noção da linha tênue de até onde deve colocar sua mão e até que ponto deve deixar Cássio levantar voo. Com a sensibilidade de Cássio e a sabedoria de Elias, chegou-se ao resultado correto para realizar um grande acerto de um projeto que poderia parecer absurdo antes de que fosse materializado. Mas é a prova que em teatro, existindo talento e verdade, tudo é possível e crível.

É preciso destacar o ótimo trabalho de iluminação, assinando por Wagner Freire, com papel relevante para a criação do universo proposto em cena.

Eu Não Dava Praquilo” é um belo espetáculo que faz dessa rentrée da temporada teatral carioca de 2015 algo bastante promissora.

EU NÃO DAVA PRAQUILO 2 - DNG

Fotos: João Calda.

FICHA TÉCNICA
Roteiro: Cássio Junqueira e Cassio Scapin
Elenco: Cassio Scapin
Direção: Elias Andreato
Figurino e Cenário: Fabio Namatame
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora: Jonatan Harold
Assistente de Direção: André Acioli
Produção Executiva: Angela Dória
Fotos: João Caldas
Programação Visual: Denise Bacellar
Produção Local: Rubim Produções
Direção de Produção: Fernanda Signorini
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

SERVIÇO
Eu Não Dava Praquilo
Estreia para convidados: 07 de janeiro
Temporada: de 08 janeiro a 1º de março
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Horários: de quarta a domingo, às 19h
Ingressos: R$ 10,00 (inteira)
Capacidade: 172 lugares
Duração: 60 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: comédia dramática
Bilheteria: de quarta a domingo, a partir das 10h
Informações: 3808-2020


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