Crítica: Euforia


 
Foto: Rodrigo Turazzi

Foto: Rodrigo Turazzi

Por Renato Mello

Assisti “Euforia” apenas no último fim de semana de sua estada no Espaço Cultural Sérgio Porto, mas suas qualidades lhe credenciaram a nova temporada, agora no Teatro Café Pequeno até o dia 28 de outubro.  Dessa forma esta análise adquire uma função crítica mais ampla que um mero registro do trabalho realizado.

Inicialmente alguns aspectos já lhe credenciavam à boas expectativas, tratando-se de um texto de Julia Spadaccini, direção de Victor García Peralta e atuação de Michel Blois. A história se compõe de 2 solos que abordam o desejo e a sexualidade do ponto de vista de personagens que padecem da invisibilidade social, um velho que vive num asilo e uma mulher paraplégica.

Como aponta na própria sinopse oficial:

Um senhor de 87 anos homossexual

…Foi constatado que os indivíduos, quando vão para um asilo, escondem suas sexualidades. Homossexuais, assumidos socialmente quando jovens, voltam a vestir a máscara social para não passar “constrangimentos”.

Esse personagem vai se desenvolver justamente nesse ambiente e com essa inquietação: viver num asilo e ter que se distanciar novamente de sua própria identidade. Porém, dentro de si, o que ainda persiste é a euforia do desejo que se mantem vivo, jovem e pleno. Um universo pulsante ainda está ali, querendo, sentindo e sendo o que sempre foi…

Uma mulher paraplégica

 …O deficiente é visto como uma vítima eterna, um “coitado”, um ser completamente assexuado.

Através do olhar dessa jovem personagem que ficou paraplégica em função de um acidente, vamos ser levados numa viagem onde a sexualidade é tão ou mais explorada pelo corpo e suas incríveis terminações nervosas…

Foto: Rodrigo Turazzi

Foto: Rodrigo Turazzi

Através de caminhos paralelos, com problemáticas e especificidades próprias, Julia Spadaccini cria uma dramaturgia coesa, atingindo uma mesma tonalidade, embora independentes. Seu texto expande harmonicamente ambas histórias, permitindo permear uma sobre a outra de modo a ampliar a capacidade de vislumbrar um quadro mais amplo. Mais além dessa complexa construção, habilmente desvenda aspectos profundos dos seus personagens, aflorando não somente seus sentimentos, mas igualmente uma percepção sensorial pela forma como explora  seus limites e desejos.

O monólogo é uma forma narrativa que guarda caprichos muito específicos, em que a simbiose da relação ator-diretor costuma ganha matizes intensas, e no caso específico de “Euforia”, a interação entre Victor García Peralta e Michel Blois se mostra plena, sem a necessidade de gestos ou intenções grandiloquentes. Peralta dita um ritmo adequado que permite o aprofundamento das sensações e intenções dos personagens. Com simplicidade de meios e engenhosidade, o diretor expande os aspectos nevrálgicos do texto de Julia Spadaccini. A funcionalidade da estrutura de madeira criada pela cenografia de Elza Romero contribui decisivamente para a dinâmica narrativa, em que Michel Blois materializa elementos que ampliam o sentido cênico com a transformação de uma bancada em cama, cadeira de rodas ou uma maca pela sua aptidão para a marcenaria demonstrada na ação cênica, utilizando-se de ferramentas convencionais como serrote, pregos ou martelos.

 Michel Blois é responsável por um dos momentos mais sublimes da atual temporada carioca, proveniente da delicadeza e dos sentimentos aprofundados que exterioriza com sutileza que vão paulatinamente invadindo a atmosfera teatral. Blois não necessita de caracterizações ou maiores artifícios para encontrar a essência de um senhor de 87 anos ou de uma mulher paraplégica. Basta-lhe sua expressividade, o trabalho corporal e a maneira como se comunica apenas com a força do seu olhar.

Euforia” é um espetáculo que só demonstra quão grandes são as possibilidades que o teatro proporciona,  bastando a reunião de criadores da capacidade de Julia SpadacciniVictor Garcia Peralta e Michel Blois  para atingir tanta sensibilidade emocional se utilizando de recursos simples, mas que aprofundam todo um questionamento raramente abordado nas mais diversas expressões artísticas.

Euforia_Michel Blois_créditos Rodrigo Turazzi_9_webFICHA TÉCNICA
Elenco: Michel Blois
Texto: Julia Spadaccini
Direção: Victor Garcia Peralta
Diretora Assistente: Flavia Milioni
Iluminação: Wagner Azevedo
Cenografia: Elsa Romero
Figurino: Ticiana Passos
Trilha Sonora Original: Holograma
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Assistente de Assessoria de Imprensa: Mariana Casagrande
Foto e Vídeo: Rodrigo Turazzi e Duda Paiva
Pesquisa Dramatúrgica: Marcia Brasil
Cenotécnica: Fatima de Souza
Operadora de luz e som: Débora Thomas
Modelos para Arte: Zuka Blois e Terra
Administração de Temporada: Anna Bittencourt
Direção de Produção: Aline Mohamad e Michel Blois
Realização: Eu e Ele Produções Artísticas Ltda

SERVIÇO
Temporada: de 06 a 28 de outubro
Local: Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon – RJ)
Tel.: (21) 2294-4480
Horário: sexta e sábado, às 22h
Ingresso: R$ 20,00
Classificação: 14 anos
Capacidade: 80 lugares
Duração: 50 minutos
Bilheteria: de terça a quinta, das 16h às 20h; sextas, das 16h às 22h; sábado, das 14h às 22h; e domingo, das 14h às 20h
Compras na internet: https://ticketmais.com.br


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Adorei!

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