Crítica: Eugênia


 

Eugenia- Foto-Credito-Thiago Sacramento

Por Renato Mello.

Se encontra em cartaz no Teatro Maria Clara Machado, Planetário da Gávea, o espetáculo “Eugênia”, cuja temporada se estenderá até o dia 31 de maio, sempre às sextas, sábados e domingos às 20:30 horas, com direção de Sidnei Cruz e interpretação de Gisela de Castro.

Eugênia” é um monólogo em que a atriz Gisela de Castro vive a personagem-título que emerge do mundo dos mortos para contar a história de sua vida nos bastidores da corte portuguesa do final do século XVIII e início do XIX. Eugênia José de Menezes, filha do governador de Minas Gerais, dama de companhia de Carlota Joaquina e que manteve um romance com D João VI. Engravidou do Príncipe Regente, mas para evitar maiores implicações sociais e políticas pelo seu estado, foi banida da corte e terminou seus dias exilada num convento.

A base estrutural do espetáculo se encontra no roteiro desenvolvido pela escritora Mirian Halfim, que através de um vasto material bibliográfico construiu uma dramaturgia sólida para que “Eugênia” pudesse se concretizar em cena como um interessante estudo não somente de uma vida em particular, mas também um painel sobre o funcionamento de uma sociedade hipócrita, que não hesitava em destruir vidas e reputações para a manutenção das aparências morais.

A pesquisa de Mirian traz importante contribuição para da difusão que vem ocorrendo nos últimos anos de uma aceitabilidade por parte de uma maior parcela do público por temas relacionados com a  história do Brasil(embora nesse caso específico, os fatos se desenrolem ainda em Portugal, mas com ligação indireta com  a nossa historiografia), fenômeno que tem tido grande incremento principalmente no nosso mercado editorial, através de livros de enorme êxito comercial de nomes como Laurentino Gomes(“1808” e “1822” foram utilizados na pesquisa), Mary Del Priore ou Pedro Doria. Historiadores, jornalistas ou dramaturgos(como Mirian Halfim) tem realizado com seus trabalhos de um modo menos acadêmico e mais acessível a uma maior parcela de leitores(ou nesse caso, espectadores) uma importante aproximação com o público, num trabalho que tem sempre ser estimulado. Embora nesse campo, o teatro tenha sempre um menor alcance(em termos de quantidade numérica de pessoas) que uma obra literária ou mesmo de um filme, que ainda contam com a vantagem de sua perpetuação por gerações, ao contrário de uma obra teatral que tende a ser temporal em sua extensão.

Não creio ser meu papel apontar o caminho pelo qual eu acredito que o espetáculo deveria trilhar, mas sim me ater ao que é de fato apresentado em cena. Ainda assim permito-me um pequeno adendo em relação a “Eugênia”, de que uma forma mais ampla de apresentação e desenvolvimento da narrativa poderia ter tirado um maior proveito do manancial de riquezas que essa história possui, num formado diferente do monólogo. Mas ainda assim na solidão da atriz Gisela de Castro em cena, o texto consegue criar um painel muito aprofundado e rico do universo e da época em que se passa essa história.

Em relação ao personagem-título, como sua própria intérprete definiu, numa entrevista que recentemente nos concedeu, foi “uma mulher que pagou caro por ter engravidado do Príncipe-Regente, despertando a ira da princesa espanhola. O melhor de interpretar essa mulher são suas várias possíveis faces. Ela pode ser vítima, sedutora, mãe, amante, exilada, sapeca, oportunista talvez…”. Essa multiplicidade de possibilidades dentro de um mesmo personagem foi sem dúvidas um enorme desafio para Gisela de Castro, que consegue colocar em cena toda a dubiedade de caráter, trabalhando nos tons corretos para atingir alma tão atormentada, com importante colaboração de Verônica Machado no trabalho de preparação vocal. O trabalho corporal merece, sem dúvida, um grande destaque, pela maneira intensa, completamente dentro do contexto do espetáculo e realizado de maneira extremamente competente pela atriz, naquilo que a própria Gisela definiu como “coisa para atleta”(aplausos para Morena Cattoni, pelo seu trabalho junto com a atriz no desenvolvimento corporal em cena), que com tantos elementos trabalhados de modo homogêneo fazem a atriz alcançar o âmago de sua personagem. Gisela tem realizado nos últimos tempos trabalhos teatrais de grande relevância, seja um clássico de Tchecov(como “As Três Irmãs”) e mesmo no teatro infantil com “Bisa Bia, Bisa Bel”(que foi escolhido como melhor espetáculo infantil de 2014 tanto no Zilka Sallaberry quanto no CEBTIJ). Com “Eugênia”, Gisela de Castro mostra mais uma vez em cena toda a relevância que seus espetáculos têm alcançado no circuito teatral carioca.

Numa forma narrativa tão particular quanto o monólogo, o êxito reside mais do que tudo numa interação completa e quase simbiótica entre a atriz e o diretor. Em qualquer espetáculo cabe a ele conduzir seus atores a atingir o tom da interpretação correto, mas um erro de criação por parte de um dos elementos pode passar desapercebido ou ser relevado para o êxito do espetáculo. No caso do monólogo, não existe rede de proteção e um erro de avaliação ou de concepção coloca tudo a perder. Sidnei Cruz realizou um trabalho milimétrico com Gisela de Castro e tem todos os méritos de leva-la ao ambiente correto, sabendo alterar nos momentos propícios o ritmo e a tonalidade empenhada. Criou muito boas cenas e contextos, aproveitando de maneira satisfatória o espaço do Teatro Maria Clara Machado. Teve importante auxílio de José Dias para a construção cenográfica do espetáculo e sua perfeita ambientação, que com a iluminação de Aurélio de Simoni criou uma atmosfera estética original e propícia para o desenvolvimento da encenação. A ideia extremamente engenhosa de uma tumba, de onde emergem inúmeras caixas carregadas de metáforas, tem o poder de transformar em diferentes elementos a ambientação e fazem uma pela composição, resultando em determinados momentos num interessante impacto visual(como a bela cena de abertura do espetáculo). Os figurinos de Samuel Abrantes desenvolvidos de acordo com a proposta da apresentação, realçando o resultado final da estética do diretor Sidnei Cruz.

Eugênia” é um espetáculo que merece ser visto por seus atributos artísticos e por contar uma ótima história que merecia uma maior difusão. Quem sabe com a voz de Gisela de Castro, Eugênia tenha um eco maior de seus dias de amores e sofrimentos.

Fotos: Thiago Sacramento.

FICHA TÉCNICA
Eugenia2- Foto-Credito-Thiago SacramentoTexto – Miriam Halfim
Direção – Sidnei Cruz
Interpretação – Gisela de Castro
Direção musical, composição e execução – Beto Lemos
Cenário – José Dias
Figurino, adereços e design de aparência – Samuel Abrantes
Iluminação – Aurélio de Simoni
Direção de Produção – Maria Alice Silvério
Assistente de Direção – Viviane Soledade
Assistentes de Produção – George Luis Prata, Anderson Kiroviski e Carolina Godinho
Assistente de Figurino – Rosa Ebee
Preparação Corporal – Morena Cattoni
Preparação Vocal – Verônica Machado
Fotos e Programação Visual – Thiago Sacramento
Assessoria de Imprensa – Armazém Comunicação

SERVIÇO:
Eugênia
Estreia dia 11 de abril
Horário: sexta, sábado e domingo, às 20h30
Teatro Maria Clara Machado (Planetário da Gávea)
Endereço: Rua Padre Leonel Franca, 240, Gávea
Tel: 274-7722
Ingressos: inteira R$ 30,00, meia R$ 15,00
Capacidade: 120 pessoas
Duração: 55 min
Classificação: 14 anos
Gênero: Comédia
Temporada: 11 de abril a 31 de maio de 2015


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