Crítica: Êxtase


 

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Por Renato Mello

Êxtase”, define o dicionário: “condição daquele que está emocionalmente fora de si ou tomado por sensações adversas, intensas e contundentes como: prazer, alegria, medo etc”. Exatamente o título e a temática da peça que se encontra em cartaz no Poeirinha até 1º de outubro, com texto de Walcyr Carrasco e direção de Claudio Gabriel.

Como bem aponta sua proposta, “sozinho e deprimido no dia do seu aniversário, trancado num apartamento financiado pela mãe, Felipe consome o conteúdo de um enorme pacote que estava em poder do seu amigo Raul – o que ele não sabia é que a droga pertencia a traficantes e Raul deveria vendê-la, (segundo estudos 10% dos usuários afirmam já ter vendido alguma parte da substância ilegal que tinham em mãos). Com o sumiço do “produto” o preço passa a ser a vida de ambos (O índice de mortes de usuários não é apenas pela droga, mas por execução como forma de pagamento de dívida). A partir daí, os dois buscam uma saída para o problema criado pelo seu próprio vício”.

Antes de aprofundarmos os aspectos mais orgânicos em si, é preciso fazer uma importante observação em relação a maneira como foi concebido o espetáculo em seu formato de apresentação. O Poeirinha é um dos mais atraentes e instigantes espaços teatrais da cidade(gosto mais dele que do próprio Poeira), pela versatilidade com que convida seu público a assistir peças teatrais de distintos formatos, mexendo por completo na posição das cadeiras, nos pontos de vista do público e no modo como os atores se expõem. Possui uma disposição que não passa a sensação de um espaço pequeno e ao mesmo tempo aproxima o público para dentro da ação cênica. Dito isso, considero um equívoco o arranjo do espaço proposto por “Êxtase”. Eu estava sentado na 3ª fileira e minha visão era prejudicada, mínima para as cenas próximas ao chão, tanto das ações quanto de aspectos cenográficos. Observei com atenção que pessoas ao meu redor(nas fileiras a frente, atrás e ao lado) tinham a mesma dificuldade, inclinando o corpo e o pescoço com contundência. Sem querer parecer ranzinza, essa questão me impediu de absorver a totalidade das ações mais “rasteiras”(e foram muitas). Uma questão que precisa ser revista urgentemente.

Voltando ao espetáculo propriamente dito. O texto de Carrasco objetiva demonstrar o estado de degradação humana e a desestabilização dos laços familiares que seus personagens imergem no encarceramento que estão expostos por suas próprias misérias pessoais em decorrência do vício das drogas. De algum modo é possível perceber um certo diálogo com um outro espetáculo que a cena carioca pôde assistir no final do ano passado na excelente montagem que Jopa Moraes fez para “Shopping and Fucking”, texto de Mark Ravehill, pela maneira como as drogas subvertem todos os códigos morais dos personagens. Porém, ao contrário daquele, “Êxtase” não consegue ascender uma curva dramática tão eloquente, ao contrário, sua narrativa é quebrada no seu decorrer, perdendo consistência e deixando irregular o arco dramático.

De início, a própria atmosfera criada na direção de Claudio Gabriel indicava caminhos promissores, instigando mesmo o que estava por vir, seja pelo efeito lúgubre da iluminação de Ilya Yamasaki, na ambientação que a direção musical de Guilherme Menezes embalava, na presença da guitarra ao canto, com direito a “Summertime”, na forma como se utilizava o espaço físico, desde os camarins até a cabine de luz. Mas o próprio desenvolvimento narrativo cuida de diluir o dimensionamento dos personagens, que Claudio Gabriel não conseguiu trazer novamente aos trilhos, explorando erroneamente inclusive, como já abordado acima, dramatizações em lugares inacessíveis aos olhos de boa parte da plateia.

No elenco, sobressai-se a atuação de Rafael Queiroz, que encontra nuances dentro da gangorra emocional do seu personagem, revelando uma atuação com bastante força dramática, além de um bom trabalho vocal e corporal. Gabriel Canella tem uma performance mais linear no decorrer da apresentação, prejudicado por um estatismo na configuração das linhas dramáticas propostas pelo autor para seu personagem. Marcia do Valle demonstra boa presença cênica, eloquência, encontrando dentro do senso patético a que sua personagem é submetida pelas circunstâncias narrativas, uma boa exploração de um humor nervoso pelo seu espiral emocional.

Cenários e figurinos de Adriano Ferreira em total adequação com a atmosfera proposta, explorando a decomposição do ambiente físico e emocional dos personagens.

Ficha Técnica
Texto: Walcyr Carrasco
Direção: Claudio Gabriel

Elenco: Rafael Queiroz, Gabriel Canella e Marcia do Valle

Direção de Produção: Marcela Casarin
Direção de Movimento: Cristina Amadeo
Direção Vocal: Breno Pessuno
Iluminação: Ilya Yamasaki
Cenário e Figurino: Adriano Ferreira
Direção Musical: Guilherme Menezes
Produção de Apoios: Lívia Machado
Assistência de Produção: Janyne Sousa
Estagiário de Produção: Ricardo Azevedo
Projeto Grafico: Moa Fagundes
Fotografia: Ilya Yamasaki
Realização: Mãe Joana Filmes e Produções
Assessoria de Imprensa: JC Assessoria de Imprensa/ Julyana Caldas

Teatro Poeirinha
R. São João Batista, 104 – Botafogo, Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2537-8053

De 03 de agosto a 01 de outubro
Quintas, sextas e sábados as 21h, Domingos às 20h
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Duração: 80 min

Ingressos: R$50 inteira/R$25 meia/R$20 lista amiga


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Amei sua resenha!
    Gosto de críticos que escrevem o que viram e sentiram!
    Informam, imparcialmente o leitor!
    Tenho nojo dos “críticos” que elogiam eloquentemente ou fazem “a distraída” nas suas “críticas” de montagens medianas ou ruins, pra estar sempre bem na fita e continuarem indo ao teatro sem pagar o ingresso!
    Afff… preguiça desses povinho aproveitador, que vive de mentiras!

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