Crítica: Farnese de Saudade


 

Por Renato Mello

Foto: Daniel Gofman

Foto: Daniel Gofman

Buscando as significações de obra e vida de um dos grandes artistas plásticos brasileiros, “Farnese de Saudade” retorna aos palcos depois de 6 anos para reviver Farnese de Andrade. O espetáculo entra agora na fase final de sua temporada no Teatro Poeira, que perdurará até 29 de abril.

Idealizado por Vandré Silveira, a representação se propõe a ser algo mais que um monólogo teatral, mas a construção da sua intimidade através da interseção da personalidade com a obra para um alcance mais amplo de seu universo, tentando decifrar as entranhas do artista a partir de referenciais d’alma mineira(no sentido mais amplo do que isso signifique), da religiosidade, reminiscências da infância, predominando uma aparente desestruturação da célula mater e como isso influenciou toda uma vivência, uma obra, um legado. Dentro de todo esse contexto, “Farnese de Saudade” é um espetáculo bem-sucedido artisticamente.

Farnese de Andrade deixou uma obra criada sobretudo de materiais descartados que recolhia em praias e aterros. Construiu objetos com cabeças e corpos de bonecas, santos de gessos, com visíveis sinais de deterioração pelo efeito corrosivo do mar, incorporando-os a armários, oratórios, imagens religiosas e retratos de família, fazendo de sua arte um híbrido que ajudam a despir sua própria natureza.

Dirigido por Celina Sodré, tendo como arrimo tanto o texto quanto a cenografia do próprio Vandré Silveira, “Farnese de Saudade” comove, independente do quanto se conheça Farnese de Andrade, embalado por uma concepção cênica que atua na extração da sua emotividade. A direção de Celina Sodré trabalha com delicadeza em toda a base estrutural da representação, mantendo ao longo do espetáculo uma representação uniforme, impedindo qualquer destoar na gravidade emocional. Tem a virtude ainda de explorar com eficiência as diferentes nuances da narrativa de Vandré Silveira, cujo texto é primoroso no sentido de distender pela atmosfera toda as facetas interiores do personagem e retoma-las com mais vigor do que antes, para novamente realizar o mesmo processo.

Foto: Daniel Gofman

Foto: Daniel Gofman

A complexa instalação criada por Vandré Silveira, prendendo o artista e sua obra dentro de uma gaiola, como que vasculhando o seu inconsciente, funciona quase como um personagem, além do seu valor estético, dialogando pela forma como o ator lhe assalta o espaço físico e dos elementos que vão sendo assomados na construção cênica de Celina Sodré.

Vandré Silveira atua com extrema beleza na composição seu personagem e de toda a sinceridade que lhe rondam a composição. Esses aspectos de verdade ficam muito nítidos no modo como busca o olho do espectador, de como se deixa tomar pela emoção numa medida ao mesmo tempo forte, mas sem extravasamentos por percursos vazios, dando-lhe aspectos profundos e vivos.

O figurino de Celina Sodré, como que revirando ao contrário o personagem, contribuem na percepção da sua complexidade, assim como a iluminação de Renato Machado ampliam consideravelmente as zonas sensoriais intencionadas na amplidão de uma personalidade tão diversa.

FICHA TÉCNICA
Atuação, dramaturgia e instalação: VANDRÉ SILVEIRA
Direção: CELINA SODRÉ
Figurinos: CELINA SODRÉ
Iluminação: RENATO MACHADO
Fotos de Divulgação: VICTOR POLLAK
Fotos de Cena: RODRIGO CASTRO
Design Gráfico: MARCELLO QUEIROZ
Vídeo: PEDRO SODRÉ (Copa Filmes)
Assistente de Direção: TUINI BITENCOURT
Cenotécnica: FELÍCIO ALVES e HÉLIO LOPES BARCELOS
Direção de Produção: CAIO BUCKER
Produção Executiva: DANIEL GOFMAN
Produção de Turnê: RICARDO FERNANDES
Mídias Digitais: PRIMETIME PROJETOS EMPREENDEDORES
Administração: CISSA FREITAS e FRANCISCO JÚNIOR
Assessoria Jurídica: NAZÁRIO & WERNECK ADVOGADOS
Assessoria de Imprensa: DOIS PONTOS ASSESSORIA
Coprodução: LANÇAMENTO NOVO PRODUÇÕES
Realização: BUCKER PRODUÇÕES ARTÍSTICAS e VANDRÉ SILVEIRA

SERVIÇO
Temporada: 01 de Março a 29 de Abril de 2018
Local: Teatro Poeirinha
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo – RJ
Telefone: 2537-8053
Horário: Quintas, sextas e sábados às 21h e Domingos às 19h
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia)/ R$ 20,00 (Star Palco)
Classificação: 12 anos
Duração: 50 minutos


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