Crítica: Faroeste Caboclo


 

 

Dizer que “Faroeste Caboclo”, a longuíssima canção de Renato Russo era um roteiro de cinema pronto não é nenhuma novidade e originalidade de minha parte, mas só depois de mais de 25 anos de seu estouro é que finalmente chegou às telas de cinema.

A canção “Faroeste Caboclo” em seus mais de 9 minutos, algo impensável e improvável de acontecer no mercado musical dos nossos dias, conta a história de João, nordestino que abandona Santo Cristo, interior do nordeste e embarca para Brasília cheio de sonhos, se depara e se envolve com violência, tráfico de drogas, preconceito e em meio a isso tudo conhece uma linda jovem, Maria Lucia com quem vive um enorme amor enquanto disputa o poder do submundo das drogas na capital do país. A música foi apresentada pela primeira vez em Brasília, antes do sucesso do Legião Urbana, quando Renato Russo já havia abandonado o Aborto Elétrico e se apresentava pelos palcos brasilienses como o Trovador Solitário.

O responsável por transformar letra de música em imagem é o cineasta brasiliense René Sampaio, que estreia de maneira promissora em longas com esse filme. Sampaio pode não ter seguido ipsis literis a música, mas toda a sua essência está preservada e não há como negar fidelidade às trovas de Renato Russo. Enquanto os 100 minutos de filme vão passando pela tela, alguns trechos da música nos vem à mente, aonde visualizamos perfeitamente certas frases, como:

E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal

“Meu Deus, mas que cidade linda,
No Ano-Novo eu começo a trabalhar”…

E até situações um tanto inusitadas da canção:

E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô

Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá…

 O filme de Sampaio reproduz toda a efervescência da Brasília dos anos 80, toda uma geração criada na capital, aonde todo mundo é filho de alguém, general, senador, diplomata, ministro. Quem não é filho de “alguém” vive por cidades-satélites e adjacências, Taguatinga, Planaltina, etc. O surgimento do rock, até uma sugestão de Legião Urbana sob uma penumbra, além de canções da Plebe Rude riscam a tela, ajudando na recriação de um período em que um novo Brasil parecia querer surgir, com o fim da ditadura militar e o início de um sentimento de libertação para aquela juventude,

Estão ali retratados os principais personagens: João, Maria Lucia, Jeremias, Pablo. Sampaio demonstrou ser um ótimo diretor de atores, soube conduzir com perfeição seu elenco. Fabricio Boliveira consegue uma bela interpretação de João de Santo Cristo, passa com o olhar todo o ódio e a revolta do personagem com o mundo e a sociedade, seu olhar nos sugere novas trovas:  “Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu”, “De escolha própria, escolheu a solidão”, “E pro inferno ele foi pela primeira vez/Violência e estupro do seu corpo/Vocês vão ver, eu vou pegar vocês” ou ainda “E pro inferno ele foi pela segunda vez”. Seu simples olhar nos faz acreditar ter vivido tanto horror.

Felipe Abib como Jeremias e César Troncoso como Pablo estão bem e no tom correto de seus personagens. No caso de Abib, até surpreende porque só o tinha visto em comédias. Mas a prova definitiva da competência de Sampaio nesse campo está na interpretação de Isis Valverde, vivendo Maria Lucia, com bela atuação, mostrando que se bem conduzida pode ter bom rendimento, mas principalmente na interpretação magistral de Antônio Calloni, que interpreta Marco Aurélio, um policial bandido e corrupto(que não existe na música). Calloni, longe dos textos constrangedores de Glória Perez e livre da superficialidade das novelinhas da televisão nos fez relembrar que era um bom ator, algo que havíamos esquecido há tempos.

A trilha sonora é assinada por Phillipe Seabra, ex integrante da Plebe Rude e que conhece como poucos o universo, a geografia e o período retratado. Sua trilha trabalha com influências de alguns elementos do velho western Spaghetti de Sérgio Leone e funciona extraordinariamente para  o clima  poeirento desse faroeste no cerrado do planalto.

Como um faroeste que se preze, é um filme que se utiliza da violência, mas tudo dentro do contexto como a própria música sugere, tal violência está no tom correto, mesmo para mim que não sou fã dos arroubos e da mão pesada de alguns cineastas. Ao contrário do também recentemente lançado “Somos Tão Jovens”, filme de Antônio Carlos da Fontoura retratando um Renato Russo pré Legião Urbana, “Faroeste Caboclo” é um filme forte, impactante, competente e com uma narrativa vigorosa, algo que estava faltando no cinema brasileiro.

Abaixo, video do Legião Urbana cantando “Faroeste Caboclo“.


Palpites para este texto:

  1. Leandra Barros -

    Cara,fiquei c vontade de ir no cinema agora p ver o filme…se fosse mais cedo eu irir!Amei!

  2. O que achei mais legal foi nos créditos. Todo mundo permaneceu sentado até o fim da Musica. Arrepiante!

  3. Excelente critica, Renato. Acabei de ver o filme e concordo inteiramente com voce.

  4. Obrigado, Natasha. Palavras generosas as suas. Leandra, vale a pena, o filme merece ser visto.

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